J. A. D. (2019)

 

 

No dia 14 de maio de 2019, após a exibição de duas curtas-metragens – “Laura”, de Tânia Dinis, e “A Gis”, de Thiago Carvalhaes –, apresentei uma conversa dedicada a João Antônio Donati na Despina na cidade do Rio de Janeiro, onde estava a residir artisticamente durante o mês de maio. Como é de costume, sempre apresento imagens da cidade que nasci no início das minhas conversas em público. Aqui não foi diferente. No dia anterior, ao colocar “Inhumas” no Google Imagens, deparei-me com a fotografia do corpo do João, que foi assassinado no dia 10 de setembro de 2014. Essa imagem já conhecia* porque descobri a morte dele através dela postada por um idiota sem noção no Facebook na altura de seu assassinato. Tudo mudou então na residência artística e intuitivamente fui conduzido a criar a epígrafe “as lágrimas da dor serão secadas pelo sol em pouco tempo” para um pequeno conjunto de pinturas em acrílico que mostrei no meu estúdio aberto no dia 29 de maio de 2019. O nome dessa série é “J. A. D.” – as iniciais do nome completo do João.

 

* No dia 05 de setembro de 2015, em entrevista a José Carlos Henrique, menciono: “A primeira lembrança que me veio à tona, através dessa sua pergunta, foi o trágico assassinato de cunho homofóbico de João Antônio Donati, conhecido carinhosamente como Joãozinho, em Inhumas. Apesar de o delegado responsável pela investigação ter descartado que o criminoso não tenha agido por homofobia e que não é homossexual, mesmo tendo tido algumas vezes relações com homens, esse caso me deixou estarrecido. Conheci o Joãozinho na minha pré-adolescência. Ele ainda era criança, morava na mesma rua que a minha avó materna e por vezes brincava com o meu primo. Apesar de eu ter me mudado de cidade e ele também, conversamos raríssimas vezes pela rede social ou pessoalmente quando eu e ele estávamos em Inhumas. Fiquei sabendo da sua morte ao ver a fotografia de seu corpo nas minhas atualizações do Facebook. Em choque, liguei para minha mãe para constatar se aquela notícia realmente era verdadeira. Sim, era verdadeira. Dor e lamento em várias camadas ao imaginar o sofrimento dele, da mãe dele, minha mãe no lugar da mãe dele e, por fim, eu sendo ele.” (HENRIQUE, José Carlos. “Entrevista com Paulo Aureliano da Mata”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 4, n. 15, jan. 2016. ISSN: 2316-8102.)

 

Paulo Aureliano da Mata, as lágrimas da dor serão secadas pelo sol em pouco tempo, 2019. Intervenção em parede, aprox. 45 x 100 cm

 

Paulo Aureliano da Mata, da série J. A. D., 2019. Acrílica sobre tela, 10 x 10 cm; 20 x 20 cm

 

Nem a cor amarela presente na série de pinturas em pequeno formato apresentadas por Paulo da Mata, nem o dourado que dá cor a outros trabalhos e detalhes na mesma série apaziguam a busca pelo sol vindouro citado pelo artista na frase pintada sobre a parede do espaço de seu ateliê, como intervenção. Muito embora os trabalhos em tela tenham se constituído numa lógica processual, de livre investigação da cor – o que constrasta com a metodologia projetiva de vários trabalhos seus, pensados como capítulos de um longo romance – arriscaria de antemão relacionar estas pinturas com o auxílio de uma palavra inscrita em uma delas: caos. De caráter informe, como poderiam também sugerir as bordas vacilantes da tipografia empregada pelo artista, este vazio primordial, tanto indefinido quanto ilimitado, propiciou o nascimento de todos os seres e realidades do universo. Mesmo a ordem é precedida pelo caos e desta relação temporal mais complexa – note que a palavra “serão” resguarda um futuro que acontecerá em breve, uma promessa sem escalas, em pouco tempo – surge esta epígrafe, cujas tintas tornam-se provocadoramente políticas à luz do contexto político recente.

— Ulisses Carrilho, curador

 

HISTÓRICO

[2019] Senado Tomado #8. Despina, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.