Capítulo Três: Aliança

 

SINOPSE

Aliança, palavra que se refere a um adorno usado em matrimônios, carrega em si o significado da própria junção do casal, podendo significar união, casamento, além da sua simples acepção para definir um tipo específico de anel. A performance/instalação é um ritual de casamento no sentido estrito. É uma performance artística, um ritual pseudorreligioso e um ritual estético; é um ritual liminar e liminoide. É arte e vida ao mesmo tempo.

 

Da Mata e Tales Frey, Aliança. Performance realizada em Catanduva, Brasil. Março de 2013. Fotografias de Gustavo Rosa Fontes, Nathália Mello e Paola Frey

 

DESCRIÇÃO

No dia 13 de março de 2013, no último dia da exposição Beija-me, iniciamos o nosso ritual de casamento, oficializando nossa parceria de arte e vida. Concluímos a nossa cerimônia no dia 15 do mesmo mês, portanto, a performance foi realizada em duas etapas. Do casamento (contrato sancionado pelo Estado) adveio a poética visual proposta por nós em uma obra que tem as nossas assinaturas, ou seja, é um trabalho coautoral. Com essa obra, buscamos imprimir o amor em detrimento da exclusão, do preconceito, afirmando as diferenças em detrimento do convencionalismo fortemente concentrado em diversos meios religiosos e, também, nos mais triviais.

A performance/instalação aconteceu em uma sala de exposição vazia, que foi sendo preenchida por flores pelos espectadores [1] e por marcas de beijos de batom por nós performers. Além da silhueta que desenhamos com flores à tarde, antes da abertura da exposição, com a colaboração da artista Nathália Mello, a nossa ação consistia unicamente em registrar carimbos de beijos com nossas bocas pintadas por batons de cores intensas (batons pretos e vermelhos que duram 24h nos lábios). De um lado, um de nós iniciou a construção de colunas de beijos que correspondeu à altura do corpo de quem beija, onde era constituída uma espécie de pintura com os lábios que marcavam diversos beijos (um ao lado do outro). Fizemos a mesma ação, cada um vindo de um lado da entrada da sala, até que nos encontramos num determinado ponto. No encontro, beijamos a mesma superfície, carimbando um beijo sobre o outro em tonalidades mais avermelhadas que as anteriores, que tinham tons roxos e que, com a secagem, adquiriram coloração negra. Por fim, demos um beijo do tipo “selinho” e partimos para casa da nossa família.

A performance ocorreu uma única vez, com potente eficácia ritualística, já que transformou o nosso estado civil para sempre. De “solteiros”, passamos para a situação de “casados”. Nem se quisermos podemos voltar à primeira condição, pois se dermos fim ao nosso casamento, seremos “divorciados”, “viúvos”, mas jamais “solteiros” outra vez.

O batom – que permaneceu em nossos lábios por um pouco mais de 24 horas – e a marca da fricção da ponta dos nossos narizes – que eram ralados todo o tempo na superfície dos módulos brancos que delimitavam a sala da performance dentro da nossa exposição – marcaram o elemento transitório entre a ação que consideramos a nossa “festa de casamento” (acontecimento público) e o evento do registro no cartório (anunciado no diário oficial do jornal local). A regra geral de um casamento foi reestabelecida: a festa foi o episódio da performance, que aconteceu antes do evento no cartório. Usamos jeans e camisetas pretas da grife Der Metropol, com detalhes em estampa de flores. No dia da assinatura do contrato de casamento, vestimos camisa feita com o mesmo tecido dos detalhes com estampa de flores da Der Metropol, camiseta da marca Adidas desenhada por Jeremy Scott e estampada de ursinhos de pelúcia.

Ao fundo de uma das paredes, deixamos, desde o primeiro dia da exposição Beija-me, um vídeo “em loop” com fotos em tonalidades avermelhadas, que eram trocadas de 1 em 1 segundo, as quais exibiam sobreposições de imagens de nossas cicatrizes e tatuagens e, também, de partes avulsas dos nossos corpos, estabelecendo uma fusão dos nossos estigmas, das nossas dores, das nossas vivências e memórias, formando um novo corpo, um corpo em comunhão.

Servimos bem-casados e beijinhos; doces que eram acompanhados por uma limonada condimentada com água de flor de laranjeira, refresco que marca o nosso primeiro ano de namoro. Os dois garçons-performers vestiam-se com vestidos brancos em tule.

Além da apresentação de fotos e vídeos, a performance pode ser refeita, mas apenas como ação estética e não mais com a eficácia ritualística transformadora, pois já estamos casados.

 

NOTA

[1] Os espectadores eram avisados desde o primeiro dia da exposição, 5 de março de 2013, para levarem tais elementos. O aviso colado na sala dizia: “Traga-nos flores e faça parte integrante do nosso ritual de performance-casamento que acontecerá exatamente neste local”.

 

Da Mata e Tales Frey, frames de Aliança, 2013

 

FICHA TÉCNICA

Performance: Da Mata e Tales Frey | Garçons crossdressers: Carlos Alexandre e Lucas Alves | Duração da Ação: em torno de 2 horas | Realização: Cia. Excessos | Catanduva, SP, Brasil 2013

→ a performance foi executada como parte da exposição Beija-me, a qual foi realizada pelo VI Festival de Formas Poéticas e pela Dell’Arte Associação Cultural, com apoio do Governo do Estado de São Paulo, da Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural 2012 (PROAC).

 

HISTÓRICO

AO VIVO

[2013] Exposição coletiva Beija-me. Organização e curadoria de Da Mata e Tales Frey. IV Festival de Formas Poéticas, Estação Cultura, Catanduva, SP, Brasil.

 

SOB FORMATO VIDEO, INSTALAÇÃO E/OU FOTOGRAFIA

[2016] Exposição coletiva Em Estado de Guerra. Organização e curadoria de Da Mata e Tales Frey. Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, Portugal.

[2015] Exposição coletiva Beija-me. Organização e curadoria de Da Mata e Tales Frey. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil.

[2013] Exposição coletiva Moda e Religiosidade em Registos Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura – CAAA, Guimarães, Portugal.

 

AMBIENTAÇÃO

Tratando-se de um evento extraordinário como o nosso próprio casamento, julgamos ser de suprema importância que o nosso matrimônio fosse realizado na cidade de Catanduva, estado de São Paulo, onde quase toda a nossa família reside. Além disso, num momento em que um pastor evangélico, deputado federal, presidia, em nosso país natal, a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e, negando uma política supostamente laica, pregava o ódio aos homossexuais e negros em seu discurso, nós assumimos a urgência de agitar o lugar-comum dessa sociedade, transformando nosso casamento em composição performática. O sentimento de fé descomedida, de fanatismo religioso que condena a liberdade do sujeito tem crescido de forma atemorizante no Brasil, sendo desenfreadamente introduzido no meio político pelos devotos de sentimentos religiosos extrapolados.

A performance, parte mais ousada do nosso ritual de casamento, foi realizada na Estação Cultura, ambiente dedicado às artes que há na sede da Secretaria Municipal de Cultura de Catanduva. Coincidentemente, há, bem em frente ao recinto, uma Igreja Evangélica Assembleia de Deus.

Telefonemas de religiosos fervorosos, de preconceituosos sem religião, entre vários outros que se posicionavam contra o evento, marcavam o impedimento para que a performance Aliança não fosse realizada na sede da Secretaria Municipal de Cultura da pequena cidade. Em vão, pois todos da área da cultura da cidade colaboraram para que o evento fosse indefectível.

 

Da Mata e Tales Frey, Aliança, 2013. Vídeo, 2’35”

 

REFERÊNCIAS/PROCESSO

A primeira referência visual da qual nos servimos foi um trabalho de Ana Mendieta, em que a artista deita-se em meio a várias flores e marca o seu corpo naquele espaço. O recurso visual de desenhar silhuetas corporais proposto pelo trabalho de Mendieta, consistia em visitar o signo da morte em uma ocorrência repleta de vida.

Em seguida, nos debruçamos na pesquisa sobre outros trabalhos que pudessem dialogar de alguma forma com o nosso e, então, esbarramos com Kiss off, de Vito Acconci; percebermos, nessa obra, um eco da própria série de beijos da Cia. Excessos, conjunto de performances composto por O Beijo, O Beijo II, Reciprocidade Desalmada, O Outro Beijo no Asfalto, Beija-se e, finalmente, Aliança.

Kiss off, ao trazer um homem a usar batom (artigo tido por feminino) para carimbar beijos em alguma superfície, dialoga com Aliança. O gesto narcisista da obra de Acconci gera, como objeto, um corpo masculino repleto de beijos (os quais supõe-se terem vindo de lábios femininos), enquanto Aliança origina um espaço repleto de marcas de beijos (igualmente calculados como marcas corporais femininas).

No que diz respeito à afirmação da diversidade com relação à sexualidade de cada indivíduo, a performance (assim como a exposição) acabava por se harmonizar com o discurso LGBTQIA, com a teoria Queer e com os ideais feministas. Coincidentemente, semanas depois da nossa ação, uma série de beijos entre artistas do mesmo sexo serviu de estratégia para chamar a atenção da mídia a favor da eliminação do pastor evangélico Marcos Feliciano da presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados no Brasil. Entre outros exemplos desse ato, destaxamos o beijo entre as atrizes Fernanda Montenegro e Camila Amado durante a 7a edição do APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio).

Na capa da revista norte-americana Time, o protesto da imagem de beijos entre duas pessoas do mesmo sexo veio acompanhado da seguinte frase: “The Supreme Court hasn’t made up its mind – but America has”, evidenciando (ou cogitando) que a opinião da maioria é a favor do casamento gay, que atualmente só é reconhecido em legislações estaduais nos EUA.

Na França, embora o casamento gay já seja reconhecido, centenas de milhares de pessoas protestavam no início de 2013 contra a união entre pessoas do mesmo sexo, principalmente por ter sido aprovada, naquele país, a adoção de crianças entre casais homossexuais.

A criação de Aliança arriscou um ritual particular, talvez porque a homossexualidade seja repelida pela maior parte das religiões: “o Islamismo, o Judaísmo ortodoxo e muitas igrejas protestantes fundamentalistas são homofóbicas” [1].

Por último, a performance Emotion in Motion, de Nezaket Ekici – em que a artista carimba beijos em seu próprio corpo e em todo espaço do interior de uma casa (sofá, cadeira, tapete, chão, janela, vasos, paredes, teto etc.) – motivou que eu e Paulo construíssemos um corredor de beijos em quatro paredes de uma sala de exposição até obtermos o nosso tumultuado encontro registrado em beijos mais intensos de coloração de tom vermelho vivo, que se diferenciava dos anteriores beijos em tons menos ardentes, mais fúnebres, que se tornaram negros com o passar do tempo, com a secagem do batom sobre a tinta branca dos módulos da galeria.

 

NOTA

[1] SCHECHNER, Richard. “Ritual, jogo e performance”. apud. LIGIÉRO, Zeca (org). Performance e Antropologia de Richard Schechner, Rio de Janeiro, Mauad X, 2012, p. 85.

 

Diário da Região: O Avanço do Casamento Gay. Catanduva, 10 de dezembro de 2014. Ver em: http://issuu.com/ciaexcessos/docs/di__rio_da_regi__o_dezembro_2014