{"id":1173,"date":"2015-09-08T00:21:05","date_gmt":"2015-09-08T03:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1173"},"modified":"2020-12-25T00:37:24","modified_gmt":"2020-12-25T03:37:24","slug":"texto-4","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-4\/","title":{"rendered":"&#8221;Efemeridade &#8216;Versus&#8217; Eternidade: Ode aos Vermes e aos Confeitos de Chocolate&#8221;, de Thais Nepomuceno"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Este texto de Thais Nepomuceno foi publicado em: <\/em>idan\u00e7a.net<em> (Julho de 2013)<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Conflituosas e circunjacentes na cultura contempor\u00e2nea, mais do que uma mera afinidade, Tales Frey, com a Cia. Excessos, prop\u00f4s uma esp\u00e9cie de \u00f3sculo entre a moda e a religiosidade, que serve de motivo para as concep\u00e7\u00f5es performativas do coletivo expostas\u00a0<strong>[1]<\/strong>\u00a0no Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura na cidade portuguesa de Guimar\u00e3es entre 1 e 30 de junho de 2013. Registos fotogr\u00e1ficos e videogr\u00e1ficos do duo de artistas brasileiros que vive entre o Brasil e Portugal garantiram a materialidade de uma express\u00e3o art\u00edstica que, em princ\u00edpio, apresenta-se como ef\u00eamera. Por vezes, n\u00e3o s\u00e3o sinais palpabilizados dos gestos performativos, mas sim a concretiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria obra rotulada como \u201cfotoperformance\u201d e \u201cvideoperformance\u201d, ou seja, g\u00eaneros art\u00edsticos que combinam a performance com outros meios de express\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Um in\u00f3cuo convite recebido para presenciar,\u00a0<em>in loco<\/em>, a performance-anivers\u00e1rio intitulada\u00a0<em>Proxim(a)idade<\/em>, do artista Tales Frey, descrevia o evento \u2013 dia 20 de junho \u2013 como um rito de passagem e ritual art\u00edstico. E, precisamente, trata-se sim de um ritual no sentido estrito do termo, tal e qual o te\u00f3rico \u00c9mile Durkheim descreve quando diz que \u201critual \u00e9 pensamento em\/como a\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0<strong>[2]<\/strong>,\u00a0ou ainda Richard Schechner, que destaca pensadores como Arnold van Gennep e Vitor Turner para reconhecer as din\u00e2micas espetacularizadas do ritual quando menciona as sucess\u00f5es de passagens das quais a vida \u00e9 composta, o que significa exatamente \u201critos de passagem\u201d, que produzem transforma\u00e7\u00f5es decisivas (ideia de\u00a0<em>efic\u00e1cia<\/em>\u00a0da performance), como, por exemplo, o casamento, o funeral e o anivers\u00e1rio. O performer de fato fez uso de todos os elementos citados acima em suas cria\u00e7\u00f5es; em\u00a0<em>Alian\u00e7a<\/em>, realizou, com Paulo Aureliano da Mata, um casamento no sentido estrito, mas dilu\u00eddo em um ritual art\u00edstico. Em\u00a0<em>Proxim(a)idade<\/em>, cumpriu a passagem dos seus trinta anos de idade para os trinta e um, como se seu corpo, horas antes de ressurgir com a idade nova, ocupasse uma esp\u00e9cie de casulo para, posteriormente, renascer, ressurgir, voltar ao meio depois da passagem transformadora.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tales estava maquiado com uma pasta sobrecarregada de chocolate no rosto, ornada por granulados coloridos e outros doces igualmente avivados. Seu corpo estava enrolado em sua totalidade com fitas de m\u00faltiplas cores, como uma m\u00famia. Do centro do seu corpo, na altura do umbigo, divergiam trinta e uma fitas que sustentavam equivalente n\u00famero de bal\u00f5es a g\u00e1s. O corpo permanecia quase im\u00f3vel (respira\u00e7\u00e3o intensa e espasmos eram repetidos) sobre um palco italiano iluminado por tr\u00eas pares de refletores. Um foco, com a precis\u00e3o de um refletor elipsoidal, delimitava uma mesa farta de guloseimas que permanecia fora do palco, onde o p\u00fablico podia interagir. Um \u00e1udio permanecia em\u00a0<em>loop<\/em>, narrando, em palavras desconexas (quase esquizofr\u00eanicas), o paradoxo existente no dia em que comemoramos mais um dia de vida e ao mesmo tempo lamentamos a aproxima\u00e7\u00e3o do nosso derradeiro fim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A imagem festiva se perdia na funesta quando v\u00edamos o corpo respons\u00e1vel pelo evento em estado de mumifica\u00e7\u00e3o, ladeado por uma mesa que, ao inv\u00e9s do cl\u00e1ssico ch\u00e1, caf\u00e9 e bolachas de um funeral, estava repleta de doces e sucos pr\u00f3prios de um anivers\u00e1rio de crian\u00e7a. V\u00edamos um vel\u00f3rio ao mesmo tempo que enxerg\u00e1vamos uma animada festa infantil, sem bebidas entorpecentes, pois o excesso de cores e de a\u00e7\u00facar j\u00e1 estabelece tal torpor, j\u00e1 destr\u00f3i o limite entre a\u00e7\u00e3o e espectador. Alguns comiam os doces que enfeitavam o corpo do artista, como o beijo derradeiro no defunto ou como o dedo que fura o bolo da festa antes de ele ser servido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A performance-ritual era, igualmente, performance-instala\u00e7\u00e3o; portanto, apesar do palco italiano e das cadeiras na plateia, o p\u00fablico podia subir no palco, sair e retornar \u00e0 sala quando bem entendesse. A \u201cina\u00e7\u00e3o\u201d durou quase tr\u00eas horas e, provavelmente, exigiu grande preparo f\u00edsico do performer; este, sem fazer quase nenhum movimento com o corpo, conduziu-o \u00e0 completa exaust\u00e3o, que percebemos em outros trabalhos da Cia. Excessos, tais como em\u00a0<em>Re-banho<\/em>\u00a0(2010),\u00a0<em>Beija-se<\/em>\u00a0(2012),\u00a0<em>Atendo ao Molde<\/em>\u00a0(2013),\u00a0<em>Alian\u00e7a\u00a0<\/em>(2013) etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Perseguidos e escravizados por uma m\u00eddia que tem obsess\u00e3o pela beleza e juventude, deduzimos que os correspondentes sinais do nosso derradeiro fim, da nossa natural decomposi\u00e7\u00e3o, podem (ou ainda, devem) ser mascarados, disfar\u00e7ados por debaixo de grosseiras maquiagens, dissimulados pelo aux\u00edlio das cirurgias pl\u00e1sticas, quando deviam ser simplesmente aceitos, pois, como sabemos, n\u00e3o somos eternos e, dia a dia, adquirimos sinais de tal efemeridade da vida. Talvez atrav\u00e9s da simbologia dos bal\u00f5es que fariam a alma do performer levitar, subir, ascender, transcender, ele, ceticamente, queira nos demonstrar que os bal\u00f5es, na verdade, s\u00e3o fr\u00e1geis demais e estouram antes de nos moverem para qualquer outro lugar, provando o laconismo da vida e o natural apodrecimento da mat\u00e9ria, motivo que faz o ser humano, por medo, alimentar a sua repugn\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o natural para n\u00e3o encarar o fato de n\u00e3o ser eterno.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]<\/strong>\u00a0Refiro-me a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Moda e Religiosidade em Registos Corporais<\/em>. De Tales Frey, est\u00e3o expostos os seguintes trabalhos em v\u00eddeo e\/ou fotografia:\u00a0<em>Re-banho<\/em>\u00a0(2010),\u00a0<em>Faceless<\/em>\u00a0(2011),\u00a0<em>Beija-se<\/em>\u00a0(2012),\u00a0<em>Por um Fio<\/em>\u00a0(2012),\u00a0<em>The Other Asphast Kiss<\/em>\u00a0(2012),\u00a0<em>Dismorfofobia<\/em>\u00a0(2012),\u00a0<em>(De)Reter-se<\/em>\u00a0(2013),<em>\u00a0Atendo ao Molde<\/em>\u00a0(2013),\u00a0<em>Sede V\u00f3s<\/em>\u00a0(2013) e, ao vivo, a a\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Proxim(a)idade<\/em>\u00a0(2013). De Paulo Aureliano da Mata: o tr\u00edptico fotogr\u00e1fico\u00a0<em>Romance Violentado<\/em>\u00a0(2011). De ambos artistas:\u00a0<em>Alian\u00e7a<\/em>\u00a0(2013), sob forma de fotografia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[2]\u00a0<\/strong>SCHECHNER, Richard.\u00a0<em>apud<\/em>. LIGIERO, Zeca (org).\u00a0<strong>Performance e Antropologia de Richard Schechner<\/strong>, p. 58.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Thais Nepomuceno foi publicado em: idan\u00e7a.net (Julho de 2013). &nbsp; Conflituosas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":1002,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1173","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1173"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6937,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1173\/revisions\/6937"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}