{"id":1179,"date":"2015-09-08T00:26:55","date_gmt":"2015-09-08T03:26:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1179"},"modified":"2020-05-27T11:35:49","modified_gmt":"2020-05-27T14:35:49","slug":"texto-6","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-6\/","title":{"rendered":"&#8221;Impress\u00f5es de Quem Esteve Pr\u00f3xima: Um Relato das Reflex\u00f5es Suscitadas pela Performance &#8216;Proxim(a)idade&#8217;, de Tales Frey&#8221;, Por Ana Cristina Joaquim"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Ana Cristina Joaquim foi publicado em: <\/em>Sotaques<em> (Mar\u00e7o de 2015).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Qu\u00e3o pr\u00f3ximos estamos da morte? A quantos passos e conforme que velocidade ela caminha em nossa dire\u00e7\u00e3o? Varia a velocidade? \u00c0 dist\u00e2ncia de um despenhadeiro? De um pa\u00eds long\u00ednquo ou de um avi\u00e3o que sobrevoa o atl\u00e2ntico no trajeto LIX-GRU? \u00c0 dist\u00e2ncia do hospital mais pr\u00f3ximo coberto pelo plano de sa\u00fade que mensalmente nos previne de males tais?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Sobre a proximidade ou vizinhan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel falar de duas maneiras: ou em retrospecto, isto \u00e9, por meio da dist\u00e2ncia que nos empurra, segundo a segundo (com horas, dias, meses e anos mensur\u00e1veis), para mais longe do dia do nosso nascimento; ou em prospecto simb\u00f3lico \u2013 e \u00e9 nesse sentido que nos inquieta o t\u00edtulo escolhido por Tales Frey para a performance elaborada em ocasi\u00e3o do seu trig\u00e9simo primeiro anivers\u00e1rio: <em>Proxim(a)idade.<\/em> Inquieta justamente por tornar evidente a proximidade progressiva da morte a cada pr\u00f3xima idade completada. \u00c9 de tempo que se trata, portanto. Se digo prospecto, o termo ecoa temporal: a morte, n\u00e3o estando no passado nem no presente, s\u00f3 pode estar no futuro. Mais al\u00e9m, se digo simb\u00f3lico, digo por acreditar que apenas simbolicamente \u00e9 que podemos nos situar mais ou menos pr\u00f3ximos da morte, pois n\u00e3o \u00e9 a morte uma ideia vaga e fugidia, da qual s\u00f3 temos not\u00edcia pela via negativa? Experi\u00eancia da aus\u00eancia: o outro que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. A morte \u00e9 s\u00edmbolo \u2013 afirmo \u2013 e assim o \u00e9 sempre que tivermos em vista a vida como alvo, o medo como foco, a d\u00favida como perman\u00eancia, o corpo como limite.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Conv\u00e9m, enfim, tomar como eixo este que \u00e9 presen\u00e7a &amp; exist\u00eancia (no presente, claro, \u00fanico tempo que nos resta): o corpo, ele mesmo eixo de qualquer a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica. Conforme as palavras do performer Tales Frey: \u201cuso meu corpo como campo simb\u00f3lico para converter signos que marcam o ritual de passagem do meu anivers\u00e1rio em an\u00fancios da proximidade com a minha morte\u201d. Com a finalidade de se \u201ctransformar em uma esp\u00e9cie de m\u00famia, com a forma de um defunto\u201d, o performer concebe o ato como \u201cuma esp\u00e9cie de funeral, em que os observadores pudessem conversar, beber e comer, enquanto contemplassem meu [seu] corpo quase inerte no espa\u00e7o\u201d: da\u00ed a <em>proxim(a)idade <\/em>pela qual a morte se apresenta ao p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tales Frey permanece deitado por tr\u00eas horas, com o corpo quase todo enrolado em fitas coloridas (com a exce\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a, que est\u00e1 coberta por confeitos, cremes de bolo, granulados e balas de goma coloridas) e preso a bal\u00f5es de h\u00e9lio pela cintura, na altura do umbigo, \u201ccomo se quisesse faz\u00ea-lo [o corpo] ascender\u201d. Novamente os signos se confundem, num procedimento que dilui o jogo de oposi\u00e7\u00f5es: do corpo-bolo ao corpo-m\u00famia, das cores diversas (celebra\u00e7\u00e3o da vida) \u00e0 imobilidade (sintoma de mortifica\u00e7\u00e3o); os bal\u00f5es coloridos \u2013 caracter\u00edsticos das festas de anivers\u00e1rio em que se comemoram o nascimento \u2013 s\u00e3o o elo de maior impacto visual entre vida e morte, j\u00e1 que apontam para o c\u00e9u, destino m\u00edtico do esp\u00edrito destitu\u00eddo de corpo. Acontece, entretanto, uma invers\u00e3o de maior import\u00e2ncia, que recoloca o corpo no centro da quest\u00e3o vida\/morte: a simbologia implicada nos bal\u00f5es torneando a cintura incide propriamente sobre o corpo, de modo que n\u00e3o se trata do esp\u00edrito em ascens\u00e3o, mas do corpo mesmo, mat\u00e9ria ascendente carregada pelos bal\u00f5es em n\u00famero coincidente com a idade do performer.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Algumas palavras ainda, palavras, ali\u00e1s, com que somos embalados no decorrer da performance: em <em>off<\/em>, a voz de Tales Frey levemente distorcida para o grave, repetindo, por 3 horas seguidas, fragmentos de lembran\u00e7as de anivers\u00e1rios precedentes em mescla com reflex\u00f5es sobre a morte. Ouvimos: \u201cVermes nos doces\u201d&#8230; \u201cAcender velas. Ascender. Subir\u201d&#8230; \u201cTenho todos os anos. tenho todos espelhos\u201d&#8230; \u201cUrna. Caix\u00e3o. Saud\u00e1vel\u201d&#8230; \u201cNatureza morta\u201d&#8230; etc. etc. etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Trata-se mesmo de uma identidade (vide a figura do espelho) que se persegue no entretempo entre vida e morte, com as duas palavras a ressoar repetidas nas figura\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas ali propostas, como uma esp\u00e9cie de redemoinho cronol\u00f3gico em que o ponto de princ\u00edpio \u00e9 tamb\u00e9m o ponto de chegada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Venham ver a morte encarnada, est\u00e1 ao alcance dos olhos, da escuta, do toque, do olfato (odor adocicado, sedutor&#8230;) e, por que n\u00e3o, do paladar: aproximem-se!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Ana Cristina Joaquim foi publicado em: Sotaques (Mar\u00e7o de 2015). &nbsp; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":1003,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1179","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1179"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6304,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1179\/revisions\/6304"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}