Poemas

 

Poema

DEISE-FLOR

Hilda de Paulo / Junho de 2022

 

Deise-flor

Exaustivamente

Te procuro

Por todos os cantos

Da enorme ruína

De concreto

Com partes inundadas

E portas

E paredes quebradas

Pela noite

 

A ruína se acaba

E não encontro

Deise-flor

 

Aconteceu

Igualmente

Noite anterior

De Deise-flor

Perdida

E não encontrada

Nos muitos corredores

Da estação de metrô

 

Saudades

Deise-flor

Amada filha

Que morreu

Nos braços

Da mamãe

Travesti

Que muito te ama

 

Poema

LEONOR LOTTE

Hilda de Paulo / Junho de 2022

 

Conhecimento soterrado

Da esquecida e solitária

Historiadora da arte

Leonor Lotte

Que apesar de sua língua afiada

As condições históricas

Não favoreceram seu discurso

 

Poema

SEM TÍTULO

Hilda de Paulo / Março de 2022

 

Imorais

Considerados contra natura

Pecadores e criminosos gravíssimos

Contra a moralidade e a vontade divina

Fazendo uma rebelião dolosa contra a criação de Deus

A estrutura da família, a hegemonia masculina e o matrimônio

Ameaçados pelas “confusões do sexo”

Levam as Ordenações a proibir que homens se passem por mulheres

E estas por homens

 

Homens e mulheres proibidos

De trajarem vestimentas de seu “sexo oposto”

Mas nos raros casos de intersexualidade

Ou em festas, jogos e representações teatrais

Os hábitos eram tolerados

E criminalizados

Se associados a práticas sexuais

À margem da moral aceita

 

Século XVI

Registros históricos de Portugal

De uma história dominante

Repleta de reminiscências de possibilidades alternativas

Para o nosso trabalho subversivo

De traçar novas linhas de mundos deixados para trás

 

1549

João da Rocha

Marinheiro preso

“Achado em trajes femininos”

Pela noite

 

20 de novembro de 1552

D. João III concedia uma carta de perdão a Leonor

Moradora de Lisboa

Presa sob a acusação de andar vestida com trajes masculinos

Pela noite

 

23 de novembro de 1554

O Piedoso concedia uma outra carta de perdão a Isabel Rodrigues Taborda

Viúva e moradora de Campo Maior

Presa sob a acusação de andar vestida com trajes masculinos

Gabão, calções e chapéu

Pela noite

 

Luzia

Natural de Águeda

Na mesma época

Achada em trajes de homem

Foi presa em Tancos

Mas logo fugiu da cadeia

 

1555

Sebastião

Vinte anos

Fama de fanchono

“Parece mais mulher que homem”

Segundo seu denunciante

Por prática nefanda

Foi punido em Lisboa

 

1556

Natural do Benim

A travesti negra Vitória

Acorrentada no grupo de mulheres negras cisgêneras escravizadas

No porão de um navio com destino a Lisboa

Sendo muito mais tarde descoberta ali para seu desconsolo

Jogava pedras em quem a chamava no masculino

Trabalhadora do sexo na Ribeira

Foi acusada e processada

Por prática sodomita

Na Inquisição

 

Poema

POR SOBREVIVÊNCIA, NÃO POR OPÇÃO

Hilda de Paulo / Março de 2022

 

A travesti brasileira Gisberta Salce

Para sempre fixada com quarenta e cinco anos

Na tortura e na morte

Esvaziada de vida

E nacionalizada como símbolo português

Pelo homonacionalismo de Portugal

Teve seu nome imortalizado

Como projeto de nome de rua na cidade do Porto

Em 2021

 

Mas o apego CIScolonial português

Em sua proposição estética

Para o espaço público

Supôs que Júnior fosse apelido

Pobre inocência CIScolonial

Mal sabem que Júnior

É adjunção ao nome em Portugal

E agnome no Brasil

 

Complexidade do Júnior no Brasil

Então

Ignorada em Portugal

Pela perspectiva CIScolonial portuguesa

Que habitou o projeto

De nomear uma rua

Com o nome

Da Gisberta

 

Porque Júnior

Está costurado ao patriarcal

Ao modo capitalista do nome familiar

Do patriarca que detêm algum poder

Da transferência de poder entre homens

Do pai para o filho

 

Oscilação

Do uso do nome morto

Com o nome social

Numa época em que não se podia mudar

Nos documentos o sexo e o nome próprio

Faz quem era próxima a Gisberta

Afirmar que ela usava o Júnior

Por sobrevivência

Não por opção

 

O processo de fazimento do nome da Gisberta

Por ela própria

Como construtora da própria forma

De se apresentar no mundo

Em cartas

Em cartões-postais

Foi apagado

Pelas considerações de terceiros

 

Triste apego estático CIScolonial português

Em sua proposição estética

Para o espaço público

Em 2021

 

Poema

A SOLIDÃO DA GUERRILHEIRA TRAVESTY INCENDIÁRIA

Hilda de Paulo / Março de 2022

 

I.

 

Eu

Eu estou tão ferida

Que tudo

Tem mais intensidade

 

Porque aprendi

A caminhar sozinha

A entender o mundo do jeito que consigo

A cuidar das minhas dores e feridas

A conviver com a solidão

 

Porque preciso do meu silêncio

Para poder sofrer

E morrer

Para depois renascer

E seguir

 

Porque aprendi

Não por vontade própria

Talvez por proteção

Pra não me machucar mais do que deveria

Por ser a última escolha

Ou não ser escolhida

 

Porque aprendi que passo

Por um processo seletivo diário

Pela norma imposta

Por nossa sociedade

Vista apenas

Para ser

Apontada

Julgada

Xingada

E morta

 

Não porque não existo “além de”

Ou porque não estou no seu lugar de convívio

Que já é algo a se pensar

 

II.

 

Porque

Eu existo

Em solidão

Ao tornar um abismo

Atravessado de memórias incertas

As lembranças que carrego

Antes mesmo da transição

Comendo bolo de banana com passas

Em sua casa

Mas agora sou mais “consumida” com medo

Do que amada

Por você

E o mundo solitário

Tomou-me de tal forma

Que evito pensar em desistir da vida

 

Porque o seu afeto

É um prato

Que amanhece

Cheio

Mas o desejo

Pelo meu corpo

É um copo

Que anoitece

Seco e vazio

Na solidão

 

Porque

Ainda assim

Jurei a mim mesma

Que não vou morrer

Porque viver

É a minha maior vingança

Mesmo sabendo

Que o amor

Escolhe

Prefere

E exclui