Paulo Aureliano da Mata

Capítulo dez: Eu Gisberta

 

Arquivo pessoal de Gisberta Salce

 

Com ênfase na body art, exploro uma série de procedimentos artísticos em que mesclo a minha autobiografia com outras histórias reais e ficcionais, reunindo elementos da literatura, da cultura contemporânea e de mitologias de civilizações diversas. Em Eu Gisberta (2015) – bem como em outros trabalhos de body art executados por meio da tatuagem –, mantenho sobre o meu próprio corpo uma exposição ininterrupta, a qual opera como uma estética relacional, trazendo permanentemente à luz a sombria história que circunda Gisberta Salce, mulher transexual brasileira brutalmente assassinada na cidade do Porto em Portugal no ano de 2006, mais uma vítima da transfobia. O caráter de inscrição mortuária do nome Gisberta em meu rosto estabelece, assim, pela fotografia acompanhada de um texto-manifesto, uma relação entre o estatuto político do corpo lançado ao fundo do poço e o estatuto político da prostituta-transexual-imigrante-soropositiva-indigente-toxicodependente na cidade, agentes próximos da condição de visibilidade de fantasma ameaçador que desconstroem os limites da normalização ao evocar outras condições de habitar o espaço, outras histórias de vida e outras classificações.

 

-> A cor social desse capítulo é soft magenta (em hexadecimal #E04EC3; ou em RGB: vermelho 224, verde 78, azul 195).

 

Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos), Eu Gisberta, do Capítulo dez: Eu Gisberta, do Livro da Mata. Body art realizada no Porto, Portugal. Maio de 2015. Fotografia de Tales Frey, 29,7 x 44,5 cm. Edição: 5 + 2 P.A. 

 

Gis.ber.ta

substantivo próprio feminino

 

1) Se a única forma consequente de evocarmos os mortos é cuidar dos vivos, resgatemos aqui o novelo de exclusões que sucessivamente aprisionou a transexual Gisberta Salce, mas que se desfez finalmente com a sua morte, sujeitando o vazio sobre o qual foi forçada a construir toda a sua vida. Judith Butler, em Quadros de Guerra: Quando a Vida é Passível de Luto?, sugere que as escolhas da vida são práticas sociais, que definem quais vidas serão choráveis quando terminarem. A vida reconhecível de Gisberta foi somente a tatuada pelo tempo em que viveu na cidade do Porto (Portugal), primeiro como estrela em cabarés e boates gays, imitando a cantora Daniela Mercury, depois como um fantasma demasiado presente por conta de uma história de violência e transfobia.

 

2) Canção “Balada de Gisberta”, de Pedro Abrunhosa do álbum Luz, lançada em 2007: Perdi-me do nome, / Hoje podes chamar-me de tua, / Dancei em palácios, / Hoje danço na rua / Vesti-me de sonhos / Hoje visto as bermas da estrada, / De que serve voltar / Quando se volta p’ró nada. // Eu não sei se um anjo me chama, / Eu não sei dos mil homens na cama / E o céu não pode esperar. / Eu não sei se a noite me leva, / Eu não ouço o meu grito na treva, / E o fim vem-me buscar. // Sambei na avenida, / No escuro fui porta-estandarte, / Apagaram-se as luzes, / É o futuro que parte. / Escrevi o desejo, / Corações que já esqueci, / Com sedas matei / E com ferros morri. // Trouxe pouco, / Levo menos, / E a distância até ao fundo é tão pequena, / No fundo, é tão pequena, / A queda. / E o amor é tão longe, / O amor é tão longe / E a dor é tão perto.

 

3) Fragmentos do livro Indulgência Plenária, de Alberto Pimenta, lançado em 2007 pela editora &etc (Lisboa, Portugal): A tua vida / foi o teu pecado / Gisberta (pág. 24); E as tuas unhas / e a tua língua / iam passando / iam-se fixando / arranhando / camada sobre camada / a cama doutros corpos / Aliados e concorrentes / reconhecidos velhos / e conhecidos novos / E / sendo também arranhada por eles / e gostando mais de o ser no corpo / que no Espírito / que conservaste intacto e sem malícia / Inatingível / a tudo e a todos (pág. 13-14); Então sentas-te / e Procuras a tua mão / para entrares no teu romance (pág. 36).

 

4) Primeiro ano do ensino médio, Colégio Zênite, Inhumas, Goiás, Brasil, 2001: recordo-me da humilhação que passei nesse colégio – para contextualizar, um dia antes, eu tinha ido para Goiânia com a P. e tudo correu mal. Lá, compramos no shopping uma pulseira de cor alaranjada com espetos prateados. Só não contávamos que na volta à rodoviária iríamos ser roubados e ficaríamos sem dinheiro para voltarmos a Inhumas… conclusão: fiquei sensível – Acordei e fui normalmente vestido para o colégio, mas com minha pulseira nova. Todos estavam agitados na sala de aula: o pessoal tinha ido para Pirenópolis no dia anterior para passear e ver as cenas da novela Estrela Guia serem gravadas. Se esse turu tatuado no meu peito / Gruda e o turu, turu, turu, não tem jeito / Deixa sua marca no meu dia a dia / Nesse misto de prazer e agonia. [1] Tentaram me ligar para eu ir na viagem, mas o telefone lá de casa estava estragado. Já estava desanimado com o dia anterior, agora, com essa descoberta, fiquei introspectivo. Algumas pessoas ficaram me enchendo o saco por conta da pulseira ser de “mocinha”. Zum zum zum, barulheira do cão, xingamentos no ar. Meu silêncio para vocês, sou educado. Mas a professora pediu sossego. Eu já estava mudo, mas os meninos ao meu redor não pararam. A professora não aguentou e foi reclamar na diretoria. Eis que surge em cena a diretora-versão-feminina-de-Hitler com um discurso que durou uma hora. Ela começou falando para a morena que se ela não desse certo na vida, ela poderia ser puta. Depois passou para a loira, dizendo que ela poderia sentar em colo de homem para ganhar a vida, caso também não desse certo. Já o terceiro elemento sou eu, nem loira, nem morena, apenas eu. Começa a me dizer coisas que demorei a entender. AQUI DENTRO DO MEU COLÉGIO É PROIBIDO USAR CALCINHA COR DE ROSA. LÁ FORA, VOCÊ PODE USAR À VONTADE e NA SUA FICHA DE MATRÍCULA ESTÁ ESCRITO SEXO MASCULINO E NÃO PONTOS DE INTERROGAÇÃO, EXERÇA SUA FUNÇÃO. E ficou discursando outras coisas semelhantes… Fiquei calado sendo humilhado na frente de trinta e quatro alunos e de uma professora. Ela saiu. Eu levantei, pedi o celular emprestado para a loira e fui ligar para minha mãe, mas não consegui. Liguei para minha avó e não sei exatamente o que eu disse, mas foi algo do tipo: “Me tira daqui, não estou bem, não entendo o que está acontecendo”. Estava em choque, sem entender nada. Tentei correr dali, ir para casa, mas o exército da diretora-versão-feminina-de-Hitler trancou o único portão daquela prisão. Gritei tanto tentando fugir, mas as vozes do corredor aplaudiam o meu desespero.

 

5) …silêncio, SI-LÊN-CIO… em fevereiro de 2006, treze adolescentes, parte deles alunos da Oficina de São José – instituição localizada na cidade do Porto e encarregada de acolher crianças, mantinha ligação com a Igreja Católica e era parcialmente subsidiada pelo Estado português –, agrediram, torturaram e abusaram sexualmente de Gisberta durante vários dias na construção inacabada da avenida Fernão de Magalhães, onde ela vivia em situação de indigência. (Um jovem branco e loiro de dezesseis anos, que se sentia protegido pelo grupo dos treze adolescentes, entra em cena para pedir a eles para pararem, mas com uma total ausência de compaixão ao omitir auxílio a Gisberta.) No final dos dias, seis dos jovens voltaram ao local e, achando que ela estivesse morta, resolveram se livrar do corpo. Primeiro pensaram em queimá-la, mas depois acabaram mesmo por decidir jogar o corpo de Gis num poço de 10 metros de altura, na esperança de que ele afundasse. A BRASILEIRA acabou morrendo afogada… 46 anos, pobre, transexual, profissional do sexo, toxicodependente, soropositiva… no dia 22 de fevereiro, um dos jovens teve uma crise de consciência e contou o que tinha acontecido a uma diretora de turma. No mesmo dia, o corpo foi retirado do poço pelos bombeiros. (Entram os brancos e os ricos Estado e Justiça portugueses a tentar culpabilizar a vítima e “abafar” publicamente o caso.) O julgamento começou no dia 3 de julho e durou 29 dias… “inocentes criancinhas” em “uma brincadeira de mau gosto que correu mal”. MEU NOME É GISBERTA. FUI TORTURADA, VIOLADA, ASSASSINADA. PARA A JUSTIÇA, EU MORRI AFOGADA E A CULPA FOI DA ÁGUA.

 

6) “Apesar de tudo, [a guerreira] morreu com um sorriso”. [2]

 

7) Gíria “fazendo a Gisberta”: expressão para designar uma criança enlouquecida que cantava e dançava Daniela Mercury no último volume na casa da bela avozinha, como eu.

 

8) …há algo muito errado, pois o abismo está nos corações das pessoas… é como uma visão intimista de viver um sonho enquanto se está preso dentro dele, na qual a solidão e a dor se encontram e ficam ainda mais intensas depois que as luzes se apagam.

 

9) Eu + Gisberta = Eu Gisberta.

 

NOTAS

[1] Canção “Quando Você Passa (Turu Turu)”, de Sandy & Júnior, do álbum Sandy & Júnior, lançada em 2001.

[2] Morte de Gisberta fica sem culpados. Jornal Correio da Manhã, Lisboa, 28 de março de 2008. Ver em: <http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/portugal/detalhe/morte-de-gisberta-fica-sem-culpados.html>. Acesso em: 12 de novembro de 2015.

 

Eu Gisberta (2015), de Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) na exposição coletiva Múltiplas Perspectivas e Não Menos Contradições e Sonhos, com curadoria de José Maia. I Bienal da Maia: Lugares de Viagem, 2015. Fórum da Maia, Maia, Portugal. Fotografias de Tales Frey

 

Eu Gisberta (2015), de Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) na exposição coletiva Maria de Todos Nós: 50 anos de Maria Bethânia, com curadoria de Bia Lessa. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil, 2015

 

Eu Gisberta (2015), de Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) em ESFORÇOS #2 – Mostra de Performances, com curadoria de Caio Riscado e Lucas Canavarro. Olho da Rua, Rio de Janeiro, Brasil, 2016. Fotografias de Costa (I Hate Flash)

 

Eu Gisberta (2015), de Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) na 27ª Mostra de Arte da Juventude. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil, 2016. Fotografia de Camila Onofre Silva

 

HISTÓRICO

[2017] Exposição coletiva O Teu Corpo É Luta. Curadoria de Danillo Villa e Ricardo Basbaum. Arte Londrina 5, Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Brasil.

[2016-17] 27ª Mostra de Arte da Juventude. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil.

[2016] ESFORÇOS #2 – Mostra de Performances. Curadoria de Caio Riscado e Lucas Canavarro. Olho da Rua, Rio de Janeiro, Brasil.

[2016] Exposição coletiva Em Tudo Quanto é Mundo Dito ou Não Dito. Curadoria de José Maia. Desobedoc 2016, Cinema Batalha, Porto, Portugal.

[2016] Exposição coletiva Sob (Ul)Trajes e Gozos. Curadoria de Suianni Macedo. Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, Ovar, Portugal.

[2016] Exposição coletiva Em Estado de Guerra. Organização e curadoria de Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey). Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, Portugal.

[2015] Exposição coletiva Maria de Todos Nós: 50 anos de Maria Bethânia. Curadoria de Bia Lessa. Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil.

[2015] Exposição coletiva Múltiplas Perspectivas e não menos Contradições e Sonhos. Curadoria de José Maia. I Bienal da Maia: Lugares de Viagem, Fórum da Maia, Maia, Portugal.

 

Revista Visão/ 30 de julho a 5 de agosto de 2015, p. 26

 

Reproduções do Instagram de Paulo Aureliano da Mata/ 18 de maio de 2015