Paulo Aureliano da Mata

Capítulo um: Romance Violentado

 

Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos), Romance Violentado (Tríptico), do Capítulo um: Romance Violentado, do Livro da Mata. Body art realizada no Porto, Portugal. Janeiro de 2011. Fotografias de Daniel Polari, 60 x 40 cm cada. Edição: 5 + 2 P.A.

 

Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos), Romance Violentado, do Capítulo um: Romance Violentado, do Livro da Mata. Body art realizada no Porto, Portugal. Janeiro de 2011. Fotografia de Daniel Polari, 60 x 40 cm cada. Edição: 5 + 2 P.A.

 

Para M. B. C., que me iludiu e me deixou forte o bastante, fazendo com que eu ganhasse uma porra de uma cicatriz na minha cintura; para C. C. A. P., que, no auge do seu desespero, conseguiu mandar mais de sessenta mensagens do meu celular para o seu amor platônico; e, por fim, para P. C. V. V., que descobriu que o seu ex-relacionamento valeu tanto quanto o anel de latão que havia ganhado no início da relação.

 

Essa body art ocorreu no estúdio Para Sempre Tattoos, na cidade do Porto, em Portugal, no ano de 2011.

 

Preparação

Junto com um desenhista, crio uma fonte para a tatuagem “Romance Violentado” e, depois, levo esse desenho ao tatuador.

 

Body Art

Indico ao tatuador um local no meu braço direito para tatuar o título do trabalho e, em seguida, me deito para ser marcado.

Nessa body art, faço alusão às marcas externas, como as tatuagens que pretensamente fazem os “sujeitos enamorados” para demonstrar o amor, e internas, como a dor do abandono gerada nesses indivíduos marcados. Essa ação liga-se também, alegoricamente, à novela Na Colônia Penal, de Franz Kafka, na qual o autor, segundo Beatriz Ferreira Pires, em O Corpo como Suporte na Arte, “descreve com precisão um aparelho de tortura que tatua no corpo do indivíduo a pena pelo crime cometido. […] A tatuagem é usada para impregnar no corpo do réu uma frase referente ao motivo que o sentenciou à morte. Aqui não basta a compreensão intelectual da acusação; é necessário também a sensorial”.

O sociólogo polaco Zygmunt Bauman, em seu livro Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, destaca a seguinte observação de Ralph Waldo Emerson: “quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade” e “tende-se a buscar a desforra na quantidade” de relacionamentos efêmeros. Com essa afirmação, podemos dizer que a sincronia das marcas externas e internas desse meu trabalho me remete aos valores comuns que foram pervertidos nas relações pela chegada das redes sociais (Orkut, Facebook, Twitter etc.).

Ao terminar a tatuagem, eu me ausento do estúdio.

 

 

-> A cor social desse capítulo é very dark gray (em hexadecimal #6C6C6C; ou em RGB: vermelho 108, verde 108, azul 108).

 

FICHA TÉCNICA

Concepção/ Body Artist: Paulo Aureliano da Mata | Som e Vídeo: Tales Frey | Tatuagem: César Figueiredo – Para Sempre Tattoos (Porto, Portugal) | Fotografia: Daniel Polari | Fonte da Tatuagem: Paulo Aureliano da Mata e Miguel Ambrizzi | Realização: Cia. Excessos | Porto, Portugal 2011

 

HISTÓRICO

[2016] Sob (Ul)Trajes e Gozos. Curadoria de Suianni Macedo. Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, Ovar, Portugal.

[2016] Brasil: Ficciones. Curadoria de Laurem Crossetti. Espacio Tangente, Burgos, Espanha. 

[2016] Em Estado de Guerra. Organização e curadoria de Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey). Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, Portugal.

[2015] XVIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira: Olhar o Passado para Construir o Futuro. Vila Nova de Cerveira, Portugal.

[2015] TRANS[acto]#01/2015. Concepção de Isabel Maria Dos. Coimbra, Portugal.

[2015] Rapid Pulse International Performance Art Festival 2015: Video Series. Defibrillator Performance Art Gallery, Chicago, Estados Unidos.

[2015] (Tra)vestir um Fa(c)to. Curadoria de José Maia. Textos de André Masseno e Julia Pelison. Espaço MIRA, Porto, Portugal.

[2015] Amor Marginal. Curadoria de Susana Rodrigues e Ana D’Almeida. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal.

[2015] Brasil: Ficções. Curadoria de Laurem Crossetti. Armazém do Chá, Porto, Portugal.

[2015] Beija-me. Organização e curadoria de Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey). SESC Ribeirão Preto, SP, Brasil.

[2014] Orexia, de Tales Frey (Cia. Excessos). Barracão Maravilha, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

[2014] Moda e Religiosidade em Registros Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey (Cia. Excessos). SESC Rio Preto, São José do Rio Preto, SP, Brasil.

[2014] Corpo (I)materializado. Curadoria de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey. Mostra Performatus #1, Central Galeria de Arte, São Paulo, SP, Brasil.

[2013] Moda e Religiosidade em Registros Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey (Cia. Excessos). SESC Campinas, SP, Brasil.

[2013] Moda e Religiosidade em Registos Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey (Cia. Excessos). Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal.

 

Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos), Romance Violentado, do Capítulo um: Romance Violentado, do Livro da Mata, 2011. Vídeo, 4’30’’. Edição: 5 + 2 P.A.

 

CARTA #1: de C. C. A. P. para M. A. A. F.

… vivo esse mal irremediável que é o amor que sinto por você,

mas vou levando a vida como se estivesse viva,

convivendo com o silêncio dos mortos…

 

CARTA #2: de P. C. V. V. para J.

O nosso amor começou como um sonho de uma noite de verão, aliás, era inverno, e talvez aquele frio na espinha fosse de fato frio, e os arrepios, falta de calor, calor que aquece a alma e espanta a solidão dos dias.

Os flertes e uma dança casual significaram um deslumbramento da sedução ou era mesmo um exorcismo de um amor proibido, um outro amor que também não poderia vingar.

Vendo um outro amor ir embora, me entreguei a este, sim, fui sua e era bonito ser sua, era gostoso ser desejada e amada. Você então completou parcialmente um vazio, que eu não sabia existir. Você veio como a juventude, colérico e sedento.

Fomos fonte e sede, alento e amor para noites frias e dias quentes. Ao arder nesse amor, nos entregamos e fomos então um, e não entendia muito bem o que era ser um, e nos descobrimos um após quatro meses.

Então conheci o amor incondicional, sim, o amor materno pela primeira vez experimentado, único. Então, as feridas começaram a sangrar o relacionamento. A prova de qualquer amor é o companheirismo, aquele onde se estende a mão em dificuldade e o carinho espera segui-lo.

Nas fases da Lua escrevemos nossa história a três: eu, você e nós. Não entendíamos nada do amor, não entendíamos nada de companheirismo, não entendíamos nada de autossuficiência, não entendíamos nada de cultivar e perseverar amor.

Eu amei nós, e amei você, mas o amor, quando tão pueril e carente, é exigente, é categórico, se perdeu em névoa de manhãs frias. Nos perdemos quando o que mais queríamos era ser o que nossas histórias (enquanto ainda éramos filhos) não foram.

Nove meses se passaram, então amadureci como uma flor em estufa, e sei que meus espinhos te feriram; você saiu ferido e eu despedaçada. Mas de mim brotou a flor mais linda, a única coisa que do nosso amor vingou.

Quando senti então em meus braços aquele bebê, fruto de nós dois, eu percebi coisas que você não poderia enxergar e, assim, fui ser mãe e esposa. Mas houve momentos em que me senti mãe de dois.

Então, despedaçada pelas inconstâncias do meu cravo, resolvi deixá-lo; eu queria apenas proteção e compreensão. Nosso trágico fim. Queríamos a mesma coisa e não conseguimos ler nossos olhares e semblantes de desespero por amor. Amor que nesse momento era uma ferida purulenta e latejante em dor.

Então entendi que o amava, mas não era suficiente amar, queria um companheiro, queria um reflexo da minha intensidade, queria algo que você não poderia ser. Já não conseguia encontrar em seus olhos a segurança de uma família. E exigia algo que você nunca poderia me dar.

Então te feri, e seu ego de macho orgulhoso exacerbado revidou em moeda igual. Ao sentir o sangue escorrer, enlouqueci; nunca mais seríamos os mesmos. Então a raiva, o rancor coagularam sangue naquele enlace.

Guardei, como troféu inglório, aquela aliança ensanguentada, para que nunca mais esquecesse que sem compreensão não há amor, só um gosto amargo de passado e uma cicatriz na alma.

Eu guardei por muitos anos a aliança com meu sangue encrostado. Quando decidi ir para o Rio de Janeiro, procurar para a alma e o coração um amor plácido, fui a um ourives e descobri que ela não valia nada e pensei: valeu tanto quanto nosso amor.

Nunca irei esquecer, você ficou tatuado em mim em forma de outra vida que olho todos os dias crescer e que você ainda usa para despedaçar esta rosa que encontrou outra rosa para seu jardim.

 

 

Estudo para a fonte Romance Violentado (2010), de Paulo Aureliano da Mata e Miguel Ambrizzi, 17,5 x 12,1 cm

 

Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) apresenta a obra Romance Violentado (2011) na exposição (Tra)Vestir um Fa(c)to (2015) no Espaço MIRA na cidade do Porto em Portugal

 

No One Ever Forgets Their First Love

Marcela Tavares

 

It is interesting to be able to comment on a performance whose whole process I was able to witness, from its genesis to its conclusion, and I say this because I am not sure it is actually concluded – I will explain it further later. And I can say I took an active part in it, as in a first moment Paulo needed photos of exes, maybe to prove to himself that many of his friends, maybe all of them, had also gone through a Romance Violentado [Abused Romance]. Since I have had a few, I sent him some photos, under the condition that my image would not be shown in the process. I am pretty sure this was the same reaction of most, maybe all, of those who sent him photos of their “ex-somethings.” I believe that, at that moment, Paulo started to realize that his action had to have many different implicit parts, either the faces on the photographs, all the phases that were considered and discarded, or the action itself that can only be contemplated by being recorded.

Romance Violentado [Abused Romance] is an implicit performance, behind a tattoo, on the body of the performer. In this mark the whole performance is is hidden, or better still, is implicit, all of its stages (performance photos, the wailing tree, laments, costumes, installations, iPods, viewers, cut table, unending phases…). Paulo realized the tattoo was enough on its own, that external mark, as he himself refers to it, to represent the process as a whole, with its comings and goings, highs and lows, sufferings and joys that art is capable of offering to the those who resort to it in order to understand both their own experience and that of humanity as a whole.

I will explain now why, for me, that said performance is not concluded, and maybe will never be as: just like all Romances Violentados [Abused Romances], it will always reemerge in the life and work of this performer; not only on his skin, but also because this was the first performance he conceived – and we all know that no one ever forgets their first love.

 

Romance Violentado (2011), de Paulo Aureliano da Mata (Cia. Excessos) na XVIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira: Olhar o passado para construir o futuro. Vila Nova de Cerveira, Portugal, 2015. Fotografia de Tales Frey

 

Romance Violentado, a Title that Is a Book in Itself

This text by Ana Hupe was published in: eRevista Performatus (Year 2, no. 9, March 2014, ISSN 2316-8102).

 

Abused romance carries many footnotes. The amount of asterisks is greater than the amount of text. Only two words, a sole gesture and a whole book comprising nothing but footnotes.

To romantically abuse your body, having a tattoo made, is metalanguage that also works as metaphor for the many romances we abuse and are abused throughout our lives. It seems like it is a ritual celebrating the end, marking a transition on the skin: from a cut, the scab of healing is a little of you detaching from me, until it is completely healed, with only a shadow left, so I will never forget. It is a monument of your non-love for me, pages torn, crumpled into balls thrown in the trash; only the title remains. Like the Germans who leave memories of war on every corner in Berlin; so it will not happen again.

To mark on your body the transitions of a state in itself to another was a habit of our Native ancestors. The Tupinambás warriors and others, who had cannibalism as part of their culture, would change their names when they captured a prisoner who was going to be eaten by the village. After they brought the captive in, they went on retreat and spent months away. During that meditative time of isolation, they would slowly transform the drawings on their bodies and, when they came back to their peers, they would acquire a new name. They would get new drawings on their bodies and would be renamed again and again, as many times as they would capture an enemy. To capture an enemy for an honorable death and to understand through drawings on their own bodies the change caused on themselves.

The Tupinambá language distinguishes, in its narrative, one’s own experiences and those experimented by someone else. Those Natives distinguished knowledge acquired through the senses and knowledge acquired through someone else’s direct or indirect experiences. The body’s memory is carefully considered. The adventures through which one’s body goes through are marked in that person, they will transpire in their speech, in their behavior; they are attached to that personality.

I know nothing about the origins of tattoos in civilization; it is possible that they emerged from the drawings of the Natives on their bodies. However, their usage today is much more aesthetic, as if it were a piece of clothing. The artist Paulo Aureliano da Mata uses tattoos as eternal reminders. I do not know the reasons that led him to this ritual. He was absolutely available for clarification, but I did not want to talk; I wanted to extract the pure indentation on the trunk myself and think about all the possibilities it entailed. The apparent simplicity of this work, a tattoo, is nothing but the title of a book, and it is laudable when an artist writes a book with nothing but his action. It is not easy to act as a film editor for your own stuff, cutting, in the process of constructing your work, what should be left aside, highlighting what really matters. Paulo left aside all adjectives, repeated words, grammar, spelling; he revealed to us nothing but the title and left carrying the footnotes under his arm.