Paulo Aureliano da Mata

“‘Romance Violentado’, Título que É Livro em Si”, de Ana Hupe

 

Este texto de Ana Hupe foi publicado em: eRevista Performatus (Inhumas, Ano 2, n. 9, março de 2014, ISSN 2316-8102).

 

Quantas notas de pé de página o romance violentado carrega. A quantidade de asteriscos é maior que a de texto. Duas palavras apenas, um único gesto e o livro inteiro só de notas de rodapé.

Violentar o corpo romanticamente, fazendo uma tatuagem, é uma metalinguagem e também metáfora para os tantos romances que violentamos e são violentados ao longo da vida. Parece um ritual para celebrar o fim, marcando na pele a transição: a partir do corte, a casca da cicatrização é um pouco de você soltando de mim, até curar por completo, ficando só a sombra, pra eu jamais me esquecer. É um monumento ao desamor por mim, rasgação de página, fazê-las bolinhas e atirar ao lixo, sobrando só o título. Como os alemães que espalham, a cada esquina de Berlim, memórias da guerra; para que não se repita.

Marcar no corpo as passagens de um estado de si a outro era prática dos nossos ancestrais indígenas. Os guerreiros tupinambás e de outras tribos, que tinham o canibalismo como parte da cultura, mudavam de nome quando capturavam um prisioneiro que seria comido pela aldeia. Depois de levarem o preso para a aldeia, saíam em retiro, ficando meses afastados. Nesse tempo meditativo, de isolamento, transformavam aos poucos os desenhos de seu corpo e, quando retornavam para casa, ganhavam outro nome. Quantas vezes mais capturassem um inimigo para a morte honrosa, mais desenhos diferentes ganhavam seus corpos e eram renomeados novamente. Através de desenhos no próprio corpo, os guerreiros ganhavam a possibilidade de compreender a mudança que se operava em si mesmos.

A língua tupinambá distingue, na narração, eventos vividos e experiências contadas por terceiros. Esses índios diferenciavam o conhecimento obtido pelos sentidos daquele adquirido pela experiência direta ou indireta de outra pessoa. Há um cuidado na valorização da memória do corpo. As aventuras pelas quais o corpo passa ficam marcadas na pessoa, vão aparecer na fala, no comportamento, estão coladas àquela personalidade.

Não sei das origens da tatuagem na civilização; pode ser que tenha surgido a partir dos desenhos dos nativos em seus próprios corpos. No entanto, o uso da tatuagem hoje, na sociedade dita moderna, é muito mais de adorno, como se fosse uma peça a mais do vestuário. O artista Paulo Aureliano da Mata usa a tatuagem como lembrete eterno. Desconheço as razões que o levaram a realizar o ritual. Ele se mostrou totalmente aberto a esclarecimentos, mas eu não quis conversar; queria tirar eu mesma o suco puro do tronco e pensar nas possibilidades todas que seu gesto guarda. A aparente simplicidade do trabalho, uma tatuagem, é só o título de todo um livro e é louvável quando o artista escreve um romance apenas com uma ação. Não é fácil atuar como um editor de cinema das próprias coisas, cortando, durante o processo de construção do trabalho, o que deve ficar de fora, realçando o que realmente importa. Paulo deixou de lado todos os adjetivos, as palavras repetidas, as mesóclises, ênclises, revelou para a gente só o título e saiu carregando as notas de rodapé embaixo do braço.