Paulo Aureliano da Mata

“Dos Cadernos: ‘Romance Violentado’ e ‘Homenagem a Oscar Niemeyer'”, de Paulo Aureliano da Mata

 

Este texto de Paulo Aureliano da Mata foi publicado em: FUNDAÇÃO BIENAL DE CERVEIRA (Vila Nova de Cerveira, Portugal. XVIII Bienal de Cerveira de 2015: Olhar o Passado Construir o Futuro: Catálogo. Vila Nova de Cerveira: 2015. ISBN: 978-989-98515-1-1).

 

Ambos trabalhos de body art propostos fazem perdurar uma ação ocorrida de forma efêmera num passado fugaz, e a tentativa de eternizá-la apenas sob os traços da tinta sobre e sob a pele não seria suficiente, pois a matéria corpórea é instável: ela se modifica a cada instante, envelhece, decompõe-se e morre. Incidida unicamente no corpo e sem o recurso do intermédio, a obra se extinguiria; o dispositivo fotográfico digital é, dessa forma, uma alternativa tanto para atualizar o instante de outrora como para intermediar todo o teor conceitual gravado em um corpo instável e que está fisicamente presente em lugares diversos, não permanecendo estático como um objeto em uma exposição convencional de arte que pode exibir um recorte pertencente ao passado deste corpo sob forma de impressão a cores e de forma bidimensional.

Não é à toa que Romance Violentado (2011) e Homenagem a Oscar Niemeyer (2014) – este último trabalho citado faz menção à obra escultórica Mão, de Oscar Niemeyer – são obras construídas por meio do corpo do artista e sobre ele, pois as deliberações artísticas estão atreladas às lembranças pessoais do passado e, a partir dessas construções, podem ser universalizadas as suas (e nossas) perspectivas futuras, refletindo as utopias políticas abafadas, suprimidas e muitas vezes trucidadas ao longo da atormentada história latino-americana da qual este corpo – que pode atravessar outras nações – é inquestionavelmente parte integrante. O corpo em análise neste trabalho não é, para quem o observa, uma subjetividade isolada e insignificante; é uma alegoria de uma história, um olhar crítico voltado para um passado disposto a anunciar, em um presente momento, o que almeja para um futuro.