A Ilha

 

A nossa própria existência é uma ilha: é a nossa subjetividade/interioridade cercada pelo nosso corpo, o qual circunda as reminiscências das nossas vivências, dos nossos sonhos, dos nossos desejos. A Ilha, exposição composta por diferentes dispositivos (vídeos, fotografias e objeto), conjectura sobre as micropolíticas de corpos estrangeiros em territórios longínquos, esboça uma análise sobre o olhar do taxado como “outro” bem como sobre a maneira como esse “outro” é também notado. As obras apresentadas foram desenvolvidas durante uma residência artística ocorrida entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016 na cidade de Húsavík, na Islândia e, exatamente um ano depois, toda a conjuntura resultante da experiência pode ser apresentada ao público.

 

 

1) Páll Jónsson (Cia. Excessos), Para Skaði (Tríptico), do Capítulo doze: “Ausência”, de Páll Jónsson, do Livro da Mata, 2016. Vídeos, 56’’; 52’’; 54’’;

2) Páll Jónsson (Cia. Excessos), Para Skaði – Parte 2 (Objeto), do Capítulo doze: “Ausência”, de Páll Jónsson, do Livro da Mata, 2016. Objeto, 45 x 45 cm;

3) Tales Frey (Cia. Excessos), Ilha #1 e Ilha #2, 2016. Videoperformances, 8’21’’; 1’51’’;

4) Tales Frey (Cia. Excessos), Ilha #3 (Políptico), 2016. Fotografia, 40 x 64 cm cada;

5) Páll Jónsson (Cia. Excessos), Em Alguma Parte…, do Capítulo doze: “Ausência”, de Páll Jónsson, do Livro da Mata, 2016. Fotografia, 65,4 x 98,1 cm;

6) Páll Jónsson (Cia. Excessos), …Minhas Crianças Estão Morrendo Dentro de Mim. (Políptico), do Capítulo doze: “Ausência”, de Páll Jónsson, do Livro da Mata, 2016. Fotografia, 65,4 x 138,46 cm; Vídeo, 1’43”.

 

FICHA TÉCNICA

Curadoria: Susana Rodrigues | 03 de dezembro de 2016 a 21 de janeiro de 2017, Sput&Nik The Window, Porto, Portugal

 

Exposição A Ilha (2016-17), de Cia. Excessos (Páll Jónsson e Tales Frey), com curadoria de Susana Rodrigues. Sput&Nik The Window, Porto, Portugal. Fotografias de Ana Efe

 

A Ilha: Das Fronteiras às Aproximações

Este texto de Julia Pelison foi publicado em: artecapital.net (Dezembro de 2016); eRevista Performatus (Janeiro de 2017).

 

Quando a discussão sobre a possibilidade de o ser humano colonizar um outro planeta começa a ser noticiada com frequência e o constante processo de elevação da temperatura média global também é assunto incessante não só em revistas científicas especializadas nesses temas, naturalmente ponderamos sobre a urgente necessidade de frearmos as devastações que dia a dia são dirigidas à natureza que nos abriga e, também, sobre um estado irreversível do nosso habitat que nos força, caso venha mesmo a ser possível, a buscarmos refúgio fora da Terra. O aumento do efeito estufa vem provocando uma sucessão de fenômenos maléficos ao meio ambiente e o degelo é uma das graves consequências do aquecimento global, sendo as regiões polares as mais atingidas e o derretimento dessas áreas vem ocorrendo de forma exageradamente acelerada.

Não necessariamente em reflexão direta sobre esses fatos vigentes, o duo de artistas da Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata a.k.a Páll Jónsson e Tales Frey) criou uma série de obras a partir de uma intensa residência artística realizada durante o inverno na Islândia no Fjúk Arts Centre na cidade de Húsavík entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016 e, apenas agora, exatamente um ano depois, ambos disponibilizaram, sob a curadoria de Susana Rodrigues, toda a conjuntura produzida para ser apreciada por quem quiser visitar a Galeria Sput&Nik no Porto até o dia 21 de janeiro de 2017.

A abordagem etérea das pesquisas/trabalhos que exploram tonalidades escuras, e nem por isso sombrias, revela um cenário gélido, melancólico, em sua robusta paisagem glacial, sob o intuito de considerar a nossa própria existência em ininterrupta degradação juntamente com a natureza que a rodeia. Portanto, a análise sobre a recombinação das matérias é intrínseca aos resultados visuais apresentados através da fotografia, do vídeo, do objeto e das performances mediadas por esses meios.

Mesclando a mitologia nórdica com o mais completo pessimismo schopenhaueriano através de composições que remontam um sistema metafísico descrente concomitantemente com as antigas narrativas de deusas e deuses, de monstros, de guerreiras(os), entidades fantásticas e localidades imaginárias, o conjunto de obras é exposto em uma pequena sala branca, remontando, de forma metafórica, a ilha islandesa, onde as interioridades/subjetividades dos artistas são também apresentadas como se tivessem ilhadas, ou seja, isoladas dos seus contextos habituais, separadas de suas zonas de conforto, confrontadas com uma outra paisagem, com uma outra cultura, um outro clima, uma outra estância. Em suas peles, Páll Jónsson e Tales Frey delimitam a fronteira que circunscreve as suas existências cercadas de diferenças por todos os lados, mas permitindo a imersão dessa “ilha” nessa ambiência bem como a expansão do que os compõe. E não estaria também a audiência posicionada de forma insular para pensar a ideia de ilha quando rodeada dessas representações nas paredes da galeria?

Não é em tom épico de aventura que a vivência de quarenta dias isolados no norte da Islândia é concretizada como uma exposição, nem como um mero afã documental, mas é sim apresentada como uma potente denúncia aos crimes ambientais, como uma pesquisa de campo capaz de concentrar a sondagem social e antropológica impregnada em narrativas literárias cujas visualidades idealizadas tornam-se tangíveis, como uma ativa experiência transformadora de carácter físico e psíquico quando submetem-se a situações extremas como, por exemplo, resistir estrategicamente com o corpo nu soterrado no gelo por longo tempo. Depois de um ano da jornada de quarenta dias em Húsavík, extremo norte da ilha, onde os norte-americanos treinaram astronautas para enviarem o humano à Lua, os artistas retornam ao porto seguro, que, por acaso, já não é mais a terra natal deles, o Brasil, mas sim a cidade portuguesa do Porto, onde optaram por revelar tudo o que viveram e que se transformou em arte.