Tales Frey

“A Palavra sobre a Palavra: Em Vias de Materialização”, de Ana Cristina Joaquim

 

Este texto de Ana Cristina Joaquim foi publicado em: eRevista Performatus (Inhumas, Ano 1, n. 4, maio de 2013, ISSN 2316-8102).

 

Muito já se falou a respeito da palavra, da palavra como sua própria referência, da rede de palavras que se definem única e exclusivamente na relação entre si (palavras em relação a palavras). O mundo das palavras é, por fim, decretado universo autônomo, o lugar em que habitamos e nos (re)fazemos, nós, seres (cristãos?) fundados pela palavra: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele”. (João 1:1-3)

Muito já se disse acerca do papel e dos desenvolvimentos da palavra, e as teorias da linguagem mais recentes, agora de forma laica, o atestam, seja no desenvolvimento da ciência dos signos, na esteira de Saussure, seja no desenvolvimento da hermenêutica moderna, na esteira de Paul Ricoeur. Na ordem do dia, são apresentados os inúmeros discursos que rompem com aquilo que se denomina ilusão da referencialidade, isto é, tornou-se obsoleta a velha crença na teoria de que a necessidade da palavra se justificaria devido a sua função de “apontar o dedo” para o mundo da matéria, das coisas tangíveis. Sabe-se, por exemplo, que os esquimós têm um gama enorme de palavras para diferenciar as diversas tonalidades daquela cor que, na maior parte das línguas latinas e germânicas, é única: o branco. Tal exemplo torna evidente o fato de que uma língua (um idioma) é sempre um recorte sobre o mundo, e este mundo, por sua vez, só pode ser lido com base nas determinações que cada língua oferece. Ora, seguindo essa linha de raciocínio, nada dizemos sobre o mundo de fato, mas apenas dizemos sobre o mundo que criamos – e o criamos mediante as palavras, imersos nas palavras, que adquirem autonomia nesse contexto teórico.

Arnaldo Antunes, assim como os demais poetas circunscritos no movimento literário concretista, é, sem dúvida, um dos arautos desse ponto de vista, o que se torna bastante evidente em “Momento I”, mote para Um Livro de Cabeceira ou Meu Cérebro na Página Doze, videoarte concebida, dirigida e editada pelo artista Tales Frey, com Paulo Aureliano da Mata e Tânia Dinis no elenco.

Dando um salto em relação ao que dissemos há pouco sobre as recentes teorias da linguagem, com ênfase no aspecto da autonomia linguística (salto dado pela própria concepção de Tales Frey na videoarte em questão, como mostraremos a seguir), poderíamos pensar – levando às últimas consequências a concepção da palavra autônoma – na palavra matéria, na palavra corpo, na palavra encarnada. É o que parece pôr em evidência a videoarte de Tales Frey: não apenas as palavras são pronunciadas por dois corpos visualmente expressivos (o masculino e o feminino, a portuguesa e o brasileiro – só para citar o jogo de oposições aqui presente), como as palavras são elas mesmas corpos. Nisso reside a inovação: pestana, cílio, colo, anca, rabo, bunda, panturrilha, nariz, joelho, testa, língua, cotovelo, peito e por aí vai o inventário das partes desse corpo feito em palavras de “dois idiomas portugueses” (em que pese as polêmicas a esse respeito!). Não só: também nos é oferecido o corpo em silêncio, os corpos mudos, sem língua idiomática qualquer.

Ao fim, os corpos em silêncio resultantes da materialidade das palavras, a sugestão da escuta na leitura dos lábios/palavras, PALAVRAS, PA-LA-VRAS, palavras encarnadas. Os performers são o veículo das palavras nesse momento final do vídeo, são como atores que interpretam (encarnam) as próprias palavras e o são em silêncio, assim como a palavra que prescinde do ruído e se encerra na sua própria corporeidade.