Tales Frey

“Velaturas”, de Julio Minervino

 

Este texto de Júlio Minervino foi publicado em: eRevista Performatus (Inhumas, Ano 2, n. 7, novembro de 2013, ISSN 2316-8102).

 

As imagens aqui apresentadas, fotográficas, de evidente clareza, nos fazem refletir sobre a escolha do autor. Desvelar ou esconder? Eis a questão mais evidente que nos coloca em xeque no excitante jogo de sedução e significações dessas imagens. Optou o autor por esconder aquela que para nós, meros humanos, é a região corporal mais importante e carregada de caráter identificatório, tanto físico quanto psíquico, e transmissor dos códigos de comunicação com o mundo que aí está: o rosto, frontispício que antecede e se apresenta em primeira instância aos olhos do outro; que a nós se assemelha.

Um rosto específico, que aqui não se revela ou dele pouco se vê para, propositadamente, criar expectativa e excitar o desejo de conhecer sua identidade. Tal como um clown que levemente abre a cortina e expõe parte do seu rosto, duas hipóteses nessa atitude se apresentam: seria para ver a quantidade de pessoas na plateia ou para excitá-las, indicando que o espetáculo estaria para começar? Há uma intenção a priori em aferir a audiência, mas, na segunda hipótese, uma intenção velada em seduzir as pessoas cuja aparição, por um átimo de segundo, altera o estado contemplativo para transformá-lo em estado de excitação.

De fato, como no Mito da Caverna de Platão, conhecer é ter a consciência da existência, tanto do mundo quanto de estarmos nele.

Ao construir essas imagens, Tales “centra o foco” nesse ponto de tensão psicológica que se aloja no limite entre o saber e o não saber, para, com habilidade, instigar o olhar daqueles que as contemplam, provocar o incômodo da curiosidade, o desejo de ter consciência da identidade daquela(s) que se esconde por trás de uma velatura de cabelos. Não por acaso, se apropriou de modelos femininos, mas acreditamos que o mesmo efeito se daria se fossem escolhidos modelos masculinos. Na verdade, o que mudaria seria o objeto, não o sujeito.

Mas por que omitir intencionalmente o caráter de identificação, nesse trabalho?

Passamos, a partir dessa pergunta, a pensar sobre o espírito da época (Zeitgeist) em que vivemos, sobre questões político-econômicas e a respeito dos resultados socioculturais de uma dominação globalizante.

Notamos que as estratégias de dominação dos mercados adotadas pelos países imperialistas têm como princípio a desestruturação das culturas locais e sua substituição por códigos culturais impostos por meios de comunicação e marketing agressivos e sistemáticos.

O resultado dessa deletéria investida é a destruição da identidade das culturas locais e a imposição de um padrão cultural global que incida sobre o comportamento, em especial, da juventude, para formatar novos consumidores. Talvez nessa hipótese esteja o ponto fulcral, diluído em instâncias subjetivas, da opção de Tales, em sua série Faceless, ao velar aquilo que nos individualiza, isto é, a “máscara” congênita.