Tales Frey

Espasmos Caninos

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Espasmos Caninos. Performance realizada em Búzios, Brasil. Outubro de 2004. Fotografia de Patrícia Telles

 

Colagem a partir de O Bicho, de Manuel Bandeira, da coreografia My Movements Are Alone Like Street Dogs, de Jan Fabre e do filme Un Chien Andalou, de Luis Buñuel e Salvador Dalí. Referência direta a Guillermo Vargas Habacuc, artista que permitiu que um cão de rua morresse em exposição na Nicarágua. Imagens do cão mescladas a outras tragédias que envolvem cachorros são exibidas ao som da música “Debaser”, da banda Pixies.

Nessa ação, evidencio minhas perturbadas experiências pessoais que envolvem assassinatos (acidentais) de cães em uma narrativa não linear que incorpora descrições de abusos sexuais e experiências com drogas que, aparentemente, conduziram-me à beira de um colapso psicótico.

Escolho, aleatoriamente, entre as/os observadoras/es, a/o minha/meu “dona”/“dono”, que me alimentará com derivados de leite e me submeterá à condição de um cão faminto de rua.

Performance realizada entre 2002 e 2012, sofrendo alterações ao longo desses anos.

 

FICHA TÉCNICA

Performance de Tales Frey | Colaboração: Leonardo Manzano | Duração da ação: 40 minutos | Realização: Cia. Excessos | São Paulo, Brasil 2002 | Rio de Janeiro, Brasil 2005 | Bauru, Brasil 2009 | Taubaté, Brasil 2010 | Porto, Portugal 2012

 

HISTÓRICO

[2012] Tômbola Show. Curadoria de Marta Bernardes. Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal.

[2010] SESC Taubaté. Taubaté-SP, Brasil.

[2009] SESC Bauru. Bauru, Brasil.

[2009] MOLA 2009 – Mostra Livre de Artes. Circo Voador, Rio de Janeiro, Brasil.

[2005] 7º Encontro de Artes Cênicas. Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

[2002] SAPO 2002 – Semana de Arte da Poli / USP. São Paulo, Brasil.

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Espasmos Caninos, 2009. Vídeo, 3’22. Edição: 3 + 2 P.A.

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Espasmos Caninos (Políptico), 2009. Fotografias, 7 x 18,8 ao todo. Edição: 3 + 2 P.A.

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Espasmos Caninos. Performance realizada em Bauru, Brasil. Outubro de 2009. Fotografias de Fernanda Dias de Moraes

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Espasmos Caninos. Performance realizada na cidade do Porto, Portugal. Março de 2013. Fotografias de Marta Bernardes e Paulo Aureliano da Mata

 

Barking Dogs

Este texto de Juliana Pinho foi publicado em: Questão de Crítica – Revista eletrônica de críticas e estudos teatrais (Vol. V, n. 43, abril de 2012, ISSN 1983-0300).

No princípio não era o Verbo. No princípio era o ecrã de televisão parado, com um conjunto de riscos coloridos em contagem para a abertura da emissão. Em nosso princípio, no princípio de uma sociedade sem grandes princípios, a televisão marca o ritmo dos acontecimentos. Mas não fiquemos por aqui, pois também no princípio o autor e ator se apresenta: ele é Tales Frey a interpretar Tales Frey. Mas não é por habitar essa personagem, como numa consubstanciação, que se torna mais fácil para Tales interpretar Tales. O autor principia com os avisos iniciais – cinco avisos, bem explicados, como bem aberta está a sua mão – tal como numa liturgia. Aqui, este Te Deum é para a glória de Tales Frey, que durante a sua performance alcança o estado quase virginal (como podemos ver quando se despe, qual Adão antes do pecado).

Após os avisos, ditados de cima de um banco, como o clero no púlpito, Tales começa a nos mostrar cada um dos cinco episódios, intercalando-os com uma pequena coreografia que tem muito em comum com a de Jan Fabre (My Movements Are Alonelike Street Dogs), mas que, aplicada como introdução para cada um dos episódios, tem algo também de obsessivo-compulsivo, algo de extremamente doentio. Aos poucos percebemos que Tales vai se transformando num exemplar canino. E por que o cão? O cão está presente em todos os episódios. Ele atinge o grau de Adão, mas logo em seguida entra na zona diametralmente oposta à do Homem na escala da evolução. O cão é a posição que ele ocupa do outro lado da escala. Já nas histórias que conta, todas relacionadas com cães – autobiográficas ou não –, Tales Frey passa de uma posição de comiseração e carinho endereçada aos diferentes cães que as habitam para uma atitude impiedosa.

Quando nu, Tales-cão, que não esquece sua origem humana, corre a vestir-se, mas demasiado tarde, já que incorpora parte da natureza canina. Não se choca, por isso, com a passagem do célebre episódio de Um Cão Andaluz, de Buñuel. No espetáculo Espasmos Caninos, que teve lugar no Porto, no dia 25 de março, no Tômbola Show, realizado no Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, o público não pareceu particularmente incomodado com a imagem do corte de olho que o filme tornou célebre. Note-se que este olho não era, no filme, um olho humano. Era o olho de um animal. E nesse processo de transformação, que passa pelo dono do cão (Tales Frey) vestir e calçar a pele do cão, apercebemo-nos da referência concreta a Deleuze. O público passa então a entreter e alimentar o cão com um alimento-objeto, e o cão, como que treinado, tenta acumular e transportar tudo o que recebe do público. Acontece porém que os cães treinados, quando aliciados por dois objetos, não tentam devolvê-los ao mesmo tempo, numa só viagem. Mas o cão com o qual nos ocupamos neste artigo, que ainda é homem, que vive as duas naturezas, tenta fazê-lo em vão. Num último estertor, e numa alusão ao filme Último Tango em Paris, opta por tentar transportar o objeto dentro das calças. Note-se que os objetos em questão são pacotes de manteiga.

Na apresentação que teve lugar no Porto, a interação com o público foi constante e por vezes até desarmante, já que o público riu quando das histórias mais pungentes de cães mortos. Estaremos nós, como Tales Frey, em transformação canina? Se sim, uma nova liturgia irá erguer-se: a liturgia que nos permite amar um animal como se fosse da nossa natureza, mas nos enclausura numa espécie de amor incondicional que não obtemos dos outros.