{"id":1025,"date":"2015-09-06T12:47:21","date_gmt":"2015-09-06T15:47:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1025"},"modified":"2020-12-25T00:32:32","modified_gmt":"2020-12-25T03:32:32","slug":"texto-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-2\/","title":{"rendered":"&#8221;Trinta e dois anos, Onze t\u00f3picos e Um pacto declarado aos Trinta e um&#8221;, de Tales Frey"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Tales Frey foi publicado em: <\/em>eRevista Performatus<em> (Inhumas, Ano 2, n. 12, outubro de 2014, ISSN 2316-8102).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>1) <\/strong>Foi em dois mil e treze que eu decidi fazer de todos os meus pr\u00f3ximos anivers\u00e1rios uma data para efetuar sempre uma nova performance, considerando o tal rito de passagem como momento para eu comemorar um ano a mais de vida e lamentar o meu infal\u00edvel fim que se aproxima.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Nasci no dia vinte de junho de mil novecentos e oitenta e dois \u00e0s vinte horas no \u00e1pice da festa de anivers\u00e1rio da minha irm\u00e3 do meio, antecipando o grande momento do \u201cparab\u00e9ns a voc\u00ea\u201d e do corte do bolo para, ent\u00e3o, abandonar o \u00fatero materno \u00e0s vinte horas. O que foi dito a mim \u00e9 que, antes de ir ao hospital, minha m\u00e3e cumpriu, \u00e0s pressas, todas as etapas obrigat\u00f3rias do rito de passagem do anivers\u00e1rio, mesmo sentindo as contra\u00e7\u00f5es que anunciavam meu nascimento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No ano de dois mil e treze, decidindo, ent\u00e3o, tornar a\u00e7\u00f5es de performance os meus anivers\u00e1rios todos que vir\u00e3o, eu acabei por determinar tamb\u00e9m que somente o meu vel\u00f3rio \u00e9 que deliberar\u00e1 o fim dessa s\u00e9rie que faz sugest\u00e3o ao que conhecemos por <em>memento mori<\/em>. Igualmente aos meus anivers\u00e1rios, meu enterro ser\u00e1 realizado com toda efic\u00e1cia transformadora de um ritual juntamente com a no\u00e7\u00e3o art\u00edstico-est\u00e9tica da performance. Tudo est\u00e1 cuidadosamente (e\/ou obsessivamente) sendo programado, mas gostaria de adiar ao m\u00e1ximo o fim desta s\u00e9rie.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>2)<\/strong> Na sinopse da primeira experi\u00eancia (das muitas que espero viver), a qual intitulei <em>Proxim(a)idade<\/em>, explico o seguinte: \u201cNa data de comemora\u00e7\u00e3o da minha pr\u00f3xima idade, uso meu corpo como campo simb\u00f3lico para converter signos que marcam o ritual de passagem do meu anivers\u00e1rio em an\u00fancios da proximidade com a minha morte. Do festejado novo ano de vida, assinalo o an\u00fancio do meu falecimento. A tempor\u00e1ria juventude e beleza d\u00e3o lugar \u00e0 senilidade constru\u00edda de elementos que est\u00e3o presentes tanto nas contentes festas de anivers\u00e1rio quanto nos f\u00fanebres eventos de vel\u00f3rios. A performance explicita a comemora\u00e7\u00e3o de uma mocidade c\u00e9tica, obcecada pelo consumo do que \u00e9 fugaz, mas cheia de entusiasmo, ladeada da velhice apegada \u00e0 f\u00e9 metaf\u00edsica por medo de um cruel desfecho num v\u00e1cuo. A contradi\u00e7\u00e3o enfatiza dois andamentos advindos de uma mesma data em que comemoramos um ano a mais de vida e lamentamos o tempo que nos conduz \u00e0 morte\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>3)<\/strong> A primeira performance (desta s\u00e9rie que me comprometi a realizar at\u00e9 o fim da minha vida) foi executada durante a minha exposi\u00e7\u00e3o<em style=\"color: #000000;\"> <em>Moda e Religiosidade em Registos Corporais<\/em> <\/em><strong>[1]<\/strong>,\u00a0no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura (CAAA) em Guimar\u00e3es (Portugal), onde festejei e lastimei, junto dos meus espectadores, os meus trinta e um anos de idade. Nessa a\u00e7\u00e3o, converti-me em algo similar a um \u201cbolo de festa\u201d ou a um \u201cpresente embrulhado\u201d, principais elementos da festa de anivers\u00e1rio, ao mesmo tempo que deformei minha apar\u00eancia, fazendo uso de alguns utens\u00edlios e ingredientes empregados na prepara\u00e7\u00e3o do bolo e de ornamento do presente, sob a finalidade de me transformar em uma esp\u00e9cie de m\u00famia, com a forma de um defunto, mas, ao mesmo tempo, uma forma afetuosa como a de um doce de festa infantil. O excesso de doce sobre minha pele podia aludir ao uso exagerado de maquiagem sob a tentativa de esconder a idade, mas, nesse caso, com a demasia, acabei por me assemelhar mesmo a um bizarro cad\u00e1ver em putrefa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Prendi bal\u00f5es coloridos ao meu corpo na altura do umbigo, como se quisesse faz\u00ea-lo ascender. Permaneci deitado por tr\u00eas longas horas, enquanto um \u00e1udio \u2013 previamente gravado por mim \u2013 repetia ininterruptamente, em <em>loop<\/em>, obsess\u00f5es em torno da morte, da beleza e da \u201ceterna juventude\u201d, associando essas ideias a cada idade que tive e, tamb\u00e9m, \u00e0 nova idade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c0 meia-noite, j\u00e1 sem as fitas e sem todo o doce sobre o meu corpo, eu soltei os bal\u00f5es no meio da rua, que ascenderam at\u00e9 desaparecerem no c\u00e9u.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Antes de explicar como retirei a a\u00e7\u00e3o do lugar rigoroso de \u201crito de passagem\u201d para se tornar um ritual art\u00edstico\/est\u00e9tico, quero explicar o processo todo para a elabora\u00e7\u00e3o dessa primeira experi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>4) <\/strong>A imagem gerada a partir da performance foi previamente elaborada em desenho (esbo\u00e7o) e, ent\u00e3o, eu queria estabelecer os caminhos para chegar \u00e0 tal imagem diante de uma plateia e, em princ\u00edpio, essa seria a performance: a movimenta\u00e7\u00e3o para construir a imagem esbo\u00e7ada. Precisaria, ent\u00e3o, coreografar um percurso para construir diante do p\u00fablico a tal imagem arquitetada. Ou seja, diante do p\u00fablico, meu corpo estaria livre e, na a\u00e7\u00e3o da performance, eu gradativamente iria mumificar meu pr\u00f3prio corpo com as fitas, prender os bal\u00f5es e lambuzar meu rosto com doces.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1028 size-large\" title=\"Esbo\u00e7os despretensiosos (desenhos de estudo) feitos por mim durante o processo de cria\u00e7\u00e3o da performance &quot;Proxim(a)idade&quot;.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/esbocos_proximaidade-1024x504.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/esbocos_proximaidade-1024x504.jpg 1024w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/esbocos_proximaidade-300x148.jpg 300w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/esbocos_proximaidade.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">Esbo\u00e7os despretensiosos (desenhos de estudo) feitos por mim durante o processo de cria\u00e7\u00e3o da performance\u00a0<em>Proxim(a)idade<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por\u00e9m, depois, acabei por resolver que a performance deveria ser uma esp\u00e9cie de funeral, onde os observadores pudessem conversar, beber e comer, enquanto contemplassem meu corpo quase inerte no espa\u00e7o. Queria que todos assimilassem o presente momento em que toda aquela comida estava fresca e suculenta e deduzissem o que ela se tornaria a partir do dia seguinte, dia em que ela se transformaria em ninho de formigas, de moscas e de vermes. O granulado ao redor e sobre o meu corpo apresentava essa ideia j\u00e1. Para auxiliar a a\u00e7\u00e3o, escrevi um texto sem muita coes\u00e3o de ordem, com uma narrativa aleat\u00f3ria das palavras que me vinham ao pensar em um determinado anivers\u00e1rio j\u00e1 vivido. Misturei os tempos e embaralhei o que corresponderia a uma descri\u00e7\u00e3o de cada idade que tive. Eu elencava palavras relacionadas a vel\u00f3rio e anivers\u00e1rio. A grava\u00e7\u00e3o da minha voz a narrar o texto permaneceu em <em>loop<\/em>, com agourentas palavras e frases carregadas de um tom sombrio e de entona\u00e7\u00e3o macabra, numa distor\u00e7\u00e3o que ia ao encontro da minha deforma\u00e7\u00e3o f\u00edsica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No \u00e1udio, tentei n\u00e3o imprimir nenhuma emo\u00e7\u00e3o na minha voz ao dizer tais express\u00f5es e elocu\u00e7\u00f5es. Usei, ainda, a can\u00e7\u00e3o \u201cParab\u00e9ns a Voc\u00ea\u201d (cantada por mim) de forma t\u00e3o desacelerada que acabou por virar um ru\u00eddo l\u00fagubre, o qual foi associado ao texto que se repetia por tr\u00eas \u00e1rduas horas no espa\u00e7o. Digo \u201c\u00e1rduas\u201d porque, devido ao meu grau de ansiedade e agita\u00e7\u00e3o, sabia o quanto sofreria debaixo daquele simb\u00f3lico casulo apertado, de onde ressurgiria com a minha nova idade: trinta e um anos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Claro, a minha quase ina\u00e7\u00e3o era extremamente exaustiva, pois eu tinha todos os membros do corpo presos, exceto a cabe\u00e7a, que, por sua vez, estava abarrotada de brigadeiro e confeitos coloridos. Nenhum poro estava desobstru\u00eddo. S\u00f3 tinha as narinas para absorver e expelir ar. Se abrisse a boca, poderia engasgar com fragmentos de confeitos ou com partes da espessa camada de chocolate que usava. Tive mesmo que manter a m\u00e1xima concentra\u00e7\u00e3o durante todo o tempo da a\u00e7\u00e3o em que movia meus m\u00fasculos quase que por espasmo, mas que eram imediatamente reprimidos pelo embrulho que cobria o meu corpo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Considerei o hor\u00e1rio do meu nascimento (vinte horas do Brasil, ou seja, meia-noite em Portugal) como momento prop\u00edcio para dar fim \u00e0 minha performance e, ent\u00e3o, das vinte \u00e0s vinte e tr\u00eas horas, permaneci instalado e, das vinte e tr\u00eas at\u00e9 meia-noite, fui libertado (por alguns assistentes) do alv\u00e9olo que constru\u00ed sobre o meu corpo e fui ao camarim para, finalmente, somente na virada do dia vinte para o vinte e um, j\u00e1 limpo e completamente livre do \u201ccasulo\u201d, soltar os bal\u00f5es no espa\u00e7o e colocar um ponto final na performance.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>5) <\/strong>Em outubro de dois mil e treze, a a\u00e7\u00e3o foi repetida, como um ritual est\u00e9tico, durante o <em>Performance Platform Lublin<\/em>, na Galeria Labirynt, na Pol\u00f4nia. Enquanto realizava a a\u00e7\u00e3o, durante o pr\u00f3prio ato sofri influ\u00eancia a partir do est\u00edmulo recebido da audi\u00eancia e acabei por alterar a forma como concluiria a a\u00e7\u00e3o; fui gradativamente aumentando a movimenta\u00e7\u00e3o do meu corpo at\u00e9 que, por fim, consegui escapar do casulo de fitas para caminhar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua, onde soltei os bal\u00f5es. Fiz isso sem ajuda de assistentes e sem passar por uma limpeza no camarim, longe dos olhos dos espectadores. Acho que falhei, porque tornei l\u00fadico o que deveria ser m\u00f3rbido conceitualmente diante dos olhos do observador. O p\u00fablico deveria ver apenas a imagem do meu corpo preso \u00e0s fitas e aos bal\u00f5es para deduzir um desfecho real: os bal\u00f5es murchariam e n\u00e3o me fariam ascender. Mas, claro, considero a pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m como parte de um processo criativo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa mesma forma \u2013 resolvida durante a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o no evento da Pol\u00f4nia \u2013 foi repetida na apresenta\u00e7\u00e3o feita no SESC Campinas, em novembro de dois mil e treze, durante a exposi\u00e7\u00e3o <em>Moda e Religiosidade em Registros Corporais<\/em>. \u00c9 pertinente mencionar que essa a\u00e7\u00e3o, por me manter quase completamente imobilizado durante muito tempo, chega a me causar certo p\u00e2nico. O \u00e1pice desse p\u00e2nico ocorreu na Pol\u00f4nia, situa\u00e7\u00e3o que me fez fugir do lugar expositivo e escapar do olhar da audi\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ressalto que, na primeira apresenta\u00e7\u00e3o, ainda como rito de passagem, resisti bravamente, mas sofri muito durante as tr\u00eas longas horas que enfrentei.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em Campinas, interior de S\u00e3o Paulo, aguentei sem agonia e sem medo. N\u00e3o sei se foi por ter me habituado com o tempo da (in)a\u00e7\u00e3o ou se foi por saber que o fim do aflitivo planejamento era algo muito libertador, ou, ainda, se foi porque estava sendo \u201cvelado\u201d num territ\u00f3rio mais familiar, no estado de S\u00e3o Paulo. Creio que sim, porque em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, na institui\u00e7\u00e3o do SESC, fui assistido pela fam\u00edlia e, l\u00e1, mantive-me ainda mais sereno. Nessa ocasi\u00e3o, encerrei a performance completamente nu quando me livrei das fitas que me envolviam, dos doces que grudavam na minha pele e dos trinta e um bal\u00f5es de g\u00e1s h\u00e9lio que foram soltos no pr\u00f3prio espa\u00e7o fechado. Friso que, nas apresenta\u00e7\u00f5es anteriores, eu me envolvi de fitas por cima da pr\u00f3pria roupa que eu estava usando no dia da a\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Apesar do frio intenso da cidade de Curitiba, durante o p.ARTE do m\u00eas de maio de 2014, procedi da mesma forma que em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto e n\u00e3o utilizei nenhum indumento por baixo da composi\u00e7\u00e3o das fitas, ou seja, somente nas duas \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es \u00e9 que cheguei \u00e0 conclus\u00e3o sobre a melhor maneira de expor sob forma de ritual est\u00e9tico o que foi iniciado tamb\u00e9m como um rito de passagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Foi um m\u00eas antes de completar trinta e dois e dar continuidade a essa s\u00e9rie que me comprometi a nunca mais deixar de fazer.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>6) <\/strong>Fatalmente, para conceber a primeira a\u00e7\u00e3o, fui influenciado ou simplesmente motivado pelas composi\u00e7\u00f5es de algumas artistas que abordam o universo feminino quando recorrem a elementos da culin\u00e1ria para formularem suas estrat\u00e9gias visuais e art\u00edsticas. S\u00e3o elas: a brasileira M\u00e1rcia X. e as meninas do coletivo The Icelandic Love Corporation.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">As obras sobre as quais me apoiei como refer\u00eancia visual para a elabora\u00e7\u00e3o da primeira cria\u00e7\u00e3o foram: <em>Pancake<\/em>, de M\u00e1rcia X. e <em>Woman Good Enough to Eat<\/em>, do coletivo The Icelandic Love Corporation. Em ambas composi\u00e7\u00f5es, os corpos s\u00e3o adornados com alimentos doces, embora, no discurso delas, n\u00e3o seja abordado propriamente o tema em torno da morte e do rito de passagem do anivers\u00e1rio, mas sim o da mulher como objeto de consumo. Evidentemente, essas composi\u00e7\u00f5es todas que uso como refer\u00eancia (bem com a minha pr\u00f3pria) remetem nosso olhar para v\u00e1rios trabalhos da artista cubana Ana Mendieta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>7) <\/strong>O que disse (e mantive gravado em \u00e1udio) para dar in\u00edcio a essa s\u00e9rie e completar trinta e um anos de idade: \u201cFa\u00e7o dois anos. Enfeites. Alimentos meigos, fasc\u00ednio. Vermes nos doces. Meigos, ternos, carinhosos. Fiz vinte e cinco. \u2018Feliz anivers\u00e1rio\u2019. Roupas novas. S\u00e1bio como aos quatorze anos. Caixas, la\u00e7os, caix\u00f5es. Presente. Rel\u00f3gio. Acender velas. Ascender. Subir. Pare\u00e7o ter vinte e nove. Elevar-se. Transcender. Pele jovem. Passado. M\u00e1scara. P\u00fabere. Estou com sete anos. Aus\u00eancia da necessidade do espelho: completo um ano de vida. Truques de maquilagem. Maquiagem. Chocolate granulado. Espelho. Amava ter doze anos. Completo trinta e um. Complexo. Abstruso, complicado, dif\u00edcil, cabeludo, careca. Tenho todos os anos. Tenho todos espelhos. Tenho quinze anos. Sou unicamente o espelho. Tenho vinte e dois anos de idade. N\u00e3o tenho pelos. Trinta. Transforma\u00e7\u00e3o. Desacelerar a idade. Estou com vinte e sete. Doces os vermes. Experiente como aos treze anos. Modelo. Padr\u00e3o. Fiz vinte anos. Juventude. Rugas camufladas. Tenho excesso de pelo. Vinte e um anos. Mascaradas, peles disfar\u00e7adas&#8230; deram-me vinte anos&#8230; encobertas, coloridas. O rel\u00f3gio n\u00e3o para. Vinte e todos. Vivi oito anos. Chama. Sopro. Estouro. Terei dezenove anos. Idoso. Fiz dezesseis anos. Odeio o espelho: doente aos tr\u00eas anos de idade. Pr\u00f3xima idade. Produtos para retoques. Pintura. Dissimula\u00e7\u00e3o. Vinte e tr\u00eas anos. Nutrimentos de formigas. Iscas de doces minhocas. Afetuosos, humanos, af\u00e1veis. Parab\u00e9ns. Vestes impec\u00e1veis. Vivo h\u00e1 nove anos. Caixotes. Completei vinte e quatro anos de vida. La\u00e7arotes, pap\u00e9is rasgados. Mesa decorada. Urna. Caix\u00e3o. Saud\u00e1vel. Pare\u00e7o ter dez anos. Sarc\u00f3fago. Presentes. Atual. Medidor de tempo. Arder. Inflamar. Transcender. Faces ocultas. Ascender. Pele jovem. Vel\u00f3rio. Passado. Elevar-se. Impossibilidade. Adolescente. Aus\u00eancia da necessidade do espelho: completo vinte e seis anos de vida. Pr\u00f3xima idade. Inven\u00e7\u00f5es de pinturas sobre a pele. Maquilagem. Autoimagem. Completo vinte e oito. Entrela\u00e7ado. Podre. Tinha dezessete anos. Flores. Tenho todos os anos de vida que me foram dados. Nego espelhos. Permane\u00e7o. Tenho dezoito anos de idade. Esque\u00e7o a idade. Deslembro. Proximidade. Tenho quatro anos. Arqu\u00e9tipo. Doen\u00e7a. Prot\u00f3tipo. Juventude. Desapare\u00e7o. Deformidades camufladas. Subir para onde? Queria ter onze anos. Mascaradas verdades, peles encobertas. O rel\u00f3gio n\u00e3o para. Esconderijo. Exterioridade. Explos\u00e3o. Caminho. Natureza-morta. Vinte e seis\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>8) <\/strong>No meu trig\u00e9simo segundo anivers\u00e1rio, procurei fantasiar a possibilidade de evitar a morte e regressar ao \u00fatero materno. <em>Reverso<\/em> \u2013 a\u00e7\u00e3o realizada tamb\u00e9m no CAAA em Guimar\u00e3es, assim como foi com a estreia de <em>Proxim(a)idade<\/em> \u2013 \u00e9 um di\u00e1logo meu e da minha m\u00e3e que foi gravado e, depois, totalmente revertido. O p\u00fablico ouve trinta e dois minutos desse \u00e1udio e pode ter acesso ao di\u00e1logo original apenas se grav\u00e1-lo durante a a\u00e7\u00e3o para, depois, revert\u00ea-lo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A conversa foi estabelecida com consentimento da minha m\u00e3e, por\u00e9m ela n\u00e3o sabia que tudo estava sendo gravado. O di\u00e1logo era basicamente em torno da gravidez da minha m\u00e3e, do meu nascimento e de todos os meus anivers\u00e1rios em ordem cronol\u00f3gica. A revers\u00e3o da nossa conversa constr\u00f3i, metaforicamente, um retorno dos trinta e dois anos de idade para a minha forma de embri\u00e3o no \u00fatero materno. Ent\u00e3o, deitado nu sobre um espelho iluminado, contemplo, por trinta e dois minutos, cada parte frontal do meu corpo, considerando que a minha mat\u00e9ria degrada a cada mil\u00e9simo de segundo que passa. Gradativamente, a luz \u00e9 apagada desde o in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o at\u00e9 atingir a completa escurid\u00e3o que marca o fim da performance, aludindo ao ambiente uterino e, ao mesmo tempo, \u00e0 morte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>9) <\/strong>A imagem concebida era completamente minimalista, sendo apenas um recorte de luz elipsoidal (sem filtro de cor) incidida sobre um espelho no qual eu me deitava. No entanto, no dia do evento, surgiu um elemento surpresa que eu contava que fosse ocorrer de outra forma: o reflexo da composi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O espectro gerado a partir da luz sobre o espelho, segundo o que esperava, atravessaria a \u00e1rea das varas de luzes e se constituiria no teto da caixa preta teatral, onde nenhum espectador poderia visualiz\u00e1-lo. Mas, ao contr\u00e1rio do que eu previa, por conta do \u00e2ngulo do refletor de luz que j\u00e1 estava posicionado pelo t\u00e9cnico do espa\u00e7o, o reflexo foi parar na tela branca que delimitava o fundo da \u00e1rea c\u00eanica, sendo esta uma feliz coincid\u00eancia que sublinhou o discurso da obra e colaborou por completo com o teor do trabalho, pois, na espantosa e imprevista sombra originada, perceb\u00edamos dois corpos conectados, funcionando como uma materializa\u00e7\u00e3o da minha ideia de buscar simbolicamente a minha integra\u00e7\u00e3o com o corpo da minha m\u00e3e novamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O conjunto \u2013 a imagem do meu corpo sobre o espelho bem como o espectro provocado \u2013 arrematou o conceito do trabalho, o qual tem, como f\u00e1tuo fundamento, tamb\u00e9m o que Lacan nomeou por \u201cest\u00e1gio do espelho\u201d, que \u00e9 uma express\u00e3o por ele criada para denominar um momento ps\u00edquico da evolu\u00e7\u00e3o humana estabelecido logo no in\u00edcio da vida, entre os seis e os dezoito meses, sendo um per\u00edodo em que a crian\u00e7a desconhece a sua verdadeira unidade corporal e, por isso, antecipa a no\u00e7\u00e3o sobre ela atrav\u00e9s de uma identifica\u00e7\u00e3o com a figura do seu semelhante e da percep\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria imagem refletida num espelho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>10) <\/strong>Vale citar aqui um trabalho desenvolvido sob a mesma premissa de buscar alguma solu\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica para \u201ccurar\u201d a morte, mas o mesmo n\u00e3o pertence a essa s\u00e9rie; \u00e9 s\u00f3 uma coincid\u00eancia (ou insist\u00eancia) na mesma tem\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A ideia inicial dessa cria\u00e7\u00e3o concretizada sob forma de videoperformance foi gerada a partir de uma conversa virtual com a artista e pesquisadora Nath\u00e1lia Mello, a qual, assim como eu, tamb\u00e9m teme a inc\u00f3gnita que \u00e9 a morte. Convers\u00e1vamos a respeito de projetos particulares \u2013 ela falava sobre sua vontade de resgatar a mem\u00f3ria dos seus antepassados e eu sobre os ritos de passagem \u2013 at\u00e9 que ela me recomendou a leitura de <em>O Casaco de Marx \u2013 Roupas, Mem\u00f3rias, Dor<\/em>, de Peter Stallybrass e, no meio do bate-papo, disse que queria, atrav\u00e9s da sua pesquisa, pensar em uma poss\u00edvel cura para a morte. Claro, tudo fez completo sentido para mim e, sob forma de imagem, consegui raciocinar de modo bastante condizente a tudo que profer\u00edamos e, assim, concebi <em>\u00c0-Terra-Dor. <\/em>Eu me imaginei vestido de branco a abrir uma cova rasa, a retirar a roupa que vestia para, da\u00ed, enterr\u00e1-la e abandonar o local nu. Posteriormente, eu voltava ao local para desenterrar a roupa e vesti-la suja de terra, dotada do signo que remete \u00e0 putrefa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria. O formato apresentado como trabalho foi filmar a execu\u00e7\u00e3o de tais a\u00e7\u00f5es e apresentar a rebobinagem de uma sequ\u00eancia que deixa de ser cronol\u00f3gica e, sendo assim, desfaz a minha imagem final a usar o traje \u201cpodre\u201d para mostrar, como um fim, o meu aspecto renovado e, assim, a terra funciona tal qual uma fonte da juventude e n\u00e3o como ambiente onde a nossa carne \u00e9 consumida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Indubitavelmente, a ideia de cura para a morte abordada aqui foi projetada para a concep\u00e7\u00e3o de <em>Reverso<\/em>.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>11) <\/strong>Para o meu pr\u00f3ximo anivers\u00e1rio, vou propor simbolicamente a reintegra\u00e7\u00e3o do meu corpo com o universo, buscando assim a minha garantia de eternidade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>NOTA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]\u00a0<\/strong>Essa exposi\u00e7\u00e3o foi originada a partir da minha tese de doutorado em Estudos Art\u00edsticos \u2013 Estudos Teatrais e Performativos pela Universidade de Coimbra, por meio da qual concebi nove trabalhos art\u00edsticos com base na performance e sob a tem\u00e1tica amparada na moda e na religiosidade. Entre os trabalhos, criei dois rituais com a no\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o associados \u00e0 efic\u00e1cia ritual\u00edstica: meu casamento e o primeiro anivers\u00e1rio que marca o in\u00edcio dessa nova s\u00e9rie. Paulo Aureliano da Mata, meu parceiro de arte e vida, foi naturalmente incorporado \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o, que passou a ser coletiva. Considero ainda, como primeiras experi\u00eancias em que pretendia transformar o meu anivers\u00e1rio em evento de arte, duas polaroides que realizei nos meus anivers\u00e1rios de vinte e sete e de vinte e oito anos consecutivamente, ou seja, em dois mil e nove e em dois mil e dez. Nos anos de dois mil e onze e dois mil e doze, n\u00e3o realizei nenhuma experi\u00eancia nesse sentido e, por esse motivo, considero que essa s\u00e9rie foi iniciada apenas com a performance <em>Proxim(a)idade<\/em> e n\u00e3o com a fotografia em formato polaroide, pois houve uma lacuna de dois anos at\u00e9 que eu pudesse amadurecer esse meu compromisso anual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1029 size-large\" title=\"Arquivo pessoal de Tales Frey.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/polaroides-tales-anivers\u00e1rios-1024x532.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/polaroides-tales-anivers\u00e1rios-1024x532.jpg 1024w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/polaroides-tales-anivers\u00e1rios-300x156.jpg 300w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/polaroides-tales-anivers\u00e1rios.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Arquivo pessoal de Tales Frey<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Tales Frey foi publicado em: eRevista Performatus (Inhumas, Ano 2, n. 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