{"id":1045,"date":"2015-09-06T14:22:33","date_gmt":"2015-09-06T17:22:33","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1045"},"modified":"2020-12-25T00:41:38","modified_gmt":"2020-12-25T03:41:38","slug":"texto-3","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-3\/","title":{"rendered":"&#8221;O Encontro Amoroso de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey em &#8216;Alian\u00e7a&#8217;: Performance, Ritual e Respeito \u00e0 Diversidade&#8221;, de Vanja Poty e Gustavo Rosa Fontes"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Vanja Poty e Gustavo Rosa Fontes foi publicado em: <\/em>eRevista Performatus<em> (Inhumas, Ano 1, n. 4, maio de 2013, ISSN 2316-8102)<\/em><i>.<\/i><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A performance-instala\u00e7\u00e3o <em>Alian\u00e7a<\/em> (2013) dialoga diretamente com outras obras da Cia. Excessos e encerra o ciclo da s\u00e9rie <em>Beijos<\/em>. Assim como em <em>O Beijo <\/em>(2006),<em> O Beijo II <\/em>(2007),<em> O Outro Beijo no Asfalto <\/em>(2009), <em>Reciprocidade Desalmada <\/em>(2010) e<em> Beija-se <\/em>(2012), a a\u00e7\u00e3o de <em>Alian\u00e7a<\/em> prop\u00f5e a ressignifica\u00e7\u00e3o do ato de demonstra\u00e7\u00e3o de afeto que se tem ao tocar os l\u00e1bios. Percebemos, no projeto po\u00e9tico do coletivo, o desejo de deslocamento do eu em dire\u00e7\u00e3o ao outro pela afetividade e, ao mesmo tempo, pelo questionamento de din\u00e2micas sociais viciadas acerca de g\u00eanero, sexualidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Alian\u00e7a, palavra que se refere a um adorno usado em matrim\u00f4nios, carrega em si o significado da pr\u00f3pria jun\u00e7\u00e3o do casal, podendo significar uni\u00e3o, casamento, al\u00e9m da simples acep\u00e7\u00e3o para definir um tipo espec\u00edfico de anel. Esta performance \u00e9 um ritual de casamento no sentido estrito. \u00c9 uma performance art\u00edstica, um ritual pseudorreligioso e est\u00e9tico, \u00e9 um ritual liminar e liminoide. \u00c9 arte e vida ao mesmo tempo (FREY, 2013: 2).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O beijo, nesse caso, \u00e9 o caminho para a uni\u00e3o amorosa. Os artistas Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey casaram-se em mar\u00e7o de 2013 e elaboraram o pr\u00f3prio ritual. A a\u00e7\u00e3o proposta consistiu em beijar as paredes brancas de uma sala de exposi\u00e7\u00e3o com batons de longa dura\u00e7\u00e3o, formando colunas. Cada um dos performers iniciou o trajeto de um lado da galeria, encontrando-se em um \u00fanico beijo antes de partirem de m\u00e3os dadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em paralelo, um v\u00eddeo exibia sucessivamente as diversas marcas, cicatrizes e tatuagens presentes nos corpos dos artistas. Ademais, uma silhueta de amantes feita com cris\u00e2ntemos ocupava a sala, bem como flores trazidas pelo p\u00fablico. Gar\u00e7ons vestidos de noiva serviam bem-casados e beijinhos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No Brasil, o direito ao casamento igualit\u00e1rio ainda n\u00e3o foi plenamente consagrado. No entanto, e felizmente, vemos um processo desencadeado a partir da decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal, em maio de 2011, dando novos contornos \u00e0 quest\u00e3o. Ficaram reconhecidos, de modo definitivo, os efeitos da Uni\u00e3o Est\u00e1vel para os casais homoafetivos, e, assim, a convers\u00e3o desta ao casamento. Por consequ\u00eancia, seguiram-se da\u00ed diversos pedidos judiciais para a dita convers\u00e3o de muitos casais que esperavam por tal mudan\u00e7a jur\u00eddica para finalmente concretizarem a sua rela\u00e7\u00e3o plenamente, atribuindo-lhe todos os efeitos que o casamento gera \u2013 desde a possibilidade de ado\u00e7\u00e3o do nome do c\u00f4njuge at\u00e9 quest\u00f5es patrimoniais, previdenci\u00e1rias e sucess\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #000000;\">H\u00e1 que se ter coragem de ousar para ultrapassar os tabus que rondam o tema da homossexualidade, pois \u00e9 chegada a hora de romper o preconceito que persegue as entidades familiares homoafetivas. Para isso \u00e9 indispens\u00e1vel o enfrentamento de uma cultura ainda apegada a um conceito sacralizado de fam\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 ignorando certos fatos, deixando determinadas situa\u00e7\u00f5es em descoberto do manto da juridicidade, que se faz justi\u00e7a. Esta \u00e9 a forma mais cruel de gerar injusti\u00e7as e fomentar a discrimina\u00e7\u00e3o (DIAS, 2011: 263).\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 importante se ter em mente que as diversas formas de fam\u00edlia devem ser abra\u00e7adas pelo Direito. A dignidade humana deve ser posta em primeiro plano, e nunca o preconceito e posturas intransigentes poder\u00e3o se sobrepor a ela. \u00c9 nesse sentido, pois, que Dias acentua a dificuldade de se justificar a omiss\u00e3o do legislador, quando a Constitui\u00e7\u00e3o, \u201cdesde seu pre\u00e2mbulo, assume o compromisso de assegurar uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos\u201d (Ibidem: 249).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Alguns Estados j\u00e1 regulamentaram a quest\u00e3o, nos seus respectivos \u00e2mbitos, de modo que \u00e9 poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o do casamento igualit\u00e1rio de forma direta, bastando a manifesta\u00e7\u00e3o do desejo de unir-se em cart\u00f3rio: por isso, <em>Alian\u00e7a <\/em>p\u00f4de ser realizada em Catanduva (SP), cidade natal de um dos artistas. No entanto, o casamento n\u00e3o se restringe apenas aos seus efeitos jur\u00eddicos; pelo contr\u00e1rio, representa um ritual que se configura t\u00e3o importante quanto esse aspecto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Richard Schechner (2012) afirma que os rituais s\u00e3o formas de recorda\u00e7\u00e3o, e que transformam as normas da vida cotidiana assim como modificam os sujeitos. Em <em>Alian\u00e7a<\/em>, o batom \u201cvinte e quatro horas\u201d serve como instrumento do rito: deixa a boca em evid\u00eancia como em uma m\u00e1scara; pinta as paredes do espa\u00e7o expositivo, transformando o ambiente; modifica temporariamente <strong>[1]<\/strong> a apar\u00eancia dos corpos; e evoca a lembran\u00e7a devido a sua perman\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O coletivo descreve a a\u00e7\u00e3o como <em>liminar<\/em> e <em>liminoide<\/em> devido ao fato de a performance marcar a transi\u00e7\u00e3o de uma fase da vida para outra e ser tamb\u00e9m uma proposta est\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por um lado, s\u00e3o liminares os ritos de passagem que, em espa\u00e7os especialmente demarcados, corroboram para o entendimento e a elabora\u00e7\u00e3o de novas categorias sociais ou identidades. Para entender o processo de mudan\u00e7a, os artistas se colocam em estado de vulnerabilidade, realizando a\u00e7\u00f5es repetitivas que induzem ao transe psicof\u00edsico. A prepara\u00e7\u00e3o da performance tamb\u00e9m colabora para esse desprendimento de si. Podemos identificar no discurso de Tales Frey (2013) alguns dos elementos levantados por Schechner, tais como: a escolha de roupas novas, a elabora\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es especiais e o di\u00e1logo com tradi\u00e7\u00f5es <strong>[2]<\/strong>.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #000000;\">A performance ocorreu uma \u00fanica vez, com potente efic\u00e1cia ritual\u00edstica, j\u00e1 que transformou o nosso estado civil para sempre. De \u201csolteiros\u201d, passamos para a situa\u00e7\u00e3o de \u201ccasados\u201d. Nem se quisermos podemos voltar \u00e0 primeira condi\u00e7\u00e3o, pois se dermos fim ao nosso casamento seremos \u201cdivorciados\u201d, \u201cvi\u00favos\u201d, mas jamais \u201csolteiros\u201d outra vez (FREY, 2013: 2).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Alian\u00e7a<\/em> liga esses dois mundos identit\u00e1rios. Ela \u00e9 um corredor, um espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre essas duas condi\u00e7\u00f5es, aberto a possibilidades.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por outro lado, a performance \u00e9 liminoide por ser um produto est\u00e9tico ritualizado. Victor Turner (<em>apud<\/em> LIGI\u00c8RO, 2012, <em>passim<\/em>) utiliza o termo para pensar sobre as a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas do lazer nas culturas modernas e p\u00f3s-modernas, que evocam a no\u00e7\u00e3o de sagrado, ainda que laicas. Na tentativa de reconquistar a liminaridade tradicional, a reconstru\u00e7\u00e3o da cena primitiva \u00e9 um dos temas recorrentes nas experimenta\u00e7\u00f5es de vanguarda, com diversos desdobramentos contempor\u00e2neos. A partir do descontentamento com a civiliza\u00e7\u00e3o e com as estruturas sociais existentes, os artistas, principalmente a partir da d\u00e9cada de 1960, passam a inventar rituais performativos que pendem para a valoriza\u00e7\u00e3o do inconsciente, assentando-se em impulsos que, por meio do transe, evocam poderes de magia e metamorfose.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #000000;\">O impulso atr\u00e1s dessas reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9 uma tentativa de superar uma sensa\u00e7\u00e3o de fragmenta\u00e7\u00e3o individual e social por meio da arte. Essa necessidade \u00e9 agravada pelo fato de, muitas vezes, os artistas se sentirem exclu\u00eddos pelas religi\u00f5es [\u2026] a necessidade de construir uma comunidade \u00e9 incentivada pelo ritual. E se os rituais oficiais n\u00e3o satisfazem, ou s\u00e3o rituais not\u00f3rios e exclusivos, novos rituais ser\u00e3o inventados, ou alguns, mais antigos, adaptados, para encontrar o sentido de que necessitam (SCHERCHNER, 2012: 84).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">As motiva\u00e7\u00f5es para delimita\u00e7\u00e3o de um tema ou foco de interesse na arte s\u00e3o ideol\u00f3gicas, est\u00e9ticas e afetivas. Essa desconstru\u00e7\u00e3o do cotidiano indica, para Carl G. Jung (1991), o significado social da obra de arte. Em sua insatisfa\u00e7\u00e3o com o tempo vigente, os artistas da Cia. Excessos visam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito da \u00e9poca, trazendo, em sua obra, imagens rituais para compensar as car\u00eancias da sociedade. De acordo com Jung, as necessidades an\u00edmicas de um povo s\u00e3o satisfeitas por meio de acontecimentos art\u00edsticos, ativando uma forma de comunica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e ritual com os espectadores, distinta do habitual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Schechner recorda ainda que o ritual fomenta a solidariedade no grupo em um sentimento de <em>communitas <\/em>espont\u00e2nea. A experi\u00eancia de \u201ccamaradagem ritual\u201d \u00e9 gerada pelo di\u00e1logo ocorrido em um espa\u00e7o-tempo sagrado e de festa, transportando temporariamente os fruidores da obra de arte. Diferentemente de outras obras, os performers s\u00e3o aqui transformados \u2013 e n\u00e3o transportados \u2013 devido ao car\u00e1ter liminar da a\u00e7\u00e3o. Dessa forma, <em>Alian\u00e7a<\/em> pode ser considerada uma performance de transforma\u00e7\u00e3o, cujos transportadores s\u00e3o os artistas nubentes. Estes alteram as din\u00e2micas dos indiv\u00edduos presentes, metamorfoseando-os em uma comunidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eleonora Fabi\u00e3o (2008) investiga o poder da performance em \u201cturbinar a rela\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o com a p\u00f3lis\u201d, pois o sujeito em contato com a interven\u00e7\u00e3o abrupta de seu cotidiano \u00e9 obrigado a tomar posi\u00e7\u00f5es. Para a pesquisadora, performers s\u00e3o \u201ccomplicadores culturais\u201d que, ao suspender categorias classificat\u00f3rias na arte, criam zonas de desconforto e reflex\u00e3o. Nesse sentido, a pequena cidade de Catanduva foi obrigada a posicionar-se acerca da uni\u00e3o dos artistas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><span style=\"color: #000000;\">Esta \u00e9 a pot\u00eancia da performance: des-habituar, des-mecanizar, escovar a contrapelo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o estabelecido, de experimentar estados psicof\u00edsicos alterados, de criar situa\u00e7\u00f5es que disseminam disson\u00e2ncias diversas (FABI\u00c3O, 2008: 237).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Frey (2013) relata que, antes da a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica, os artistas tiveram que lidar com manifesta\u00e7\u00f5es preconceituosas e, at\u00e9 mesmo, de \u00f3dio \u2013 com base religiosa ou n\u00e3o \u2013 contra o evento. Ao mesmo tempo, contou com apoio de pessoas relacionadas \u00e0 cultura na cidade. Podemos notar, nesse contexto, um embate entre o uso do espa\u00e7o p\u00fablico (Secretaria Municipal da Cultura) e a posi\u00e7\u00e3o religiosa e moral de determinados indiv\u00edduos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 interessante compreender a quest\u00e3o sob o ponto de vista da autonomia moral do indiv\u00edduo (cf. FONTES, 2013). Em primeiro lugar, \u00e0 lei n\u00e3o cabe determinar certos aspectos da moralidade ou imoralidade, notadamente em quest\u00f5es de moral sexual envolvendo adultos. Em segundo, \u00e9 pertinente se considerar o car\u00e1ter eventualmente religioso da norma: a dicotomia liberdade de religi\u00e3o\/laicidade do Estado impede a veicula\u00e7\u00e3o de regras baseadas unicamente na \u00e9tica religiosa. Em terceiro, a no\u00e7\u00e3o de liberdade individual vai de encontro \u00e0 interfer\u00eancia do Estado em quest\u00f5es individuais, a n\u00e3o ser que haja preju\u00edzo para terceiros. Por \u00faltimo, ainda que seja poss\u00edvel afirmar que o direito veicula preceitos morais, isso n\u00e3o deveria ocorrer em rela\u00e7\u00e3o a temas controversos em que n\u00e3o h\u00e1 uma verdade moral ou quando esta \u00e9 dif\u00edcil de ser estabelecida (FONTES, 2013: 75).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Sob esse ponto de vista, o preconceito, ou a vontade de impor uma moral religiosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 performance, n\u00e3o somente vai de encontro ao direito ao casamento igualit\u00e1rio, rec\u00e9m-conquistado \u2013 ainda sob reservas na maioria dos Estados \u2013, mas tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria liberdade: de opini\u00e3o, de religi\u00e3o, art\u00edstica. N\u00e3o cabe \u00e0 esfera p\u00fablica a decis\u00e3o sobre o conte\u00fado da arte, ainda que realizada no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O car\u00e1ter liminar da obra extrapola os limites da pr\u00f3pria arte, acarretando numa consequ\u00eancia jur\u00eddica: a altera\u00e7\u00e3o do estado civil dos performers-nubentes. \u00c9 claro que o processo somente foi conclu\u00eddo ap\u00f3s o ato do juiz de paz, oficializando a uni\u00e3o do casal em cart\u00f3rio; entretanto, n\u00e3o foi isso que os uniu de fato. <em>Alian\u00e7a<\/em> o fizera antes: para os artistas, foi esse ritual que gerou o v\u00ednculo que se perfaz em casamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Programas ou a\u00e7\u00f5es performativas criam corpos alterados que afetam e s\u00e3o afetados. <em>Alian\u00e7a<\/em> prop\u00f5e a fus\u00e3o de dois corpos que buscam caminhos diferenciados para representar a si mesmos, por meio de um ritual de integra\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias, de suas cicatrizes, mem\u00f3rias e experi\u00eancias \u2013 vide a proje\u00e7\u00e3o de imagens de fragmentos das marcas f\u00edsicas dos artistas. Renato Cohen (2011) liga a performance \u00e0 <em>live art<\/em> por sua aproxima\u00e7\u00e3o direta com a vida: nessa linguagem, o real n\u00e3o \u00e9 mais representado tal como no teatro, e sim reelaborado no deslocamento de signos de seus <em>habitats<\/em> naturais \u2013 tal como no <em>ready-made<\/em> de Marcel Duchamp \u2013, criando cacos entre as no\u00e7\u00f5es de arte e n\u00e3o arte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Elabora-se ent\u00e3o uma tens\u00e3o dial\u00e9tica entre a ritualiza\u00e7\u00e3o do cotidiano e a desmistifica\u00e7\u00e3o das hierarquias cristalizadas na arte. Ao mesmo tempo, o movimento perform\u00e1tico busca a vida (da\u00ed muitas vezes a sua irrepetibilidade) e rejeita o naturalismo em um processo de experimenta\u00e7\u00e3o de fronteiras entre as linguagens c\u00eanica e visual. Cohen aproxima a performance ao princ\u00edpio do prazer freudiano em oposi\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da realidade, caracterizado pelo adiamento da gratifica\u00e7\u00e3o: portanto, ela liberta o ser de suas pris\u00f5es condicionantes e de seus lugares comuns impostos pelo sistema, ainda que com a organiza\u00e7\u00e3o de uma mensagem elaborada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Por fim, o car\u00e1ter contratual do casamento n\u00e3o \u00e9 suficiente para representar esse instituto: o casamento est\u00e1 vinculado ao sagrado, como em <em>Alian\u00e7a<\/em>. N\u00e3o o sagrado de um deus, de uma divindade, mas o valor cultural do sagrado. E \u00e9 justamente essa a import\u00e2ncia da extens\u00e3o desse direito a todos \u2013 independentemente do g\u00eanero e sexo dos nubentes: o amor entre eles \u00e9 suficiente para atingir aquela ben\u00e7\u00e3o. Roland Barthes (2003) evoca a imagem do cora\u00e7\u00e3o para pensar o \u00f3rg\u00e3o do corpo representante do encontro amoroso. \u00c9 ele que causa encantamentos em nosso imagin\u00e1rio e que, em sua inquietude, \u00e9 objeto de doa\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 o que temos a oferecer, e o que acreditamos entregar para algu\u00e9m em uma uni\u00e3o. Seu fluxo e ritmo n\u00e3o podem ser impedidos pelas amarras de uma fatia conservadora da sociedade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><b>NOTAS<\/b><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]<\/strong>\u00a0Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o, os performers passaram mais de vinte e quatro horas com as marcas de batom no rosto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[2]<\/strong>\u00a0Vale lembrar que flores, bem-casados, roupas e a\u00e7\u00f5es rituais fazem parte da tradi\u00e7\u00e3o do casamento em nossa cultura.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><b>BIBLIOGRAFIA<\/b><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">BARTHES, Roland. <strong>Fragmentos de um discurso amoroso<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">COHEN, Renato. <strong>Performance como linguagem<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2011.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">DIAS, Maria Berenice. \u201cRumo a um novo ramo do direito\u201d. In: ______. (Org.). <strong>Diversidade sexual e direito homoafetivo<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 249-263.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">FABI\u00c3O, Eleonora. \u201cPerformance e Teatro: Po\u00e9ticas Pol\u00edticas na Cena Contempor\u00e2nea\u201d. <strong>Revista Sala Preta<\/strong> (USP), vol. 08, n. 01, 2008.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">FONTES, Paulo G. Guedes. \u201cLimites do direito diante da autonomia moral do indiv\u00edduo: Os riscos do m\u00e1ximo \u00e9tico\u201d. <strong>Revista do Tribunal Federal da 3<u><sup>a<\/sup><\/u> Regi\u00e3o<\/strong>, Ano XXIV, n. 116, S\u00e3o Paulo: jan.-mar. 2013, p. 69-82.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">FREY, Tales. <strong>Alian\u00e7a<\/strong>. Cia. Excessos, 2013. Acessado em: 16.04.2013. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/tales-frey\/trabalhos\/alianca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/ciaexcessos.com.br\/tales-frey\/trabalhos\/alianca\/<\/a><\/span>&gt;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Esp\u00edrito na arte e na ci\u00eancia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Vozes, 1991.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; line-height: 1.5;\">SCHECHNER, Richard. \u201cRitual\u201d. In: LIGI\u00c9RO, Zeca (Org.). <strong>Performance e antropologia de Richard Schechner<\/strong>. Rio de Janeiro: MauadX, 2012, p. 49-89.<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Vanja Poty e Gustavo Rosa Fontes foi publicado em: eRevista Performatus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":1005,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1045","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1045"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6941,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1045\/revisions\/6941"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}