{"id":1193,"date":"2015-09-08T00:35:20","date_gmt":"2015-09-08T03:35:20","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1193"},"modified":"2020-05-27T11:27:16","modified_gmt":"2020-05-27T14:27:16","slug":"texto-13","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-13\/","title":{"rendered":"&#8221;Imagem e Dessemelhan\u00e7a&#8221;, de Dinah Cesare"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Dinah Cesare foi publicado em: <\/em>eRevista Performatus<em> (Inhumas, Ano 1, n. 3, mar\u00e7o de 2013, ISSN 2316-8102).<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Intercessores<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Mudan\u00e7a do lugar de quem olha \u2013 consequ\u00eancia de assistir a uma performance capturada por dispositivos. Entramos no \u00e2mbito que afirma as possibilidades das imagens. O pensamento a respeito das no\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias da imagem que surgiram na imbrica\u00e7\u00e3o entre as linguagens e manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas das artes contempor\u00e2neas necessita, por si s\u00f3, de uma visada que procure por deriva\u00e7\u00f5es. Para Deleuze e Guattari, o papel da filosofia \u00e9 criar conceitos. Eles consideram ter criado pelo menos um de fundamental import\u00e2ncia \u2013 o de ritornelo. O ritornelo \u00e9 um problema relacionado ao territ\u00f3rio, referente \u00e0s entradas e sa\u00eddas do territ\u00f3rio. Ent\u00e3o, isso nos leva \u00e0 compreens\u00e3o de uma nova pretens\u00e3o do conceito de desterritorializa\u00e7\u00e3o: \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 territ\u00f3rio sem vetor de sa\u00edda, e n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda do territ\u00f3rio sem, ao mesmo tempo, um esfor\u00e7o de territorializa\u00e7\u00e3o. As imagens da videoperformance interessam, sobretudo, por seu aspecto de partilha, de disponibilidade no mundo e por sua conjuga\u00e7\u00e3o entre olhar e imagina\u00e7\u00e3o. Em <em>Re-banho<\/em> existe um desconforto experimentado com a rememora\u00e7\u00e3o do vivido no espa\u00e7o topol\u00f3gico da cidade \u2013 reside a\u00ed uma esp\u00e9cie de edifica\u00e7\u00e3o m\u00edtica que instaura um campo de batalha. Uma batalha contra a paralisia que o mito e seu regime de cren\u00e7a fortalecem.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Impress\u00f5es da imagem<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A primeira vis\u00e3o que o v\u00eddeo nos d\u00e1 \u00e9 de cima. Performers, baldes e uma sonoridade de respira\u00e7\u00e3o. Se nesse momento estamos claramente em um lugar de observador, outras tomadas nos colocam juntos aos performers \u2013 a c\u00e2mera como personagem que escolhe os \u00e2ngulos de vis\u00e3o. Acompanhamos o percurso realizado na rua quase como testemunhas. Esse movimento insinua um apagamento do primeiro, mas, juntos na montagem, faz pensar na ideia inversa \u2013 talvez estejamos sempre sendo vigiados, por\u00e9m, ironicamente, por n\u00f3s mesmos. A a\u00e7\u00e3o que testemunhamos se volta e nos olha. Muitas vezes, querendo ou n\u00e3o, nos vemos investidos em ajuizamentos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A sonoridade da respira\u00e7\u00e3o imediatamente se mistura ao som urbano. John Cage disse em uma entrevista que, quando escuta m\u00fasica, parece, para ele, que algu\u00e9m est\u00e1 falando, como se escutasse algu\u00e9m falando sobre seus sentimentos ou sobre suas ideias de relacionamentos. Mas quando escuta o som do tr\u00e2nsito, tem a sensa\u00e7\u00e3o de que o som est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o. \u00c9 como uma atividade do som que ele adora. Realizar a apropria\u00e7\u00e3o da ideia da atividade do som urbano em <em>Re-banho <\/em>tem o car\u00e1ter de fazer surgir certos questionamentos que misturam a cidade e o corpo que age. O que \u00e9 espa\u00e7o externo? A cidade ou o corpo, na medida em que os dois viram agentes? N\u00e3o estar\u00edamos processando uma interioridade da cidade? Se o desejo m\u00e1ximo da subjetividade \u00e9 adquirir uma insistente individualidade, a a\u00e7\u00e3o privada do banho realizada em espa\u00e7o p\u00fablico empreende um movimento que refuta o natural. E se esse \u00e9 um modo pelo qual no m\u00ednimo designamos alguma coisa por arte \u2013 contraponto ao natural \u2013, d\u00e1-se um embara\u00e7o no ajuizamento, tanto do que seria o natural como do que seria o constru\u00eddo. Assim, nossa no\u00e7\u00e3o mesma de subjetividade fica desterritorializada, derivando entre essas polaridades. Nossa sorte ser\u00e1 encontrar um ponto de fuga. Talvez a fuga poss\u00edvel seja se voltar para a realidade e investigar seu car\u00e1ter de constru\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Re-banho<\/em> focaliza o corpo alegorizado, quase como uma montagem de \u00edcones. O v\u00eddeo faz o trabalho de recorte dos corpos-como-\u00edcones diante da igreja. Na vis\u00e3o frontal, com os performers de costas, ela se mostra com for\u00e7a de monumento. As varia\u00e7\u00f5es das imagens que nos chegam n\u00e3o impedem a afirma\u00e7\u00e3o de alguns motivos iconogr\u00e1ficos que se repetem e, assim afirmados, tomam a fei\u00e7\u00e3o de um evento hist\u00f3rico. \u00c0 igreja \u00e9 atribu\u00eddo um valor de testemunho que, pelo menos em alguma medida, depende da atividade mental de uma \u00e9poca. Vemos, ent\u00e3o, duas \u00e9pocas em um confronto materializado no corpo \u2013 estatu\u00e1ria de Aleijadinho que aponta criticamente para o que a criou. Por meio da a\u00e7\u00e3o dos performers em se banhar vestidos, esfregando o corpo com \u00e1gua e sab\u00e3o por baixo das roupas severas, cria-se uma esp\u00e9cie de escritura. Talvez uma nova escritura, uma liturgia \u00e0s avessas que transforma a fun\u00e7\u00e3o da \u00e1gua. Ela n\u00e3o limpa, n\u00e3o acalma, mas quase que escarna os corpos. Nesse sentido, a imagem \u00e9 simultaneamente texto. Um texto escrito pela fric\u00e7\u00e3o que coloca em xeque aquilo que consideramos nossa identidade: legado de autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O (re)fazer que acontece na exibi\u00e7\u00e3o da videoperformance menos confere eternidade ao presente espec\u00edfico da a\u00e7\u00e3o do que instala novas atualiza\u00e7\u00f5es. Se o peso do testemunho tradicional se perde com a imagem reproduzida, a atualiza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno parece se aproximar do que Walter Benjamin ressaltou a respeito das possibilidades da reprodu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de \u201ccolocar a c\u00f3pia do original em situa\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis para o pr\u00f3prio original. Ela pode, principalmente, aproximar o indiv\u00edduo da obra\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Outras implica\u00e7\u00f5es do corpo em <em>Re-banho<\/em> sugerem um modo de se relacionar com a quest\u00e3o divina da imagem assim\u00e9trica que origina o homem. Como nos diz Viviane Matesco em um texto esclarecedor, o pecado original introduz a dessemelhan\u00e7a de uma imagem deca\u00edda. A semelhan\u00e7a crist\u00e3, por mais que n\u00e3o se repita muito isso por a\u00ed, est\u00e1 pautada numa hierarquia, pois fixa uma c\u00f3pia que se assemelha ao seu modelo, mas o inverso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. A rela\u00e7\u00e3o modelar do corpo crist\u00e3o \u00e9 com uma imagem; assim, existe uma necessidade imposta de media\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o que parece ser escrito pela imagem \u00e9 a dessemelhan\u00e7a, que deixa de ser um tema e inclui o outro na a\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A formula\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do \u201ccoeficiente art\u00edstico\u201d de Marcel Duchamp \u00e9 que a obra de arte se abre no espa\u00e7o do receptor, na temporalidade que vai detectar uma intensividade na obra. A arte que comumente chamamos de contempor\u00e2nea, mais do que querer estabelecer lugares idealizados, procura por modos de conviv\u00eancia no espa\u00e7o p\u00fablico em meio a nossa atualidade de experi\u00eancias fragment\u00e1rias. O lugar do corpo inscrito na dessemelhan\u00e7a de <em>Re-banho<\/em> se refaz de uma teleologia que o fundamenta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">BENJAMIN, Walter. \u201cA obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica\u201d. In: <strong>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura. Obras Escolhidas.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1985, p. 168.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">MATESCO, Viviane. <strong>Corpo imagem e representa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Dinah Cesare foi publicado em: eRevista Performatus (Inhumas, Ano 1, n. 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