{"id":1215,"date":"2015-09-08T00:59:01","date_gmt":"2015-09-08T03:59:01","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1215"},"modified":"2020-05-27T11:25:08","modified_gmt":"2020-05-27T14:25:08","slug":"texto-16","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-16\/","title":{"rendered":"&#8221;Todo Amor que Houver nessa Vida&#8221;, de Raphael Fonseca"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Raphael Fonseca foi publicado em:\u00a0<\/em>eRevista Performatus<em>\u00a0(Inhumas, Ano 1, n. 1, novembro de 2012, ISSN 2316-8102).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O c\u00edrculo, desde Plat\u00e3o, \u00e9 considerado uma forma geom\u00e9trica perfeita. No\u00a0<em>Timeu<\/em>, ele afirma:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">De facto, a forma adequada ao ser vivo que deve compreender em si mesmo todos os seres vivos ser\u00e1 aquela que compreenda em si mesma todas as formas. Por isso, para o arredondar, como que por meio de um torno, deu-lhe uma forma esf\u00e9rica, cujo centro est\u00e1 \u00e0 mesma dist\u00e2ncia de todos os pontos do extremo envolvente \u2013 e de todas as figuras \u00e9 essa a mais perfeita e semelhante a si pr\u00f3pria \u2013, considerando que o semelhante \u00e9 infinitamente mais belo do que o dissemelhante.\u00a0<strong>[1]<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Com uma chave de leitura crist\u00e3, nitidamente devedora do pensamento plat\u00f4nico, Santo Agostinho discorre sobre as formas geom\u00e9tricas em\u00a0<em>Sobre a Potencialidade da Alma<\/em>:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px; text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Quanto \u00e0 figura mais excelente, n\u00e3o duvidar\u00e1 que seja aquela cujo per\u00edmetro est\u00e1 equidistante do centro de tal maneira que qualquer ponto da superf\u00edcie dista igualmente do centro, sem \u00e2ngulos que impe\u00e7am a igualdade, de cujos centros podemos tra\u00e7ar linhas iguais para qualquer dos limites da figura.\u00a0<strong>[2]<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O\u00a0c\u00edrculo ou a esfera \u00e9 a forma geom\u00e9trica que engloba os astros, e est\u00e1 presente nas mais diversas representa\u00e7\u00f5es cosmog\u00f4nicas: \u00e9 o sol, a lua, a Terra, \u00e9 aquilo que possibilita que Saturno tenha an\u00e9is e se configure, em verdade, como uma s\u00e9rie de c\u00edrculos conc\u00eantricos. \u00c9 casa tamb\u00e9m de Yin e Yang, conceitos do taoismo: escurid\u00e3o e luz, oposi\u00e7\u00e3o e completude, noite e dia numa mesma figura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Essa mesma constru\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica d\u00e1 forma a uma parte da arquitetura do Centro Cultural Banco do Brasil, situado no Rio de Janeiro, no centro carioca. Constru\u00e7\u00e3o iniciada em 1880, o pr\u00e9dio funcionou, entre 1906 e 1986, exclusivamente para fins econ\u00f4micos. Inicialmente uma Associa\u00e7\u00e3o Comercial, funcionou tamb\u00e9m como Bolsa de Fundos P\u00fablicos e depois como ag\u00eancia deste que \u00e9 o primeiro banco estatal criado em terras brasileiras. O CCBB-RJ, atualmente, pode ser considerado um dos mais importantes polos de cultura da capital do Rio de Janeiro, onde s\u00e3o apresentadas diversas exposi\u00e7\u00f5es de artes visuais e mostras de cinema que passaram por disputada sele\u00e7\u00e3o p\u00fablica de projetos. Nesse sentido, poderia ser chamado de \u201ctemplo da cultura\u201d, de modo equivalente \u00e0 etimologia da palavra \u201cmuseu\u201d, ou seja, um \u201ctemplo das musas\u201d, local de preserva\u00e7\u00e3o do conhecimento e perpetua\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria por meio das imagens.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Voltando ao c\u00edrculo e chegando \u00e0 arquitetura: chama a aten\u00e7\u00e3o, nesse pr\u00e9dio, a rotunda que ilumina e coroa o\u00a0<em>foyer<\/em>\u00a0desse espa\u00e7o. Trinta e tr\u00eas metros distanciam o ch\u00e3o da c\u00fapula de vidro; o di\u00e1logo entre espa\u00e7o interno erguido pelo homem e contempla\u00e7\u00e3o distante da natureza azul est\u00e1 dado. E qual a origem dessa op\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica? O mais c\u00e9lebre exemplo de pr\u00e9dios com uma rotunda (<em>rotonda<\/em>), ou seja, com base circular e uma c\u00fapula, adv\u00e9m da Antiguidade romana e se encontra at\u00e9 hoje conservado. Trata-se do Pantheon, constru\u00eddo no s\u00e9culo I a.C. e reformado no s\u00e9culo seguinte. Como seu pr\u00f3prio nome aponta, tratava-se originalmente de um abrigo (pante\u00e3o), ou melhor, um templo para todos os deuses do Olimpo. No s\u00e9culo VI d.C., devido \u00e0s diversas mudan\u00e7as ocasionadas pelo surgimento e dissemina\u00e7\u00e3o do cristianismo, o espa\u00e7o foi rebatizado como Igreja de Santa Maria e Todos-os-Santos; o protagonismo, portanto, foi dado \u00e0 m\u00e3e de Jesus e a todos os seguidores que se martirizaram pela propaga\u00e7\u00e3o de seu nome. Para o fil\u00f3sofo neoplat\u00f4nico Plotino (s\u00e9culo III d.C.), Deus era o Uno e poderia ser representado pela luz \u2013 esse grande raio luminoso pode ser fru\u00eddo nos dias atuais dentro do Pantheon devido a uma esfera que fica no centro da c\u00fapula e emociona os turistas crist\u00e3os com suas m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas. Deus ainda pode ser luz.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em uma noite de 2006, iluminados por luz artificial, mas no centro de um modelo arquitet\u00f4nico que um dia foi alvo para a luz divina, a Cia. Excessos realizou uma performance. Dois corpos pousaram sobre o cora\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>foyer<\/em>\u00a0do CCBB-RJ e sustentaram um beijo por meia hora. O ato afetivo, que por si chamava a aten\u00e7\u00e3o pela centralidade espacial, tinha um dado que saltava aos olhos: ap\u00f3s constatar a diferen\u00e7a de altura entre os indiv\u00edduos e considerar que o mais alto seria um homem e o mais baixo uma mulher (suspeita que se confirmava ap\u00f3s um olhar mais detido), se percebia que uma curta saia xadrez era um elemento fora do conjunto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Tales Frey estava vestido com um\u00a0<em>top<\/em>\u00a0amarelo e saia, ao passo que Cristine \u00c1gape usava uma cal\u00e7a cargo e um gorro. N\u00e3o se tratava, portanto, de afeto homossexual, mas um beijo heterossexual que se apresentava como um r\u00e1pido desconcerto. Imagino que a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que fazia fila para o teatro e que aparece ao fundo desse beijo no registro existente seja a mesma de quando mostro esse trabalho aos meus alunos. Em primeiro lugar, ou\u00e7o algo como \u201cMeu Deus, um homem e um travesti se beijando\u201d e, segundos depois, algu\u00e9m diz \u201cN\u00e3o, \u00e9 um homem vestido de mulher\u201d. Os pelos nas pernas s\u00e3o percebidos e freiam uma primeira rea\u00e7\u00e3o preconceituosa do espectador. Dessa exclama\u00e7\u00e3o brota uma interroga\u00e7\u00e3o: \u201cPor que eles est\u00e3o vestidos desse modo? Por que n\u00e3o est\u00e3o \u2018normais\u2019?\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Esse parece o ponto que a Cia. Excessos tamb\u00e9m deseja questionar: o que \u00e9 o \u201cnormal\u201d? O que \u00e9 \u201cser normal\u201d? O que \u00e9 uma roupa \u201capropriada\u201d ao seu g\u00eanero? Mais do que isso, como se constroem os g\u00eaneros? H\u00e1 espa\u00e7o para essa discuss\u00e3o e para limites t\u00e3o claros em uma cultura visual contempor\u00e2nea que j\u00e1 coroou Madonna, David Bowie e Lady Gaga, e que cada vez mais questiona o pr\u00f3prio conceito de ambiguidade?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Realizar esse gesto art\u00edstico no centro do CCBB-RJ \u00e9 como gritar em pra\u00e7a p\u00fablica. O \u201ctemplo da cultura\u201d foi tomado e todos os passantes esbarrar\u00e3o com um ato art\u00edstico de meia hora. Muitos sequer saber\u00e3o que aquilo ali era arte, mas isso n\u00e3o \u00e9 o mais relevante; importa saber que esses muitos tamb\u00e9m n\u00e3o apagar\u00e3o essa cena (nojenta para alguns, heroica para outros) de suas mem\u00f3rias. O pobre Plat\u00e3o \u00e9 colocado contra a parede: sobre o seu perfeito c\u00edrculo, algo que se choca com sua afirma\u00e7\u00e3o de que \u201co semelhante \u00e9 infinitamente mais belo que o dissemelhante\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ao levar em considera\u00e7\u00e3o a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da conceitua\u00e7\u00e3o religiosa em torno do c\u00edrculo e, al\u00e9m disso, da utiliza\u00e7\u00e3o da rotunda como elemento formal da arquitetura religiosa, podemos interpretar esse ato da Cia. Excessos como uma profana\u00e7\u00e3o \u2013 ef\u00eamera e singela, assim como a presilha colocada no cabelo do performer, que convida nosso olhar para o seu rosto e para a presen\u00e7a do seu bigode. Esse dado profano \u00e9 ampliado quando se toma conhecimento de que esse trabalho foi realizado enquanto estava em cartaz a exposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Er\u00f3tica \u2013 Os Sentidos da Arte<\/em>: um trabalho de outra performer, M\u00e1rcia X., que foi censurado. O registro de um de seus trabalhos mais famosos,\u00a0<em>Desenhando com Ter\u00e7os<\/em>, em que a artista fazia o contorno de falos por meio da linearidade desses objetos sacros, ocupando o ch\u00e3o de uma sala, foi retirado do evento devido \u00e0 press\u00e3o de autoridades cat\u00f3licas do Rio de Janeiro. Mal sabiam elas que outra a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o emoldurada, de curta dura\u00e7\u00e3o, mas que ter\u00e1 longa vida devido ao registro audiovisual e acesso p\u00fablico propiciado pela internet, foi realizada logo abaixo, no t\u00e9rreo da institui\u00e7\u00e3o, sem necessidade de media\u00e7\u00e3o ou de elevador, fora das salas que permeiam as imagens com o estatuto da arte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Se o Pantheon era um templo para todos os deuses, a Cia. Excessos realiza uma constru\u00e7\u00e3o de imagem diversa com corpos e a lembran\u00e7a proporcionada pelo v\u00eddeo. Sai a figura de \u201cDeus\u201d e entra o protagonismo do beijo. O pante\u00e3o se metamorfoseia em \u201cpanamor\u201d e \u00e9 erguido outro monumento a toda forma de amor, a todos os amantes que j\u00e1 trocaram fluidos na hist\u00f3ria: homens com mulheres, mulheres com homens, homens com homens, mulheres com mulheres ou, mais do que isso, humanos com humanos. Um viva e esperan\u00e7a de dias melhores para, como diria Cazuza, \u201ctodo amor que houver nessa vida\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]<\/strong>\u00a0PLAT\u00c3O.\u00a0<strong>Timeu \u2013 Cr\u00edtias<\/strong>. Coimbra: Centro de Estudos Cl\u00e1ssicos e Human\u00edsticos, 2011, p. 102.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[2]<\/strong>\u00a0SANTO AGOSTINHO,\u00a0<strong>Sobre a potencialidade da alma (De quantitate animae)<\/strong><em>.<\/em>\u00a0Trad. de Aloysio Jansen de Faria. Petr\u00f3polis: Vozes, 2005, p. 58.<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Raphael Fonseca foi publicado em:\u00a0eRevista Performatus\u00a0(Inhumas, Ano 1, n. 1, novembro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":996,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1215","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1215"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6296,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1215\/revisions\/6296"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}