{"id":1610,"date":"2015-11-21T08:12:18","date_gmt":"2015-11-21T10:12:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1610"},"modified":"2020-05-27T11:25:48","modified_gmt":"2020-05-27T14:25:48","slug":"texto-18","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-18\/","title":{"rendered":"&#8221;O que Diz Aquele Mero Peda\u00e7o de Corpo?&#8221;, de Julia Pelison"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Julia Pelison foi publicado em:\u00a0<\/em>dezanove \u2013 not\u00edcias e cultura LGBT em portugu\u00eas\u00a0<em>(Outubro de 2015. ERC 125969).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Felizmente, observamos uma intensa ascens\u00e3o da teoria e pol\u00edtica\u00a0<em>queer<\/em>\u00a0em nosso contexto atual e, obviamente, o interesse pelos preceitos que envolvem essa corrente referida est\u00e1 diametralmente relacionado ao tamb\u00e9m crescente movimento de um conservadorismo fan\u00e1tico\/retr\u00f3grado\/repressor que, lamentavelmente, tem tomado for\u00e7a e conquistado um n\u00famero significativo de adeptos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Testemunhamos ainda uma resist\u00eancia, ora mascarada ora escancarada, do patriarcalismo teimoso em sua conduta inflex\u00edvel com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade de cada indiv\u00edduo. Dada essa situa\u00e7\u00e3o, criar uma extens\u00e3o do j\u00e1 tradicional Festival\u00a0<em>Queer Lisboa<\/em>\u00a0no norte de Portugal foi uma pondera\u00e7\u00e3o de extremo valor por parte da organiza\u00e7\u00e3o do evento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em muitas conversas informais, antes e depois das sess\u00f5es de cinema, nomes de te\u00f3ricas(os) como Paul Beatriz Preciado, Judith Butler, Gilles Deleuze, Monique Wittig, Michel Foucault, Simone de Beauvoir, F\u00e9lix Guattari, Susan Sontag, entre muitas(os) outras(os), encorpavam muitos argumentos do p\u00fablico que discutia o conte\u00fado da programa\u00e7\u00e3o. O mesmo tom despretensioso de conversa para debater a tem\u00e1tica ali assumida foi arrastado at\u00e9 o desfecho do evento no \u00faltimo dia 10 de outubro de 2015 no Espa\u00e7o de Interven\u00e7\u00e3o Cultural Maus H\u00e1bitos, na cidade do Porto. Ali estava instalado o corpo do performer Tales Frey numa das paredes do ambiente. E \u00e9 justamente por conta desse trabalho que o presente texto se materializa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Atrav\u00e9s de um orif\u00edcio na parede branca do Maus H\u00e1bitos, v\u00edamos apenas um recorte do corpo do artista. Apenas o seu traseiro estava dispon\u00edvel ao olhar (e ao toque em alguns casos) da audi\u00eancia, como se esse recorte da sua carne fosse um objeto e n\u00e3o mais parte do seu corpo real. V\u00edamos o corpo objetificado e posicionado numa altura n\u00e3o condizente ao corpo fidedigno; a eleva\u00e7\u00e3o era a de uma obra exposta na parede numa galeria e, ao lado das n\u00e1degas do artista, estava a legenda do trabalho, tal qual vemos ao lado de pinturas, esculturas, instala\u00e7\u00f5es etc. \u201cPor favor, n\u00e3o tocar\u201d. Mas muitas(os) dos presentes tocavam na obra ali exposta; umas(uns) para apenas constatarem se o material da obra era carne ou cera ou qualquer outra coisa, outras(os) para atender ao pr\u00f3prio prazer pessoal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A passividade daquele peda\u00e7o de corpo apresentado na parede do espa\u00e7o muitas vezes despertava n\u00e3o s\u00f3 o desejo do simples toque, mas o anseio completamente s\u00e1dico de agredir aquele fragmento de carne e pele, como se o tal retalho fosse indolor, como se o mesmo n\u00e3o tivesse a chance de manifestar a sua dor. E de fato a dor n\u00e3o era manifestada ali no mesmo espa\u00e7o e, por isso, n\u00e3o comovia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Uns faziam-lhe carinho, outros aplicavam-lhe golpes, tapas, jogavam-lhe bebida, torturavam-lhe com fogo, interagiam com ou sem nenhuma compaix\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O desconforto com ou a assimila\u00e7\u00e3o do \u201cobjeto\u201d exposto culminava em mol\u00e9stia ou troca inofensiva de tato entre a obra e a audi\u00eancia. A mat\u00e9ria corp\u00f3rea soava falsa, toava uma imita\u00e7\u00e3o, assemelhava-se ao \u00f3rg\u00e3o prost\u00e9tico e suscitava a tenta\u00e7\u00e3o do toque; for\u00e7ava que o(a) observador(a) se posicionasse como participante e ignorasse a prescri\u00e7\u00e3o dada atrav\u00e9s do t\u00edtulo do trabalho. Sagazmente, o artista ironizava as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas atrav\u00e9s do seu traseiro, questionando desde o objeto de arte inerte e intoc\u00e1vel at\u00e9 as rela\u00e7\u00f5es biopol\u00edticas presentes nas sociedades desde s\u00e9culos atr\u00e1s que ecoam at\u00e9 a atualidade. O artista for\u00e7ava-nos \u00e0 reflex\u00e3o ao expor seu rabo sem pelos, como apelo \u00e0 considera\u00e7\u00e3o sobre a redutora opera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que determina a diferen\u00e7a sexual atrav\u00e9s de uma representa\u00e7\u00e3o meton\u00edmica pelo meio de \u00f3rg\u00e3os isolados: vagina e p\u00eanis. Na performance-instala\u00e7\u00e3o, Tales Frey exp\u00f5e um centro er\u00f3geno universal, ou seja, uma \u00e1rea corp\u00f3rea comum a todos, um fragmento destitu\u00eddo de diferencia\u00e7\u00e3o sexual, colocando em xeque todo o sistema tradicional da representa\u00e7\u00e3o sexo\/g\u00eanero e, naturalmente, tal postura pol\u00edtica, quando apresentada de forma em que n\u00e3o h\u00e1 como ter defesa para al\u00e9m do discurso visual, desperta a f\u00faria dos que agridem e, ao mesmo tempo, o \u201chigh five\u201d de quem acata o argumento.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Julia Pelison foi publicado em:\u00a0dezanove \u2013 not\u00edcias e cultura LGBT em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":999,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1610","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1610","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1610"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1610\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6298,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1610\/revisions\/6298"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1610"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}