{"id":1782,"date":"2015-12-08T09:15:47","date_gmt":"2015-12-08T11:15:47","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=1782"},"modified":"2020-12-25T00:37:42","modified_gmt":"2020-12-25T03:37:42","slug":"texto-20","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-20\/","title":{"rendered":"&#8221;&#8216;Orexia&#8217;: Um Coeso Sentido num Am\u00e1lgama&#8221;, de Julia Pelison"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Julia Pelison foi publicado em: <\/em>Artlyst <em>(Maio de 2014).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No come\u00e7o, tudo toava como uma sequ\u00eancia de gestos insanos num lugar que chegava quase a ser aterrorizante devido ao comportamento do performer, que transmitia aspectos de um psicopata nas suas movimenta\u00e7\u00f5es um tanto suspeitas, pois segurava uma faca grande de cozinha e circulava pelo espa\u00e7o expositivo, cumprimentando os observadores que l\u00e1 chegavam, trocando informa\u00e7\u00f5es com eles de forma trivial, mas sempre com essa faca na m\u00e3o. Tales Frey n\u00e3o abandonava esse objeto em nenhum momento, ao contr\u00e1rio, agarrava o mesmo com energia, mantendo constantemente um tom que oscilava entre ora ares infantis ora patol\u00f3gicos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O clima assombroso advinha principalmente dos \u00e1udios dos v\u00eddeos que se embaralhavam e formavam um ru\u00eddo que remetia nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e0 emiss\u00e3o sonora de alguma cena pesada de filme de horror ou de algum pesadelo. Talvez essa interpreta\u00e7\u00e3o seja muito particular, mas talvez seja pertinente para todos que l\u00e1 estiveram desde o in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o. S\u00e3o impress\u00f5es advindas de est\u00edmulos viscerais gerados nessa performance-instala\u00e7\u00e3o-exposi\u00e7\u00e3o ocorrida em maio de 2014 no Barrac\u00e3o Maravilha, uma galeria situada no bairro da Lapa na cidade do Rio de Janeiro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Presenci\u00e1vamos uma cozinha instalada no ambiente, com um fog\u00e3o, panelas de alum\u00ednio, geladeira e ingredientes para o preparo de um jantar. Al\u00e9m de uma mesa grande lotada de televisores com pratos dispostos na frente de cada um deles. O p\u00fablico podia se sentar em qualquer uma das dez cadeiras para assistir aos v\u00eddeos expostos, sendo todos entupidos por conte\u00fados sanguinolentos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Estava, assim, instaurada uma ambienta\u00e7\u00e3o sombria, apesar de o espa\u00e7o ser completamente claro, apresentando paredes brancas. Os televisores, as cadeiras, a mesa, enfim, quase tudo possu\u00eda a mesma matiz c\u00e2ndida hospitalar, e, quando n\u00e3o, entregava grada\u00e7\u00f5es negras, uma paleta precisa de cor, que n\u00e3o vacilava e que marcava extremos, contrastes intensos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ao abrir um pequeno card\u00e1pio que ali se encontrava, objeto que, ao inv\u00e9s da ementa, ostentava o texto-conceito da performance que gerou a exposi\u00e7\u00e3o intitulada <em>Orexia<\/em>, poder\u00edamos concluir que a atmosfera m\u00f3rbida facilmente percebida era o grande acerto do artista, pois todo o conjunto de obras (incluindo a pr\u00f3pria performance) foi materializado justamente a partir de um pesadelo, o qual foi transposto para aquele local, para que pud\u00e9ssemos partilhar daquela viv\u00eancia on\u00edrica pertencente \u00e0 sua subjetividade, mas que foi ali universalizada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No conte\u00fado da \u201cperturba\u00e7\u00e3o noturna\u201d (maneira como o artista prefere nomear o sonho que experienciou), Tales, numa galeria de arte, servia, em pratos brancos, uma feijoada aos espectadores. A mesa onde seria degustada a refei\u00e7\u00e3o estava repleta de televisores e, em cada um deles, eram transmitidos seis v\u00eddeos diferentes. <em>Orexia<\/em> \u00e9 exatamente a tentativa de transpor esse sonho, que envolve uma performance (o ato de preparar e de servir uma feijoada) e seis v\u00eddeos idealizados no plano inconsciente, al\u00e9m de outros cinco que foram incorporados (quatro do pr\u00f3prio artista e um de Paulo Aureliano da Mata).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Certamente, o inconsciente apresenta ideias desconexas, confusas, misturadas e Tales assume isso no conceito de sua obra, mas observa que encontra coes\u00e3o no meio desse caos, no meio dessa desordem. Na instala\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica, entre bancos de diferentes formas, h\u00e1 uma unidade de cor; entre imagens aparentemente desarm\u00f4nicas nas formas, investidas de cores, percebemos harmonia tem\u00e1tica, que, de forma geral, envolve a efemeridade da mat\u00e9ria e a nega\u00e7\u00e3o do falecimento por via da sua reintegra\u00e7\u00e3o em outras mat\u00e9rias atrav\u00e9s da recombina\u00e7\u00e3o, embora v\u00edssemos de um lado um v\u00eddeo mais po\u00e9tico, l\u00fadico e de outro um mais <em>trash<\/em> ou extremamente violento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Uma fra\u00e7\u00e3o do inconsciente do artista estava ali, discursando de forma contr\u00e1ria a uma l\u00f3gica heteronormativa, faloc\u00eantrica, abordagens presentes em muitos outros trabalhos da Cia. Excessos. Da\u00ed podermos dizer que uma parte de Paulo Aureliano da Mata, tamb\u00e9m fundador e integrante da Cia., estava naquela inconsci\u00eancia partilhada de Tales; se observarmos melhor esse duo de artistas, perceberemos, em todos os seus trabalho, uma fus\u00e3o de tudo o que fazem, mesmo que de forma individual, seja na arte ou na vida. Vimos isso na exposi\u00e7\u00e3o <em>Moda e Religiosidade em Registros Corporais<\/em>, vimos isso em <em>Beija-me<\/em> (que foi finalizada com o casamento, no sentido estrito, entre os dois artistas) e vemos aqui tamb\u00e9m em <em>Orexia<\/em>. Nunca h\u00e1 um sozinho, s\u00e3o sempre os dois; \u00e9 sempre em parceria\/companhia que realizam suas cria\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Orexia<\/em>, performance-instala\u00e7\u00e3o que come\u00e7a de forma sombria, densa, em tom de pesadelo, termina de maneira festiva, com feijoada, cacha\u00e7a, cerveja e conversa fiada, papo s\u00e9rio ou qualquer di\u00e1logo que espontaneamente ocorre numa festa ou jantar para muitos amigos e\/ou desconhecidos que se aglomeram num mesmo recinto art\u00edstico. O arremate da a\u00e7\u00e3o se d\u00e1 com a forma\u00e7\u00e3o de um grupo aturdido, embriagado, alcoolizado n\u00e3o s\u00f3 pelo literal ato de ingerir o que foi ali servido, mas pelo torpor ocasionado pelos v\u00eddeos e pela performance, que notavelmente propiciaram uma experi\u00eancia \u00fanica e extraordinariamente desprovida dos clich\u00eas ma\u00e7antes da arte contempor\u00e2nea, abrigados por tantas galerias e museus que temem o risco.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Julia Pelison foi publicado em: Artlyst (Maio de 2014). &nbsp; No [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":56,"menu_order":1004,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1782","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1782"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1782\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6938,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1782\/revisions\/6938"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}