{"id":579,"date":"2015-09-01T21:11:32","date_gmt":"2015-09-02T00:11:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=579"},"modified":"2020-12-25T00:35:50","modified_gmt":"2020-12-25T03:35:50","slug":"texto-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/tales-frey\/textos-entrevistas\/texto-1\/","title":{"rendered":"&#8221;O Pequeno (e Excessivo) Espa\u00e7o do Beijo&#8221;, de Andr\u00e9 Masseno"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Este texto de Andr\u00e9 Masseno foi publicado em: Espa\u00e7o MIRA (Porto, Portugal. <\/em>(Tra)Vestir um Fa(c)to: Catal\u00f3go<em>. Porto: 2015, 22 p.); <\/em>eRevista Performatus<em> (Inhumas, Ano 3, n. 13, janeiro de 2015, ISSN 2316-8102).<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>Si le sangra la boca, el bofet\u00f3n lo olvida con un beso.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"right\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"line-height: 1.5;\">N\u00e9stor Perlonghe<\/span>r<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O\u00a0beijo \u2013 um espa\u00e7o de tempo onde dois corpos se encontram pelo toque de suas bocas. As l\u00ednguas produzindo um curto-circuito, entrela\u00e7ando duas carnes, duas subjetividades. No instante do beijo, abre-se outro espa\u00e7o-tempo, quando ent\u00e3o, e quase que instantaneamente, os olhos se fecham para entrar em si e no ser beijado\/beijante, instaurando o tempo e a viv\u00eancia de um pacto m\u00fatuo, ainda que moment\u00e2neo. O tempo do beijo pode ser o dispendioso transborde de uma entrega, o fortalecimento de uma alian\u00e7a ou o in\u00edcio de uma possibilidade de intimidade com o outro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Talvez devido a todos esses motivos, o beijo possua entre n\u00f3s um vasto rastro cultural, ou ent\u00e3o, por outro lado, os motivos j\u00e1 sejam resultantes desse rastro, j\u00e1 que a a\u00e7\u00e3o do beijo sempre foi abordada no \u00e2mbito da arte e da ind\u00fastria cultural: o beijo sinuoso de Rodin e o beijo-abra\u00e7o de Klimt; o beijo <em>standard<\/em> dos tempos \u00e1ureos de Hollywood; o beijo n\u00e3o contido em alguns filmes de sexo expl\u00edcito; Marilyn beijando com a voz sussurrada ao cantarolar a can\u00e7\u00e3o \u201cKiss\u201d; a l\u00edngua-serpente do vocalista da banda de rock Kiss; o beijo b\u00edblico de Judas. Um rastro infind\u00e1vel de beijos vem \u00e0 tona em minha lembran\u00e7a ao escrever este ensaio, que se trata de uma tentativa de beijar os l\u00e1bios da arte e de seus agentes. Para falar sobre o beijo, preciso ir at\u00e9 o lugar do simples, \u00e9 preciso fechar os olhos para, no sil\u00eancio, sentir a chegada da boca do outro, sentir o ro\u00e7ar de sua boca na minha e, no tempo de um beijo intermin\u00e1vel, deixar sair o sopro do outro contido em mim no instante daquele toque entre l\u00ednguas, saliva e ar. E aqui neste ensaio eu busco beijar algumas a\u00e7\u00f5es da Cia. Excessos em que o beijo surge como estrat\u00e9gia para a visibilidade de express\u00f5es e de identidades de g\u00eanero situadas fora do escopo heteronormativo. A\u00e7\u00f5es que se munem de determinados dispositivos de representa\u00e7\u00e3o e reitera\u00e7\u00e3o da heteronormatividade \u2013 tais como a paridade heterossexual e a indument\u00e1ria matrimonial, por exemplo \u2013 para ent\u00e3o subvert\u00ea-las, apontando-as como elementos de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva e performativa de pap\u00e9is e express\u00f5es de g\u00eanero de cunho hegem\u00f4nico e moral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A primeira a\u00e7\u00e3o da Cia. Excessos em que o ato de beijar surge como tem\u00e1tica e estrat\u00e9gia art\u00edstica acontece em 2006, com <em>O Beijo<\/em>. A a\u00e7\u00e3o ocorreu paralelamente \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o <em>Er\u00f3tica \u2013 Os Sentidos da Arte<\/em>, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro. Naquele per\u00edodo (em que a obra <em>Desenhando com Ter\u00e7os<\/em>, da artista carioca M\u00e1rcia X., fora censurada pela dire\u00e7\u00e3o do CCBB <strong>[1]<\/strong>), Tales Frey e Cristine \u00c1gape, no<em> foyer<\/em> do centro cultural, beijaram-se durante trinta minutos ininterruptos. Tales Frey vestiu-se com minissaia e Cristine usou bon\u00e9 e cal\u00e7as que remetem ao vestir-se de um menino. A a\u00e7\u00e3o pretendia ser invis\u00edvel, como uma infiltra\u00e7\u00e3o \u00e0 revelia da curadoria e do centro cultural, sem a necessidade de sua autoriza\u00e7\u00e3o. O p\u00fablico do centro cultural pareceu ou fingiu n\u00e3o se importar com o beijo e tampouco com o modo de se vestir do par \u2013 talvez porque, ao ocuparem o <em>foyer<\/em> da institui\u00e7\u00e3o, os observadores achassem que a a\u00e7\u00e3o fazia parte de um evento promovido pelo centro cultural. Talvez porque naquele espa\u00e7o n\u00e3o poderia haver qualquer a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse previamente art\u00edstica e \u201cautorizada\u201d, ou por causa das condi\u00e7\u00f5es vigentes \u2013 em que um centro cultural \u00e9 um espa\u00e7o p\u00fablico, por\u00e9m protegido por suas conven\u00e7\u00f5es institucionais \u2013, o gesto n\u00e3o provocou o devido alarde, j\u00e1 que as peculiaridades t\u00edpicas de um centro cultural (espa\u00e7o expositivo e de observa\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es e de produ\u00e7\u00f5es art\u00edstico-culturais) acabam por encaixar qualquer a\u00e7\u00e3o que ocorra dentro de seu espa\u00e7o f\u00edsico na categoria de evento digno de relev\u00e2ncia. Nesse contexto, qualquer a\u00e7\u00e3o perturbadora termina por ficar \u201cemoldurada\u201d, \u201ccategoriz\u00e1vel\u201d, mesmo que seja uma a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pretenda produzir objetos materiais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Cabe ressaltar que nem todas as sexualidades s\u00e3o p\u00fablicas ou privadas da mesma maneira. O beijo, o abra\u00e7o ou o caminhar de m\u00e3os dadas entre pessoas do mesmo sexo em p\u00fablico provoca rep\u00fadio a ponto de gerar viol\u00eancia, enquanto pessoas de sexos opostos, fazendo as mesmas coisas, se tornam invis\u00edveis e at\u00e9 mesmo s\u00e3o apoiadas em suas a\u00e7\u00f5es (cf. WARNER, 2005: 24). <em>O Beijo<\/em> problematiza essa l\u00f3gica da invisibilidade do gesto afetivo em p\u00fablico entre pessoas que n\u00e3o s\u00e3o do mesmo sexo: embora trate-se de um \u201chomem\u201d e uma \u201cmulher\u201d se beijando \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o dada como \u201cnatural\u201d dentro de uma sociedade heteronormativa \u2013, a temporalidade da a\u00e7\u00e3o de beijar aliada \u00e0 vestimenta \u2013 \u201chomem\u201d com \u201ctrajes de mulher\u201d e \u201cmulher\u201d com \u201ctrajes de homem\u201d \u2013 desloca o espa\u00e7o invis\u00edvel e autorizado da express\u00e3o afetiva entre sexos opostos, ainda que o p\u00fablico circundante disfarce o seu desconforto ao evitar olhar diretamente para o par que se beija. Nesse beijo, a a\u00e7\u00e3o p\u00f5e em xeque a invisibilidade e a naturaliza\u00e7\u00e3o acordadas pela sociedade a fim de evidenciar, de forma enviesada, a desautoriza\u00e7\u00e3o do gesto afetivo entre os pares gay e l\u00e9sbico, que se encontram representados na a\u00e7\u00e3o justamente pela aus\u00eancia do beijo entre iguais, caracterizado pela sua falta de representatividade na esfera p\u00fablica. Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o deixar de remeter <em>O Beijo<\/em> de Tales e Cristine \u00e0 estrat\u00e9gia do \u201cbeija\u00e7o\u201d, promovida por gays e l\u00e9sbicas contra a discrimina\u00e7\u00e3o de suas sexualidades e identidades de g\u00eanero, tendo o beijo entre iguais no espa\u00e7o p\u00fablico como forma de protesto e reivindica\u00e7\u00e3o de cidadania.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 no projeto seguinte, <em>O Beijo 2<\/em> (2007) \u2013 agora em homenagem a Cristine \u00c1gape, rec\u00e9m-falecida, e com entrada de Larissa C\u00e2mara em seu lugar \u2013, a a\u00e7\u00e3o retoma a mesma ideia e proposta de dura\u00e7\u00e3o da anterior, por\u00e9m se assumindo como projeto art\u00edstico ao aceitar o convite de ser refeita dentro de dois eventos de arte (Mola 2007 \u2013 Mostra Livre de Artes e Centro Cultural dos Arcos, ambos no Rio de Janeiro). Tamb\u00e9m h\u00e1 uma mudan\u00e7a nas representa\u00e7\u00f5es sociais das vestimentas dos performers<em>,<\/em> passando Tales Frey a trajar um vestido de noiva e Larissa C\u00e2mara um terno de noivo. Agora o par evoca a visualidade e a representa\u00e7\u00e3o do matrim\u00f4nio heterossexual tradicional, em que os pap\u00e9is de g\u00eanero e o relacionamento amoroso est\u00e3o atrelados \u00e0 \u00e9tica religiosa cat\u00f3lico-crist\u00e3.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A meu ver, com a inser\u00e7\u00e3o da indument\u00e1ria matrimonial da noiva cat\u00f3lica dentro da a\u00e7\u00e3o do beijo, a a\u00e7\u00e3o acaba por dialogar enviesadamente com o jogo com os objetos religiosos propostos por M\u00e1rcia X. \u2013 justamente a artista cuja obra sofrera censura na exposi\u00e7\u00e3o onde a primeira vers\u00e3o de <em>O Beijo<\/em> fora clandestinamente performada. Em <em>O Beijo 2<\/em>, ocorre um di\u00e1logo enviesado justamente com a artista a quem Tales Frey j\u00e1 dedicou uma an\u00e1lise afetivo-cr\u00edtica acerca de seus procedimentos art\u00edsticos (cf. FREY, 2013). Assim como os ter\u00e7os cat\u00f3licos tornados f\u00e1licos pela manipula\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcia X., atrav\u00e9s de seu corpo vestido de noiva o performer Tales Frey (e mais adiante Paulo Aureliano da Mata, que ir\u00e1 participar de algumas a\u00e7\u00f5es subsequentes, como veremos mais adiante) evidencia a indument\u00e1ria como emblema do discurso faloc\u00eantrico cat\u00f3lico-crist\u00e3o, que recai sobre a fisicalidade da mulher como corpo casto e virgem guardado para o corpo do pretendente. Al\u00e9m disso, a a\u00e7\u00e3o de <em>O Beijo<\/em> tamb\u00e9m dialoga com os procedimentos art\u00edsticos de M\u00e1rcia X. no que tange \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de uma temporalidade esgar\u00e7ada ao ponto da exaust\u00e3o f\u00edsica, \u201cat\u00e9 o fim do espa\u00e7o, do material ou do tempo\u201d, como a pr\u00f3pria M\u00e1rcia X. afirmara sobre as suas performances <strong>[2]<\/strong>. Nesse beijo exaustivo, a todo momento e ao mesmo tempo sendo terminado e retomado, abre-se um espa\u00e7o para uma corporeidade em tr\u00e2nsito, corporeidade <em>em-transe<\/em>, em suma, uma <em>transa<\/em> entre os corpos que se beijam e o espa\u00e7o circundante. E tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser um <em>beijo-transe<\/em> da Cia. Excessos no transborde dos procedimentos art\u00edsticos de M\u00e1rcia X., com suas problematiza\u00e7\u00f5es das quest\u00f5es de g\u00eanero e erotismo dentro do campo da arte e de suas institui\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A partir de 2009, as a\u00e7\u00f5es subsequentes elaboradas em torno do beijo e da problem\u00e1tica acerca das representa\u00e7\u00f5es de g\u00eanero ultrapassam o territ\u00f3rio nacional e passam a habitar o espa\u00e7o p\u00fablico da rua. <em>O Outro Beijo no Asfalto<\/em> (2009), por exemplo, evoca e parece ser uma resposta suplementar ao t\u00edtulo do texto teatral <em>O Beijo no Asfalto<\/em>, de Nelson Rodrigues <strong>[3]<\/strong>. A performance acontece na cidade do Porto, em Portugal, com a participa\u00e7\u00e3o de Paulo Aureliano da Mata e Berenice Isabel como o par de noivos. Dessa vez, a a\u00e7\u00e3o instaura-se no terreno citadino, no meio de uma cal\u00e7ada com um grande movimento de passantes, que ora ignoram a a\u00e7\u00e3o ou ent\u00e3o demonstram uma ligeira surpresa \u2013 vis\u00edvel pela desacelera\u00e7\u00e3o dos passos enquanto seus olhares paralisados mant\u00eam suas cabe\u00e7as voltadas para o par que se beija, para s\u00fabita e sutilmente disfar\u00e7arem a surpresa, agindo como se nada tivesse acontecido ao retomarem o ritmo que havia no caminhar antes de notarem a presen\u00e7a dos performers. <em>O Outro Beijo no Asfalto<\/em> marca a passagem de Tales Frey para a\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o seriam necessariamente performadas por ele (em algumas tendo a presen\u00e7a de Paulo Aureliano da Mata na opera\u00e7\u00e3o \u201chomem vestido de noiva\u201d) ou que seriam executadas por ele sozinho ou por mais de dois agentes, deslocando a ideia de paridade entre performers. Al\u00e9m disso, outros materiais despontariam como \u201cpares em potencial\u201d, como batom vermelho, espelhos e vidra\u00e7as\/vitrines. Surgem portanto outros pares poss\u00edveis \u2013 performer e espelho; performer e imagem do performer; performer e batom \u2013 e at\u00e9 mesmo outras combinat\u00f3rias de trios e duos: perfomer e batom e vidra\u00e7a\/vitrine; performer, batom e observador, performer e observador, e assim sucessivamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em <em>Reciprocidade Desalmada<\/em> (2010), a a\u00e7\u00e3o do beijar avan\u00e7a para outras possibilidades de interven\u00e7\u00e3o nas ruas da cidade do Porto e aponta novas combina\u00e7\u00f5es de paridades poss\u00edveis. Vestido de noiva, Tales Frey divide a a\u00e7\u00e3o com mais quatro artistas mulheres que trajam roupas masculinas: Berenice Isabel, Joana Lleys, Lizi Menezes e Paula Guedes. Elas e ele n\u00e3o se beijam entre si, mas beijam sim os espelhos instalados especialmente para cada performer nas fachadas de alguns pr\u00e9dios da rua do Almada. Durante sessenta minutos, cada qual beija seu espelho e portanto a sua pr\u00f3pria imagem. Do beijo entre o par, a a\u00e7\u00e3o se desloca para o beijo na pr\u00f3pria imagem intermediada pelo espelho, um objeto que rebate a imagem da\/do performer, que faz par consigo mesma\/o. O espelho retorna para a\/o performer a sua identidade e express\u00e3o de g\u00eanero a qual ela\/ele beija. Dupla camada do beijo, em que a\/o performer beija a si mesma\/o e o seu corpo em performance p\u00fablica, atrav\u00e9s de seus trajes, de outras representa\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. Beija a si mesma\/o e beija a outra\/o outro que se desprende de sua a\u00e7\u00e3o e imagem refletida. O espelho abre possibilidades de si ao infinito que o beijar cont\u00ednuo da imagem de si e da outra\/do outro no espelho (que tamb\u00e9m evoca o \u201cem si mesmo\u201d) parece constantemente reativar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Na a\u00e7\u00e3o subsequente, intitulada <em>Beija-se<\/em> (2012), Tales Frey assume sozinho a condi\u00e7\u00e3o de propositor. Al\u00e9m da retomada da vestimenta de noiva, o artista lan\u00e7a m\u00e3o do uso do batom que, na cultura ocidental, age como um demarcador da passagem de menina para mulher, al\u00e9m de acentuar a boca e, consequentemente, a sensualidade e capacidade de dar e receber o prazer t\u00e1til (PITTS-TAYLOR, 2008: 326). O batom apresenta-se como um objeto cosm\u00e9tico que reitera certos construtos de beleza, de sexualidade e de express\u00e3o de g\u00eanero socialmente considerados femininos. Com os l\u00e1bios pintados de batom, Tales Frey beija e deixa a marca de sua a\u00e7\u00e3o sobre a superf\u00edcie transparente da vidra\u00e7a\/vitrine. Atrav\u00e9s da cor avermelhada do batom que se desprende de sua boca colada \u00e0 vidra\u00e7a\/vitrine, Tales Frey convida o p\u00fablico, que est\u00e1 do outro lado da vidra\u00e7a\/vitrine, a ser o participante primordial para a completude de sua a\u00e7\u00e3o. A plateia \u00e9 assumida como o novo par. Ao utilizar o batom para demarcar o formato de sua boca na vidra\u00e7a\/vitrine, o performer convida o observador para encontrar a sua boca do outro lado da superf\u00edcie transparente daquele objeto. Um contato intermediado, em que a vidra\u00e7a\/vitrine\/vidro ressalta a aparente separa\u00e7\u00e3o entre o Outro e o Mesmo. A vidra\u00e7a\/vitrine\/vidro torna-se aparato detonador de uma poss\u00edvel participa\u00e7\u00e3o que ao mesmo tempo parece assinalar certa seguran\u00e7a aos participantes do beijo \u2013 pois entre o toque dos dois l\u00e1bios h\u00e1 a superf\u00edcie envidra\u00e7ada \u2013, mas que suscita quest\u00f5es pertencentes ao outro lado da suposta \u201cseguran\u00e7a\u201d: se n\u00e3o tivesse a superf\u00edcie transparente e envidra\u00e7ada como (aparente) espa\u00e7o delimitador das diferen\u00e7as, haveria o beijo entre os agentes? Sem aquela superf\u00edcie estaria o observador imune \u00e0 textura cremosa do batom, que assinaria o contato de sua boca com a do performer?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A repeti\u00e7\u00e3o do ato de beijar de Tales Frey torna-se uma hist\u00f3ria que permanece presente atrav\u00e9s de cada marca de batom deixada na superf\u00edcie transparente da vidra\u00e7a\/vitrine. Ato de beijar que tamb\u00e9m evidencia a solid\u00e3o do performer em busca do outro, convidando a si mesmo a beijar o estrangeiro, isto \u00e9, aquilo que lhe foge e ao mesmo tempo o constitui.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">As a\u00e7\u00f5es da Cia. Excessos, ao se constitu\u00edrem em torno da a\u00e7\u00e3o do beijo no espa\u00e7o p\u00fablico, parecem assinalar o afeto como possibilidade transformadora, tanto no \u00e2mbito art\u00edstico quanto no social. Alargando a temporalidade do ato de beijar at\u00e9 a exaust\u00e3o, as performances p\u00f5em em xeque os processos de filtragem e repress\u00e3o do \u00e2mbito privado constitutivos do \u201cestar em p\u00fablico\u201d. Se possuir visibilidade no espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 um privil\u00e9gio, logo, ao instaurarem a possibilidade de express\u00e3o de outros afetos e amores atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica de um beijo \u2013 ato \u00edntimo e intermin\u00e1vel, beijo excessivo pela sua perman\u00eancia na temporalidade do cotidiano citadino \u2013, as performances da Cia. Excessos promovem uma transgress\u00e3o que se experiencia n\u00e3o teoricamente, mas como ato f\u00edsico e violador dos construtos profundos do sexo e do g\u00eanero disseminados no e pelo espa\u00e7o heteronormativo <strong>[4]<\/strong>. Atrav\u00e9s dessas a\u00e7\u00f5es, vislumbra-se tamb\u00e9m a retomada da importante e relevante discuss\u00e3o acerca das possibilidades da dimens\u00e3o performativa da arte de gerar e mudar a realidade. Tudo a partir de um beijo na rua, vindo lento e aparentemente sem muito alarde, tal como o beijo na a\u00e7\u00e3o <em>The Other Asphalt Kiss<\/em> (2012), este duplo norte-americano da a\u00e7\u00e3o de 2009 no Porto \u2013 um beijo ao longo do dia, da manh\u00e3 at\u00e9 o in\u00edcio do cair da noite. Um beijo que n\u00e3o quer ficar longe da luz do dia, que recusa ficar restrito ao espa\u00e7o (pass\u00edvel de guetiza\u00e7\u00e3o) da noite. Um beijo que deseja perdurar, afirmando-se \u00e9tica e politicamente no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]<\/strong> <strong>Desenhando com Ter\u00e7os<\/strong> (2000-2003) trata-se de uma performance<em>&#8211;<\/em>instala\u00e7\u00e3o com dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas a seis horas aproximadamente, em que M\u00e1rcia X., vestida de camisola branca, desenha p\u00eanis no ch\u00e3o atrav\u00e9s do uso de ter\u00e7os cat\u00f3licos. Da performance-instala\u00e7\u00e3o, efetuada em julho de 2000 na Casa de Petr\u00f3polis\/RJ (com uso de 600 ter\u00e7os e dura\u00e7\u00e3o de seis horas), resultou o ensaio fotogr\u00e1fico censurado na dita exposi\u00e7\u00e3o coletiva no CCBB em 2006.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[2]<\/strong> Cf. a p\u00e1gina da artista dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"http:\/\/www.marciax.art.br\/mxText.asp?sMenu=3&amp;sText=26\">http:\/\/www.marciax.art.br\/mxText.asp?sMenu=3&amp;sText=26<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[3]<\/strong> Publicada em 1960, a pe\u00e7a teatral <strong>O Beijo no Asfalto \u2013 Trag\u00e9dia Carioca em Tr\u00eas Atos<\/strong> tem como eixo central a personagem Arandir e seu gesto misericordioso de atender ao pedido de um homem moribundo atropelado por um \u00f4nibus, que lhe roga como \u00faltimo desejo um beijo na boca em pra\u00e7a p\u00fablica. Arandir vira alvo de um rep\u00f3rter sensacionalista, que deturpa o acontecimento ao retratar o seu gesto de realiza\u00e7\u00e3o do desejo de um moribundo como a a\u00e7\u00e3o de um criminoso que empurrou o suposto amante para debaixo do \u00f4nibus para depois beij\u00e1-lo. Tal not\u00edcia gera um esc\u00e2ndalo social, modificando a vida de Arandir e de sua fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[4]<\/strong> Devo esta conclus\u00e3o a uma leitura pessoal dos escritos de Michael Warner a respeito da problem\u00e1tica das express\u00f5es afetivas nos \u00e2mbitos p\u00fablico e privado, e da capacidade transgressora deste \u00faltimo na esfera social. Cf. WARNER, 2005, p. 24.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>OBRAS ART\u00cdSTICAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O Beijo<\/strong> _ Ano: 2006. Concep\u00e7\u00e3o: Tales Frey e Cristine \u00c1gape. Performers: Tales Frey e Cristine \u00c1gape. Local: <em>Foyer<\/em> do Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, Brasil. C\u00e2mera: Hugus F\u00e9lix. Dura\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o: 30 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 05min 24seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"http:\/\/vimeo.com\/16889882\">http:\/\/vimeo.com\/16889882<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O Beijo 2<\/strong> _ Ano: 2007. Concep\u00e7\u00e3o: Tales Frey e Cristine \u00c1gape. Performers: Larissa C\u00e2mara e Tales Frey. Local: Rio de Janeiro, Brasil. C\u00e2mera: Leandro Baumgratz. Dura\u00e7\u00e3o da performance: 30 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 04min 21seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/vimeo.com\/16890084\">https:\/\/vimeo.com\/16890084<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O Outro Beijo no Asfalto<\/strong> _ Ano: 2009. Concep\u00e7\u00e3o: Tales Frey. Performers: Berenice Isabel e Paulo Aureliano da Mata. Local: Rua dos Cl\u00e9rigos, Porto, Portugal. C\u00e2mera: Tales Frey. Dura\u00e7\u00e3o da performance: 30 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 06min 59seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/vimeo.com\/39121978\">https:\/\/vimeo.com\/39121978<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Reciprocidade Desalmada<\/strong> _ Ano: 2010. Concep\u00e7\u00e3o: Tales Frey. Performers: Berenice Isabel, Joana Lleys, Lizi Menezes, Paula Guedes e Tales Frey. Local: Rua do Almada, Porto, Portugal. Fotos e v\u00eddeo: L\u00edvia Novaes e Suianni Macedo. Dura\u00e7\u00e3o da performance: 60 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 04min 13seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/vimeo.com\/16935584\">https:\/\/vimeo.com\/16935584<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Beija-se<\/strong> _ Ano: 2012. Concep\u00e7\u00e3o e Performance: Tales Frey. Local: Espa\u00e7o de Interven\u00e7\u00e3o Cultural Maus H\u00e1bitos, Porto, Portugal. C\u00e2mera: Lu\u00eds Filipe Santos e Paulo Aureliano da Mata. Dura\u00e7\u00e3o da performance: 60 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 02min 15seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/vimeo.com\/44426567\">https:\/\/vimeo.com\/44426567<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>The Other Asphalt Kiss<\/strong> _ Ano: 2012. Concep\u00e7\u00e3o: Tales Frey. Performers: Emily Cruz Nowell e Paulo Aureliano da Mata. Local: Chicago, Estados Unidos (Rapid Pulse International Performance Art Festival). C\u00e2mera: Rosa Gaia Saunders e Juliette Dumas. Dura\u00e7\u00e3o da performance: 30 min. Dura\u00e7\u00e3o do registro em v\u00eddeo: 04min 01seg. Dispon\u00edvel em: &lt;<span style=\"text-decoration: underline;\"><a style=\"color: #000000; text-decoration: underline;\" href=\"https:\/\/vimeo.com\/64850533\">https:\/\/vimeo.com\/64850533<\/a><\/span>&gt;. Acessado em: 02 jan. 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><b>BIBLIOGRAFIA<\/b><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">FREY, Tales. <strong>Discursos cr\u00edticos atrav\u00e9s da po\u00e9tica visual de M\u00e1rcia X.<\/strong> Jundia\u00ed: Paco Editorial, 2013.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">HARTMANN, Dorothea von. <strong>How to do things with art<\/strong>. Zurique e Dijon: JRP Ringier:; Les Presses du R\u00e9el, 2010.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">OLIVEIRA, Paola Lins. \u201cDesenhando com ter\u00e7os\u201d no espa\u00e7o p\u00fablico: rela\u00e7\u00f5es entre religi\u00e3o e arte a partir de uma controv\u00e9rsia. <strong>Ciencias Sociales y Religi\u00f3n\/ Ci\u00eancias Sociais e Religi\u00e3o<\/strong><em>, <\/em>Porto Alegre, ano 13, n. 14, set. 2011, pp. 145-75.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">______. Circula\u00e7\u00e3o, usos sociais e sentidos sagrados dos ter\u00e7os cat\u00f3licos. <strong>Religi\u00e3o e Sociedade<\/strong>, Rio de Janeiro, vol. 29, n. 12, 2009, pp. 82-115.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">PERLONGHER, N\u00e9stor. <strong>Lam\u00ea<em>.<\/em><\/strong> Campinas: Editora UNICAMP, 1994.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">PITTS-TAYLOR, Victoria. <strong>Cultural Encyclopedia of the Body<\/strong>. 2 vols. Westport: Greenwood Press, 2008.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">SUTHERLAND, Juan Pablo. <strong>Naci\u00f3n marica: pr\u00e1cticas culturales y cr\u00edtica activista<\/strong>. Chile: Ripio Ediciones, 2009.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; line-height: 1.5;\">WARNER, Michael. <strong>Publics and counterpublics<\/strong>. New York: Zone Books, 2005.<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Este texto de Andr\u00e9 Masseno foi publicado em: Espa\u00e7o MIRA (Porto, Portugal. 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