{"id":719,"date":"2015-09-03T20:54:15","date_gmt":"2015-09-03T23:54:15","guid":{"rendered":"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/?page_id=719"},"modified":"2022-09-18T22:24:52","modified_gmt":"2022-09-19T01:24:52","slug":"entrevista-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/hilda-de-paulo\/citacoes\/entrevista-1\/","title":{"rendered":"&#8221;Entrevista com Paulo Aureliano da Mata&#8221;, por Jos\u00e9 Carlos Henrique"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><span style=\"color: #000000;\">Paulo Aureliano da Mata<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Entrevista a Jos\u00e9 Carlos Henrique, em 05 de setembro de 2015<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1554 size-large\" title=\"Arquivo pessoal de Paulo Aureliano da Mata.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Arquivo-pessoal-de-Paulo-Aureliano-da-Mata-1014x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"646\" srcset=\"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Arquivo-pessoal-de-Paulo-Aureliano-da-Mata-1014x1024.jpg 1014w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Arquivo-pessoal-de-Paulo-Aureliano-da-Mata-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Arquivo-pessoal-de-Paulo-Aureliano-da-Mata-297x300.jpg 297w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Arquivo-pessoal-de-Paulo-Aureliano-da-Mata.jpg 1133w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">Arquivo pessoal de Paulo Aureliano da Mata<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>JOS\u00c9 CARLOS HENRIQUE<\/strong>: Paulo Aureliano, conte-nos um pouco de sua arte e suas influ\u00eancias. O que mais te inspirou a seguir na carreira de artista? O que mais te instiga em sua arte?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>PAULO AURELIANO DA MATA<\/strong>:\u00a0Eu destruo meu passado e em seguida o reconstruo no meu universo po\u00e9tico de cria\u00e7\u00e3o. Todos os meus trabalhos est\u00e3o estritamente relacionados com a minha biografia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Parafraseando Marcel Duchamp\u00a0<strong style=\"color: #000000;\">[1]<\/strong>,\u00a0eu acredito que a literatura tem um papel muito importante no meu modo de fazer arte e de viver.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Me chamo Paulo Jos\u00e9 Almeida Lopes e, em 2006, escolhi o nome art\u00edstico Paulo da Mata a partir de um sonho \u00e9pico, no qual escrevia imagens de um matagal num livro. No ano de 2009, ao terminar de ler o livro <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, resolvi acrescentar Aureliano ao meu nome e, presentemente, lendo o livro <em>A Tristeza dos Anjos<\/em>, de J\u00f3n Kalman Stef\u00e1nsson, assumo um outro nome art\u00edstico, P\u00e1ll J\u00f3nsson, para um trabalho que ando a desenvolver sobre a aus\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No momento, minhas influ\u00eancias ideol\u00f3gicas e pl\u00e1sticas est\u00e3o em torno da arte confessional de Louise Bourgeois, da mitologia n\u00f3rdica, da literatura islandesa, do pensamento de Carolee Schneemann, do \u201cespeda\u00e7amento\u201d autobiogr\u00e1fico de Suzana Queiroga, dos escritos de Simone de Beauvoir e da teoria da <em>body art<\/em> focada na tatuagem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Isso tudo assumidamente come\u00e7ou em 2000, quando eu ainda morava em Inhumas (Goi\u00e1s, Brasil), onde tive uma paixonite na oitava s\u00e9rie pela minha melhor amiga de sala de aula. Ela foi a respons\u00e1vel por me \u201capresentar\u201d para a arte em geral. Com ela senti a necessidade de explorar o mundo culturalmente. Viaj\u00e1vamos sempre para Goi\u00e2nia para irmos a concertos musicais, como ao inesquec\u00edvel <em>Mem\u00f3rias, Cr\u00f4nicas e Declara\u00e7\u00f5es de Amor Tour<\/em>, de Marisa Monte.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Depois disso, nos anos seguintes, como quase nada que me interessava acontecia em Inhumas, comecei a pesquisar nos jornais os eventos culturais que ocorriam em Goi\u00e2nia. Comecei a ir para l\u00e1 assistir a concertos ou a pe\u00e7as de teatro pelo menos duas ou tr\u00eas vezes por m\u00eas, e sempre dormia na rodovi\u00e1ria por n\u00e3o ter \u00f4nibus de volta para Inhumas depois do hor\u00e1rio das apresenta\u00e7\u00f5es que eu assistia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">J\u00e1 em 2005, quando fui visitar minha tia-av\u00f3 e primos em S\u00e3o Paulo com a minha av\u00f3 e uma outra tia-av\u00f3, tive a oportunidade de assistir a dois espet\u00e1culos: no Teatro Augusta, a adapta\u00e7\u00e3o teatral do livro <em>O Terceiro Travesseiro<\/em>, de Nelson Luiz de Carvalho; e, no Teatro Abril, o musical <em>O Fantasma da \u00d3pera<\/em>. A partir dessa viagem e morando em Goi\u00e2nia para concluir o ensino m\u00e9dio decidi, atrav\u00e9s de minhas pesquisas, que queria fazer o bacharelado em Artes C\u00eanicas da Faculdade de Artes do Paran\u00e1 (FAP). Como tinha a prova de aptid\u00e3o, decidi frequentar um curso pr\u00e1tico de teatro em Goi\u00e2nia e estudar por conta pr\u00f3pria a hist\u00f3ria mundial do teatro para a prova te\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">No mesmo ano, um dos livros escolhidos para o vestibular da Universidade Federal de Goi\u00e1s foi <em>Calabar: o Elogio da Trai\u00e7\u00e3o<\/em>, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Como alguns professores do col\u00e9gio sabiam que eu estava me preparando para o vestibular de Artes C\u00eanicas, me convidaram, junto com alguns outros alunos, para formar um grupo de teatro com a inten\u00e7\u00e3o de representar algumas partes do texto. Inocentemente topei, mas sem saber muito onde ir\u00edamos nos apresentar. Ensaiamos por uma semana e ap\u00f3s descobri que seria num evento que reunia todos os col\u00e9gios do Centro-Oeste no Teatro Rio Vermelho. Essa experi\u00eancia, diante de um p\u00fablico de quase duas mil pessoas, foi extremamente importante para eu entender o poder do ator em cena.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Como n\u00e3o passei no vestibular da FAP e na altura estava lendo as cartas trocadas entre Maria Clara Machado e sua fam\u00edlia, publicadas no livro<em> Eu e o Teatro<\/em>, decidi me mudar para o Rio de Janeiro a fim de estudar na escola de teatro O Tablado. Depois me matriculei no curso t\u00e9cnico da Casa das Artes de Laranjeiras, onde conheci a diretora, dramaturga e pesquisadora Celina Sodr\u00e9. Para mim foi muito importante conhec\u00ea-la e depois estudar com ela no Studio Stanislavski. Ao mesmo tempo comecei a trabalhar como modelo e a frequentar in\u00fameros workshops no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo. Achava (e ainda acho) que \u00e9 muito importante frequentar workshops, pois sempre estamos em contato com o universo de trabalho de outros artistas. Tiramos sempre de cada uma dessas experi\u00eancias alguma coisa positiva para n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em dezembro de 2006, conheci meu parceiro de vida e arte, Tales Frey e, em 2007, fui convidado por ele para substituir um ator em sua encena\u00e7\u00e3o <em>Os Sapatinhos Vermelhos<\/em>, que esteve em cartaz em duas temporadas no clube noturno Fosfobox, no Rio de Janeiro. Foi uma experi\u00eancia bastante interessante, mas gostaria muito de compartilhar a viv\u00eancia que tive depois, na 6<u><sup>a<\/sup><\/u> edi\u00e7\u00e3o do Festival de Teatro ENCONTRARTE (Nova Igua\u00e7u, Brasil), com a desmontagem do cen\u00e1rio dessa pe\u00e7a. Um dia depois da apresenta\u00e7\u00e3o, eu e o Tales voltamos ao espa\u00e7o da apresenta\u00e7\u00e3o para desmontarmos todo o cen\u00e1rio para em seguida o transporte ir busc\u00e1-lo. Chegamos mais cedo, conforme o combinado com o transporte, e fizemos toda a desmontagem. Est\u00e1vamos t\u00e3o cansados que dormimos profundamente no meio das cadeiras vazias da plateia do teatro. Quando o transporte chegou, alojamos todo o cen\u00e1rio na carroceria para o levarmos de volta para casa. N\u00e3o havia lugar no transporte para irmos de carona, ent\u00e3o fomos deitados na carroceria junto com todo o cen\u00e1rio, olhando para o lindo c\u00e9u azul. Foi uma sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa, me senti totalmente realizado por estar fazendo o que eu realmente gostava, mesmo estando numa situa\u00e7\u00e3o feita na ra\u00e7a, sem subs\u00eddios. Era estar com o cora\u00e7\u00e3o aberto para meus sonhos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ainda em 2007, frequentei quase todo o primeiro semestre da licenciatura em Dan\u00e7a na maravilhosa Faculdade de Dan\u00e7a Angel Vianna, no Rio de Janeiro. N\u00e3o conclu\u00ed esse primeiro semestre por conta de o Tales ter passado no mestrado em Estudos Art\u00edsticos da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto em Portugal. Com isso, resolvi transferir meu curso para o de Teatro na Escola Superior Art\u00edstica do Porto. Mudei-me para Portugal em outubro de 2007.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2813 size-large\" title=\"Participa\u00e7\u00e3o de Paulo Aureliano da Mata no &quot;Laboratory Karawanasun&quot; de Rena Mirecka no Instytut im.Jerzego Grotowskiego em Brzezinka na Pol\u00f4nia em 2012. Fotografias de Maciej Stawi\u0144ski.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/rena-mirecka-1024x349.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"218\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">Participa\u00e7\u00e3o de Paulo Aureliano da Mata no\u00a0<strong>Laboratory Karawanasun<\/strong>\u00a0de Rena Mirecka\u00a0no Instytut im.Jerzego Grotowskiego em Brzezinka na Pol\u00f4nia\u00a0em 2012. Fotografias de\u00a0Maciej Stawi\u0144ski<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em 2008, ap\u00f3s frequentar o primeiro semestre, decidi interromper a faculdade no Porto para viajar culturalmente\/educativamente por um per\u00edodo. Foram muito interessantes as experi\u00eancias que tive em contato com outras culturas. De todas essas andan\u00e7as, destaco at\u00e9 hoje tr\u00eas importantes momentos transcendentais para mim: 1) ver a obra <em>El 3 de mayo en Madrid<\/em>, de Francisco de Goya, no Museu do Prado; 2) dentre os in\u00fameros cursos que frequentei no Instituto Grotowski na Pol\u00f4nia, em especial o Laboratory Karawanasun, de Rena Mirecka; 3) a viv\u00eancia que tive na minha autorresid\u00eancia art\u00edstica independente na Turquia, em particular nos vales ao redor da cidade de G\u00f6reme, que me conduziu \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do inacabado filme <em>Elma \u00e7ay\u0131 que Marca Meu Destino<\/em> (2013-).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ainda em 2008, eu e o Tales fundamos a Cia. Excessos. Inicialmente convidamos v\u00e1rios artistas, por\u00e9m, no final, percebemos que os componentes deveriam ser apenas ele e eu por somente n\u00f3s estarmos trabalhando, fazendo algo pela nossa cria\u00e7\u00e3o. Assim, a Cia. Excessos tornou-se uma \u201cpr\u00e9-Alian\u00e7a\u201d de nossa vida, onde passamos a reunir todos os nossos trabalhos art\u00edsticos numa plataforma virtual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Aqui \u00e9 onde come\u00e7o a pesquisar e trabalhar com performance. Desse per\u00edodo cito a minha participa\u00e7\u00e3o na performance <em>O Outro Beijo no Asfalto<\/em>, do Tales. A primeira vers\u00e3o dessa performance dele ocorreu na rua dos Cl\u00e9rigos, na cidade do Porto, em janeiro de 2009. Tal a\u00e7\u00e3o consistia em um beijo de trinta minutos em que os participantes vestiam trajes invertidos, sendo eu com vestido de casamento tido por feminino, e a performer Berenice Isabel de traje considerado masculino. Ao iniciar o beijo, escutei algumas vozes gritando: \u201cvamos jogar pedra\u201d ou \u201cisso \u00e9 pro Carnaval\u201d. Sempre h\u00e1 tens\u00e3o quando se est\u00e1 performando, pois tudo pode acontecer vindo do p\u00fablico. Com essa mesma performance, em agosto de 2011, na pra\u00e7a Plattan de Estocolmo, ouvimos agressivamente: \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 arte! V\u00e3o arrumar um motel para voc\u00eas se foderem\u201d. Al\u00e9m disso, levamos um tapa que quase ca\u00edmos e, no final, recebemos um convite dos m\u00f3rmons para participarmos do movimento religioso dos Santos dos \u00daltimos Dias. \u00c9 interessante notar, em cada vers\u00e3o realizada dessa performance, como um beijo heterossexual concebido sob uma l\u00f3gica que se op\u00f5e \u00e0 heteronormatividade mundana causa tanto inc\u00f4modo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Candidatei-me \u00e0 licenciatura em Hist\u00f3ria da Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2009. Foi extremamente importante para minha forma\u00e7\u00e3o de artista o contato acad\u00eamico desse universo, pois me deu um rico embasamento te\u00f3rico. Sempre encarei que devemos cursar a faculdade e ao mesmo tempo ir construindo coisas por fora dela, para no final n\u00e3o termos somente o diploma do curso e nada mais. Por exemplo, depois de ter feito um trabalho acad\u00eamico sobre a indument\u00e1ria \u00edcone do Rei Lu\u00eds XIV no <em>Ballet de la Nuit<\/em>, que fiz para a disciplina de barroco, convidei minha amiga, que \u00e9 historiadora da arte, Suianni Cordeiro Macedo, para organizarmos e traduzirmos do franc\u00eas a biografia de Henri de Gissey escrita por Anatole de Montaiglon. O processo durou pouco mais de um ano e foi muit\u00edssimo interessante vivenciar o surgimento de um livro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">O universo da escrita foi mais densamente vivenciado atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o da <em>eRevista Performatus<\/em> juntamente com o Tales, em 2012. Resolvemos criar uma revista eletr\u00f4nica dedicada diretamente ao universo da performance, j\u00e1 que muitos dos nossos escritos sobre o assunto eram negados pelas revistas tradicionais de teatro e\/ou dan\u00e7a. Nota-se que, em 2012, n\u00e3o havia nenhuma revista em l\u00edngua portuguesa sobre esse g\u00eanero com periodicidade regular. O nosso foco \u00e9 publicarmos em l\u00edngua portuguesa, divulgarmos conhecimento para esse territ\u00f3rio falante, e n\u00e3o nos voltarmos para a internacionaliza\u00e7\u00e3o da nossa eRevista. Assim, somos as regras e n\u00e3o seguimos regra alguma em nosso programa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Al\u00e9m de ser o editor da <em>eRevista Performatus<\/em>, foi muito importante, como artista, entrevistar minha amiga e artista carioca Suzana Queiroga (ver: MATA, Paulo Aureliano da. \u201c\u2018Voc\u00ea Tem o Pincel, Tem Suas Tintas, Pinte o Para\u00edso e Depois Entre Nele\u2019: Uma Entrevista Perform\u00e1tica com Suzana Queiroga\u201d. <em>eRevista Performatus<\/em>, Inhumas, ano 1, n. 6, set. 2013.) sobre seu universo po\u00e9tico. A viv\u00eancia de mais de um ano que tivemos foi o fruto daquela entrevista. Na altura, a Suzana estava no processo de finalizar os preparativos para a exposi\u00e7\u00e3o <em>Olhos d\u2019\u00c1gua<\/em> no MAC-Niter\u00f3i. Ent\u00e3o, acompanhar todo esse universo foi muito gratificante como artista e humano.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A constru\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o de obra de arte, que eu e o Tales possu\u00edmos e que faz parte do acervo da <em>eRevista Performatus<\/em>, tamb\u00e9m me ensinou muit\u00edssimo sobre o cruel mecanismo do mercado da arte, onde muitos artistas se perdem como criadores e passam a ser vagos produtos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Narro todo esse percurso porque acredito estar trabalhando em diversas \u00e1reas da arte e \u00e9 claro que isso reflete na minha cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Acredito muito na imagem de uma bagagem em que colocamos todo nosso conhecimento adquirido nela e sempre que precisamos regressamos a ela para acessar o conte\u00fado para a nossa cria\u00e7\u00e3o. E o que mais me instiga como artista \u00e9 a possibilidade de sempre poder conhecer mais e mais e poder colocar todo esse conte\u00fado na minha bagagem cultural. Finalizo essa quest\u00e3o com a afirma\u00e7\u00e3o do s\u00e1bio catal\u00e3o no livro <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>: \u201cO mundo estar\u00e1 fodido de vez no dia em que os homens viajarem em primeira classe e a literatura no vag\u00e3o de carga\u201d (Lisboa: Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote, 2009, p. 405).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>JOS\u00c9 CARLOS HENRIQUE<\/strong>: O g\u00eanero <em>body art<\/em> (ou simplesmente arte do corpo) foi uma op\u00e7\u00e3o ou uma necessidade? Como voc\u00ea v\u00ea sua rela\u00e7\u00e3o com essa manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica hoje?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>PAULO AURELIANO DA MATA<\/strong>:\u00a0\u201cPara M. B. C., que me iludiu e me deixou forte o bastante, fazendo com que eu ganhasse uma porra de uma cicatriz na minha cintura\u201d, fragmento pertencente \u00e0 dedicat\u00f3ria do texto-conceito do meu primeiro trabalho de <em>body art<\/em>, <em>Romance Violentado<\/em> (2011).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><em>And I know it&#8217;s true that visions are seldom all they seem<\/em> [Ainda sim eu sei que \u00e9 verdade que vis\u00f5es raramente s\u00e3o o que parecem]: O dia em que eu tatuei o nome do M. na minha cintura foi o dia em que descobri, via Messenger, pela amiga dele, que ele fazia anivers\u00e1rio de um ano de namoro com um outro garoto. A promessa de amor entre M. e eu, que consistia em eu tatuar o nome dele no meu corpo e vice-versa foi quebrada, e a minha rea\u00e7\u00e3o foi arrancar uma parte da tatuagem ainda fresca com uma caneta bic, e, imediatamente, remover o restante atrav\u00e9s de uma cirurgia local com um dermatologista. A cicatriz linear e fina de quatro cent\u00edmetros foi tampada anos mais tarde por uma tatuagem de borboleta \u2013 desenho esse que foi retirado de uma das obras de Genaro de Carvalho. \u201cA borboleta, s\u00edmbolo da transforma\u00e7\u00e3o, \u00e9 frequente em Genaro de Carvalho, representando possivelmente a sua constante busca por inova\u00e7\u00f5es\u201d (ver em: SILVA, Simone Trindade Vicente da. \u201cGenaro de Carvalho: O Artista Tapeceiro\u201d. In: <em>Revista de Arte Ohun<\/em>. Salvador, ano 1, n. 1, s\/d).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-2899 size-large\" title=\"Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagram de Paulo Aureliano da Mata\/ 01 de dezembro de 2012.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/tatuagem-genaro-de-carvalho-1024x1021.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/tatuagem-genaro-de-carvalho-1024x1021.jpg 1024w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/tatuagem-genaro-de-carvalho-150x150.jpg 150w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/tatuagem-genaro-de-carvalho-300x300.jpg 300w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/tatuagem-genaro-de-carvalho.jpg 1095w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\">Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagram de Paulo Aureliano da Mata\/ 01 de dezembro de 2012<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">A <em>body art<\/em> tornou-se ent\u00e3o uma necessidade para a reconstru\u00e7\u00e3o desse meu passado com base nessa minha tr\u00e1gica hist\u00f3ria de amor findada em uma tatuagem. Ao tatuar \u201cRomance Violentado\u201d no bra\u00e7o direito, procuro n\u00e3o s\u00f3 atrelar a delibera\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e0s lembran\u00e7as pessoais do passado, mas, a partir dessa constru\u00e7\u00e3o, universaliz\u00e1-las em perspectivas futuras ao refletir as utopias pol\u00edticas abafadas, suprimidas e muitas vezes trucidadas ao longo da atormentada hist\u00f3ria da qual o corpo \u00e9 inquestionavelmente parte integrante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Como \u201cuma cr\u00edtica, pelo corpo, das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia\u201d (LE BRETON, David. <em>Adeus ao Corpo: Antropologia e Sociedade<\/em>. Campinas: Editora Papirus, 2007, p. 44.), na minha rela\u00e7\u00e3o com a <em>body art<\/em>, tanto nesse trabalho como em outros dentro desse g\u00eanero art\u00edstico, busco, para quem os observa, n\u00e3o s\u00f3 uma subjetividade isolada e insignificante, mas uma alegoria de uma hist\u00f3ria, um olhar cr\u00edtico voltado para um passado disposto a anunciar, em um presente momento, o que almeja para um futuro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Concluo assim que a <em>body art<\/em> me serve \u201cpara transmutar a dan\u00e7a do meu ser interior em uma poesia de imagens\u201d (ANGER, Kenneth. \u201cA Mod\u00e9stia e a Arte do Filme\u201d. In: CENTRO CULTURAL DO BANCO DO BRASIL. Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo. <em>Kenneth Anger: O Fetichista Pop<\/em>: Cat\u00e1logo. Rio de Janeiro: 2015, p. 11). Mas fazer perdurar uma a\u00e7\u00e3o ocorrida de forma ef\u00eamera num passado fugaz e tra\u00e7ar a tentativa de eterniz\u00e1-la apenas sob os tra\u00e7os da tinta sobre e sob a pele n\u00e3o \u00e9 o suficiente, pois a mat\u00e9ria corp\u00f3rea \u00e9 inst\u00e1vel: ela se modifica a cada instante, envelhece, decomp\u00f5e-se e morre. Por isso, quando \u00e9 incidida unicamente sobre o corpo e sem o recurso do interm\u00e9dio, a obra se extingue; o documento \u00e9, dessa forma, uma alternativa tanto para atualizar o instante de outrora como para intermediar todo o teor conceitual gravado sobre um corpo inst\u00e1vel e que est\u00e1 fisicamente presente em lugares diversos, n\u00e3o permanecendo est\u00e1tico como um objeto em uma exposi\u00e7\u00e3o convencional de arte que pode exibir um recorte pertencente ao passado desse corpo sob forma de impress\u00e3o a cores e de forma bidimensional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>JOS\u00c9 CARLOS HENRIQUE<\/strong>: Seu pr\u00f3prio casamento se tornou uma performance intitulada <em>Alian\u00e7a<\/em>. Como foi essa experi\u00eancia? Conte-nos. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>PAULO AURELIANO DA MATA<\/strong>:\u00a0Se a Cia. Excessos se tornou uma \u201cpr\u00e9-Alian\u00e7a\u201d da minha parceria de vida e de trabalho com o Tales, por que n\u00e3o tornar realidade a \u201cAlian\u00e7a\u201d? Para isso decidimos n\u00e3o apenas casar, mas criar um rito de passagem em que o nosso casamento fosse o mote principal. Casamos no dia 15 de mar\u00e7o de 2013 no cart\u00f3rio do registro civil da cidade natal do Tales, em Catanduva. Apesar de a regulamenta\u00e7\u00e3o do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no estado de S\u00e3o Paulo entrar em vigor a partir de dezembro de 2012, foi somente em maio de 2013 que o Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o que obrigava todos os cart\u00f3rios do Brasil a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Ent\u00e3o, na altura em que decidimos nos casar, apenas alguns cart\u00f3rios realizavam o casamento e, mesmo depois dessa imposi\u00e7\u00e3o a todos os cart\u00f3rios do pa\u00eds pelo CNJ, muitos ju\u00edzes de alguns estados agiam por vontade pr\u00f3pria e n\u00e3o permitiam o casamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Como parte da exposi\u00e7\u00e3o <em>Beija-me<\/em>, realizada entre os dias 5 e 13 de mar\u00e7o de 2013 na Esta\u00e7\u00e3o Cultura em Catanduva, e completa pela s\u00e9rie de beijos do Tales, anunciamos que no \u00faltimo dia executar\u00edamos o come\u00e7o do rito de passagem intitulado \u201cAlian\u00e7a\u201d. Havia um anexo dispon\u00edvel para acontecer tal performance no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o e, em seu centro, existiam nossas silhuetas se beijando preenchidas por flores t\u00edpicas de vel\u00f3rio \u2013 cris\u00e2ntemos. O ambiente, apesar de ser lindo, tal como num casamento, era tamb\u00e9m m\u00f3rbido, mas havia um certo tipo de humor. Convidamos, em nosso an\u00fancio, o p\u00fablico para levar flores como se fosse para um funeral, pois, aqui, \u00e9 importante observar que a condi\u00e7\u00e3o de solteiro de cada um estava morrendo e est\u00e1vamos entrando na condi\u00e7\u00e3o de casados. Mesmo que nos divorciemos ou nos separemos judicialmente, nunca mais seremos solteiros. Ent\u00e3o, tinha essa condi\u00e7\u00e3o em nosso rito de passagem, que pressupunha um poder de transforma\u00e7\u00e3o eficaz. Era uma transforma\u00e7\u00e3o definitiva, sem volta.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Quando chegamos na exposi\u00e7\u00e3o, para realizar a performance, Tales e eu est\u00e1vamos vestidos igualmente com camiseta preta mesclada com estampa floral concebida pelo nosso querido estilista Mario Francisco, da Der Metropol. Ao entrar no recinto, sem conv\u00edvio social da nossa parte, cada um come\u00e7ava a beijar a parede de um lado da entrada da sala \u2013 eu comecei pelo lado esquerdo e o Tales pelo lado direito. Meus beijos foram fren\u00e9ticos, j\u00e1 os do Tales foram delicados. Para descrever a a\u00e7\u00e3o, imagine que estou de frente para a parede. Ent\u00e3o o primeiro beijo se d\u00e1 na minha altura, e assim vou beijando at\u00e9 chegar ao rodap\u00e9 da parede. Existe uma racionalidade na constru\u00e7\u00e3o dessa sequ\u00eancia de colunas de beijo. Tal racionalidade manifestava a nossa vida, o nosso cotidiano e, quando nos encontr\u00e1vamos no espa\u00e7o da performance, a coluna deixava de existir e surgia um caos de beijos na parede, que era a energia da rela\u00e7\u00e3o. Finalmente, a a\u00e7\u00e3o terminava com um beijo entre Tales e eu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Ao mesmo tempo, um v\u00eddeo com todas as nossas marcas corporais, desde cicatrizes a tatuagens, era exibido no espa\u00e7o da performance. O Tales fotografou todas as marcas corporais do meu corpo e eu as do corpo dele. Assim, se as marcas possuem hist\u00f3rias, quando o v\u00eddeo foi editado para ficar super acelerado a inten\u00e7\u00e3o foi de fundi-las para n\u00e3o ser poss\u00edvel detectar qual era a marca de quem. O mesmo se passou com a silhueta de flores. As pessoas, no tr\u00e2nsito da performance, iam desconstruindo, desfazendo o beijo da silhueta. Na medida em que as pessoas chegavam com flores, al\u00e9m de o evento ganhar uma outra imagem com esses novos elementos, pouco a pouco sumia a imagem do beijo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Outro detalhe importante \u00e9 que o batom utilizado no in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o era de colora\u00e7\u00e3o roxa, mas, com o processo de secagem na parede depois do beijo, ele vai ficando negro. No \u00faltimo ponto da performance, no caos de beijos, troc\u00e1vamos os batons roxos por outros de colora\u00e7\u00e3o de um vermelho bem intenso. Ent\u00e3o, esses beijos ca\u00f3ticos que se formavam eram vermelhos e os anteriores eram todos negros. Novamente vemos aqui aquela ideia que traz a condi\u00e7\u00e3o de solteiro em processo de morte, de muta\u00e7\u00e3o para uma outra condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Apesar de tudo, era uma festa de casamento que at\u00e9 tinha duas \u201cnoivetes\u201d (gar\u00e7ons <em>crossdressers<\/em>). Os dois estavam travestidos com vestido tipo de casamento, e serviam doces \u2013 beijinhos, por conta do contexto da exposi\u00e7\u00e3o, e bem-casados, por ser doce t\u00edpico de casamento \u2013, al\u00e9m de limonada do deserto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Enfim, ap\u00f3s a performance, que durou mais ou menos duas horas, o elemento que apresentava a transitoriedade entre a data da performance e a data da assinatura do contrato de casamento no cart\u00f3rio \u00e9 a marca do batom. Detalhe, todos os batons utilizados na performance tinham dura\u00e7\u00e3o de 24 horas. Al\u00e9m de estarmos ent\u00e3o com o borr\u00e3o na cara por termos beijado muito a parede, t\u00ednhamos tamb\u00e9m nossos narizes esfolados.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>JOS\u00c9 CARLOS HENRIQUE<\/strong>: O seu trabalho <em>Eu Gisberta<\/em> foi um dos selecionados pela diretora Bia Lessa para a exposi\u00e7\u00e3o \u201cMaria de Todos N\u00f3s\u201d, em homenagem aos 50 anos de carreira da cantora Maria Beth\u00e2nia, que acontece no Pa\u00e7o Imperial no Rio de Janeiro e que vai at\u00e9 o dia 13 de setembro de 2015. O que o inspirou a retratar Gisberta e sua hist\u00f3ria? A m\u00fasica <em>Balada de Gisberta<\/em>, de Pedro Abrunhosa, interpretada por Maria Beth\u00e2nia, foi uma boa fonte de inspira\u00e7\u00e3o? Qual a import\u00e2ncia desse trabalho em particular em sua carreira?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>PAULO AURELIANO DA MATA<\/strong>:\u00a0Fato: \u201c\u00c9s bandido?\u201d, foi o que ouvi de um transeunte na rua no dia 30 de maio de 2015 antes de chegar ao Espa\u00e7o MIRA (Porto, Portugal) para uma conversa programada entre Tales e eu, na qual o mediador Silvestre Pestana incluiu o curador Jos\u00e9 Maia e o p\u00fablico geral para debatermos o conte\u00fado da nossa exposi\u00e7\u00e3o <em>(Tra)Vestir um Fa(c)to<\/em>, ocorrida entre maio e junho deste mesmo ano. Quase no final desse encontro, a artista portuguesa Celeste Cerqueira disse: \u201c\u00e9 um nome que transporta tanta coisa com ele. Transporta emigra\u00e7\u00e3o. Transporta o colonialismo. Transporta a degrada\u00e7\u00e3o. Transporta o isolamento. Transporta em si a nega\u00e7\u00e3o. Porque foi um processo \u2013 pelo que foi dado a conhecer \u2013 de decad\u00eancia. Tal decad\u00eancia foi por causa do corpo e dos bons costumes pelos quais dizemos ser todos tolerantes. E, de repente, \u00e9 dada uma not\u00edcia com a qual n\u00e3o sabemos lidar. Porque descobrimos que somos intolerantes. Uma corre\u00e7\u00e3o: ficamos todos contentes que tenham sido crian\u00e7as, n\u00e3o fomos n\u00f3s [adultos], foram crian\u00e7as, que n\u00e3o foram conscientes de um ato t\u00e3o agressivo. \u00c9 um espelho de n\u00f3s mesmos que nos recusamos a ver e, por isso, continuamos a colocar uma cortina nesse espelho, negamos nosso reflexo. E, de repente, existe algu\u00e9m que coloca em si pr\u00f3prio o nome de uma pessoa na face \u2013 que n\u00e3o \u00e9 um nome pessoal, como o da m\u00e3e. O problema \u00e9 o da tal nomea\u00e7\u00e3o, nome que \u00e9 muito maior que o nome. E acho uma atitude verdadeiramente impressionante ter esse nome na face, acho que \u00e9 um ato de tal modo corajoso, que a performance, para mim, \u00e9 o auge do que tu fizeste e o que incomoda \u00e9 o tempo que ela permanece em ti\u201d [transcri\u00e7\u00e3o direta].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fato: Dentre os in\u00fameros artigos da \u00e9poca, havia um com o t\u00edtulo \u201cHoje o Pa\u00eds \u2018V\u00ea-se ao Espelho\u2019\u201d (<em>Jornal P\u00fablico<\/em>, 25 de fevereiro de 2006). Sabemos que a vida reconhec\u00edvel de Gisberta foi somente a tatuada pelo tempo em que viveu na cidade do Porto, primeiro como estrela em cabar\u00e9s e boates gays, imitando a cantora Daniela Mercury, depois como um fantasma demasiado presente por conta de uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia e transfobia. Sabemos tamb\u00e9m que Gisberta nasceu em 5 de setembro de 1960, em S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fato: Um terr\u00edvel assassinato configurado como crime de \u00f3dio; uma terr\u00edvel omiss\u00e3o da componente sexual e transf\u00f3bica; uma terr\u00edvel tentativa midi\u00e1tica e pol\u00edtica de desculpabiliza\u00e7\u00e3o do crime em si; uma terr\u00edvel tentativa da Igreja Cat\u00f3lica em associar o caso \u00e0 pedofilia; uma terr\u00edvel omiss\u00e3o da componente \u201c\u00f3dio\u201d na morte de uma pessoa que acumulava tantas exclus\u00f5es sociais; uma terr\u00edvel tentativa de culpabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima e de \u201cabafamento\u201d p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Fato: Jo\u00e3o Paulo, do Portal GLBT de Portugal (PortugalGay.pt), afirmou, em entrevista ao <em>Jornal Nacional TVI<\/em>, no dia 23 de fevereiro de 2008: \u201cas transexuais que trabalham na rua n\u00e3o deixaram de ser agredidas com sacos de \u00f3leo queimado, com extintores de p\u00f3 qu\u00edmicos [\u2026]. E at\u00e9 aparecer mais uma v\u00edtima fatal, vamos continuar a ignorar as Gisbertas que andam por a\u00ed\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Todos esses fatos, entre in\u00fameros outros que poderia mencionar, fazem parte do universo da s\u00e9rie <em>Eu Gisberta<\/em>. O que est\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o da Beth\u00e2nia \u00e9 somente o ponto de partida. \u00c9 como um t\u00edtulo e um manifesto que d\u00e1 in\u00edcio ao projeto do filme <em>Eu Gisberta<\/em> que estou come\u00e7ando a criar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Eu e a Gisberta temos aparentemente algumas coisas em comum. Por exemplo, quando eu era crian\u00e7a, uma das coisas que adorava fazer era dublar as m\u00fasicas da Daniela Mercury no \u00faltimo volume na casa da minha av\u00f3 materna. Transformava sempre o sof\u00e1 da sala da casa dela numa esp\u00e9cie de palco, onde eu podia cantar e dan\u00e7ar todo aquele batuque. Era uma liberdade total do meu corpo nas vibra\u00e7\u00f5es daquelas m\u00fasicas. Era suor, rouquid\u00e3o e felicidade. Acho que isso \u00e9 total \u201cfazer a Gisberta\u201d que proponho no texto da obra inicial da s\u00e9rie.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Muitas vezes, achamos que somos livres para fazermos o que quisermos com nossos corpos, mas nem sempre \u00e9 assim. A liberdade dos nossos corpos custa caro a cada um de n\u00f3s. Minhas pernas, por exemplo, j\u00e1 foram censuradas num col\u00e9gio por uma diretora que me proibiu de frequentar as aulas com cal\u00e7\u00f5es, onde todos podiam, menos eu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Retratar a Gisberta no meu trabalho n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 querer resgatar o tr\u00e1gico assassinato e os p\u00e9ssimos desdobramentos do caso, mas procurar dar voz \u00e0 invisibilidade dos sentimentos de Gisberta. Quero com isso criar uma hist\u00f3ria de amor, de viv\u00eancia de Gisberta no mundo. Para isso, quero mesclar acontecimentos pessoais meus com o que sei da hist\u00f3ria real da Gisberta. Por isso, a s\u00e9rie se chama <em>Eu Gisberta<\/em>. Alberto Pimenta, em <em>Indulg\u00eancia Plen\u00e1ria<\/em>, escreve sobre Gisberta: \u201cE as tuas unhas \/ e a tua l\u00edngua \/ iam passando \/ iam-se fixando \/ arranhando \/ camada sobre camada \/ a cama doutros corpos \/ Aliados e concorrentes \/ reconhecidos velhos \/ e conhecidos novos \/ E \/ sendo tamb\u00e9m arranhada por eles \/ e gostando mais de o ser no corpo \/ que no Esp\u00edrito \/ que conservaste intacto e sem mal\u00edcia \/ Inating\u00edvel \/ a tudo e a todos\u201d (Lisboa: editora &amp;etc, 2007, p. 13-14). Isso \u00e9 o que procuro retratar: uma poss\u00edvel Gisberta que vive, que sente, que possui afetos e \u00e9 humana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 claro que tudo isso come\u00e7ou quando algu\u00e9m do meu mestrado me contou muito por cima da triste hist\u00f3ria \u201cdo travesti do Campo 24 de Agosto\u201d. Ent\u00e3o fui pesquisar essa hist\u00f3ria. J\u00e1 conhecia a vers\u00e3o da m\u00fasica Balada de Gisberta interpretada por Maria Beth\u00e2nia, mas nunca tinha pensado no que estava por detr\u00e1s dessa m\u00fasica. Ent\u00e3o, depois de ler algumas coisas a respeito da morte da transexual do Campo 24 de Agosto, resolvi escutar a m\u00fasica novamente, mas prestando total aten\u00e7\u00e3o \u00e0 letra. L\u00e1grimas e l\u00e1grimas e mais l\u00e1grimas ao imagin\u00e1-la viva e sozinha com toda aquela dor dentro da escurid\u00e3o do po\u00e7o em que foi arremessada. Outra m\u00fasica do Pedro Abrunhosa interpretada por Maria Beth\u00e2nia que me inspirou tamb\u00e9m \u00e9 Quem Me Leva os Meus Fantasmas. \u201cDe que serve ter o mapa se o fim est\u00e1 tra\u00e7ado \/ De que serve a terra \u00e0 vista se o barco est\u00e1 parado \/ De que serve ter a chave se a porta est\u00e1 aberta \/ Pra que servem as palavras se a casa est\u00e1 deserta\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-740 size-full\" title=\"&quot;Eu Gisberta&quot;, de Paulo Aureliano da Mata na exposi\u00e7\u00e3o coletiva &quot;M\u00faltiplas Perspectivas e n\u00e3o menos Contradi\u00e7\u00f5es e Sonhos&quot;, com curadoria de Jos\u00e9 Maia. &quot;I Bienal da Maia: Lugares de Viagem&quot;, 2015. Maia, Portugal. Fotografia de Tales Frey.\" src=\"http:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/eu-gisberta-paulo-aureliano-da-mata-bienal-maia.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"655\" srcset=\"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/eu-gisberta-paulo-aureliano-da-mata-bienal-maia.jpg 960w, https:\/\/ciaexcessos.com.br\/ciawp\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/eu-gisberta-paulo-aureliano-da-mata-bienal-maia-300x205.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Eu Gisberta<\/strong>, de Paulo Aureliano da Mata na exposi\u00e7\u00e3o coletiva <em>M\u00faltiplas Perspectivas e n\u00e3o menos Contradi\u00e7\u00f5es e Sonhos<\/em>, com curadoria de Jos\u00e9 Maia. <em>I Bienal da Maia: Lugares de Viagem<\/em>, 2015. Maia, Portugal. Fotografia de Tales Frey<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Escrevi no meu di\u00e1rio: \u201cestou preparando uma fonte para tatuar o nome \u2018Gisberta\u2019. Fico pensando: \u2018tatuei o nome de um idiota na adolesc\u00eancia que n\u00e3o mereceu\u2019. Tatuar seu nome \u00e9 como criar um pacto de amor, uma foda perfeita. Essa tatuagem evocar\u00e1 a visibilidade de sua invisibilidade\u201d. Ent\u00e3o, resolvi tatuar o nome \u201cGisberta\u201d no rosto. Como vemos no registro fotogr\u00e1fico que est\u00e1 na exposi\u00e7\u00e3o, meu olho direito fechado \u00e9 como se fosse um t\u00famulo e o nome dela fosse a l\u00e1pide desse t\u00famulo. Assim, \u201cos estados de esp\u00edrito, as lembran\u00e7as, os pensamentos, os objetivos, os afetos e os desafetos sempre est\u00e3o imbu\u00eddos e sempre se imbuem nas marcas corporais. O corpo aqui \u00e9 o recept\u00e1culo e o propagador do que se passa na alma e na mente\u201d (PIRES, Beatriz Ferreira. <em>O Corpo como Suporte da Arte: Piercing, Implante, Escarifica\u00e7\u00e3o, Tatuagem<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Senac S\u00e3o Paulo, 2005, p. 25-26). J\u00e1 o texto-manifesto, que faz parte tamb\u00e9m da obra na exposi\u00e7\u00e3o, contextualiza a hist\u00f3ria de Gisberta e o caso de intoler\u00e2ncia que vivi no primeiro ano do ensino m\u00e9dio em Goi\u00e1s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Em 2001, ainda morando na cidade de Inhumas, fui humilhado pela diretora do col\u00e9gio que eu frequentava na frente de trinta e quatro alunos e um professor durante uma hora. AQUI DENTRO DO MEU COL\u00c9GIO \u00c9 PROIBIDO USAR CALCINHA COR DE ROSA. L\u00c1 FORA, VOC\u00ca PODE USAR \u00c0 VONTADE e NA SUA FICHA DE MATR\u00cdCULA EST\u00c1 ESCRITO SEXO MASCULINO E N\u00c3O PONTOS DE INTERROGA\u00c7\u00c3O, EXER\u00c7A SUA FUN\u00c7\u00c3O, foi o que ela afirmou, entre outras coisas semelhantes. Eu termino essa hist\u00f3ria no texto-manifesto da seguinte forma: \u201cEla saiu. Eu levantei, pedi o celular emprestado para a loira e fui ligar para minha m\u00e3e, mas n\u00e3o consegui. Liguei para minha av\u00f3 e n\u00e3o sei exatamente o que eu disse, mas foi algo do tipo: \u2018Me tira daqui, n\u00e3o estou bem, n\u00e3o entendo o que est\u00e1 acontecendo\u2019. Estava em choque, sem entender nada. Tentei correr dali, ir para casa, mas o ex\u00e9rcito da diretora-vers\u00e3o-feminina-de-Hitler trancou o \u00fanico port\u00e3o daquela pris\u00e3o. Gritei tanto tentando fugir, mas as vozes do corredor aplaudiam o meu desespero\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 muito importante destacar tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o da obra <em>Eu Gisberta<\/em> na exposi\u00e7\u00e3o coletiva <em>M\u00faltiplas Perspectivas e N\u00e3o Menos Contradi\u00e7\u00f5es e Sonhos<\/em> do Momento II da I Bienal da Maia: <em>Lugares de Viagem<\/em> (Maia, Portugal). Agrade\u00e7o imensamente ao curador Jos\u00e9 Maia pelo convite! Para mim, \u00e9 muito significativo expor essa obra no norte de Portugal por conta de a hist\u00f3ria da Gisberta ter se passado justamente aqui.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>JOS\u00c9 CARLOS HENRIQUE<\/strong>: O texto que acompanha a obra <em>Eu Gisberta<\/em> \u00e9 muito forte e tem um relato muito pessoal de uma experi\u00eancia pr\u00f3pria relacionada ao preconceito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade em sua juventude. Como voc\u00ea enfrenta estas quest\u00f5es hoje? A arte lhe inspira a melhor superar eventuais atos preconceituosos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pessoa?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>PAULO AURELIANO DA MATA<\/strong>:\u00a0A primeira lembran\u00e7a que me veio \u00e0 tona, atrav\u00e9s dessa sua pergunta, foi o tr\u00e1gico assassinato de cunho homof\u00f3bico de Jo\u00e3o Ant\u00f4nio Donati, conhecido carinhosamente como Jo\u00e3ozinho, em Inhumas. Apesar de o delegado respons\u00e1vel pela investiga\u00e7\u00e3o ter descartado que o criminoso n\u00e3o tenha agido por homofobia e que n\u00e3o \u00e9 homossexual, mesmo tendo tido algumas vezes rela\u00e7\u00f5es com homens, esse caso me deixou estarrecido. Conheci o Jo\u00e3ozinho na minha pr\u00e9-adolesc\u00eancia. Ele ainda era crian\u00e7a, morava na mesma rua que a minha av\u00f3 materna e por vezes brincava com o meu primo. Apesar de eu ter me mudado de cidade e ele tamb\u00e9m, conversamos rar\u00edssimas vezes pela rede social ou pessoalmente quando eu e ele est\u00e1vamos em Inhumas. Fiquei sabendo da sua morte ao ver a fotografia de seu corpo nas minhas atualiza\u00e7\u00f5es do Facebook. Em choque, liguei para minha m\u00e3e para constatar se aquela not\u00edcia realmente era verdadeira. Sim, era verdadeira. Dor e lamento em v\u00e1rias camadas ao imaginar o sofrimento dele, da m\u00e3e dele, minha m\u00e3e no lugar da m\u00e3e dele e, por fim, eu sendo ele.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Apesar de ter superado, ter vivido grande parte da minha juventude em Inhumas foi muito cruel. Al\u00e9m da hist\u00f3ria narrada no texto-manifesto da obra <em>Eu Gisberta<\/em> e da censura de frequentar as aulas com cal\u00e7\u00f5es, nesse mesmo col\u00e9gio passei por in\u00fameros constrangimentos, como o roubo do meu di\u00e1rio e a hist\u00f3ria da pilha. Ao voltar do recreio, j\u00e1 na sala de aula, algumas meninas e alguns meninos euforicamente gritavam, de um lado para ou outro, alguns nomes de meninas e de meninos que eu havia beijado at\u00e9 ent\u00e3o. Conclui, nesse ato, que haviam lido, em minha aus\u00eancia e sem o meu consentimento, o di\u00e1rio que estava dentro da minha mochila. Fiquei t\u00e3o chateado, mas a minha sorte \u00e9 que a minha prima, que tamb\u00e9m era a minha professora de gram\u00e1tica, entrou na sala de aula, viu o que estava acontecendo e me defendeu da escrotid\u00e3o daquelas pessoas. Em um outro momento, numa aula de qu\u00edmica, eu estava sentado entre o M. \u2013 ele na minha frente \u2013 e a L. \u2013 ela atr\u00e1s de mim. O professor havia entregue uma pilha alcalina para o primeiro aluno da fila examinar e passar para o aluno seguinte. Ent\u00e3o, na minha vez, o M., que deveria me passar a pilha alcalina, me pulou. Levantou e deu a pilha para a L., alegando a ela ter me pulado por n\u00e3o querer ter contato f\u00edsico com bicha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 claro que o preconceito endere\u00e7ado a mim n\u00e3o ocorreu somente no col\u00e9gio na altura da minha juventude. Poderia dar o exemplo de in\u00fameros casos, mas n\u00e3o vejo necessidade disso aqui. Acho que estamos todos num mundo pol\u00edtico em que certas for\u00e7as e fatos tr\u00e1gicos est\u00e3o em jogo, como, no momento, podemos observar a postura incorreta de muitos l\u00edderes europeus em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados s\u00edrios; a ascens\u00e3o do Estado Isl\u00e2mico e a destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria atrav\u00e9s do aniquilamento de parte do patrim\u00f4nio material e imaterial mundiais \u2013 por exemplo, a destrui\u00e7\u00e3o do Templo de Bel, considerado o mais importante da cidade hist\u00f3rica de Palmira; o n\u00e3o respeito de alguns pol\u00edticos neopentecostais pela democracia brasileira; os v\u00e1rios policiais que matam jovens negros em Baltimore; os direitos b\u00e1sicos aos quais transexuais e travestis n\u00e3o t\u00eam acesso&#8230; Simplesmente estamos testemunhando um \u201cnaufr\u00e1gio da humanidade\u201d, onde h\u00e1 certamente um grande abismo nos cora\u00e7\u00f5es de muitas pessoas e \u00e9 uma pena que o bom senso de grande parte dessa humanidade apenas dure uma atualiza\u00e7\u00e3o de estado no Facebook. Sou apenas uma pessoa comum que tenta perceber o fluxo do mundo e que est\u00e1 comprometida numa certa luta, na qual, de certo modo, sendo a mais imparcial poss\u00edvel, relativamente \u00e0 verdade dos fatos, toma partido num plano, digamos, pr\u00e1tico, ou seja, no meu alcance, com a arte. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>NOTA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>[1]<\/strong> Sobre <em>Impressions d\u2019Afrique<\/em>, de Raymond Roussel, Marcel Duchamp escreveu: \u201cRoussel foi o respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o de meu vidro <em>La Mari\u00e9e mise \u00e0 nu par ses c\u00e9libataires, m\u00eame<\/em>. Seu <em>Impressions d\u2019Afrique<\/em> me indicou, em linhas gerais, a dire\u00e7\u00e3o que eu devia seguir. Eu pensava, como pintor, que seria melhor para mim receber influ\u00eancias de um escritor que de um outro pintor.\u201d (Cf. GLUSBERG, Jorge. <strong>A Arte da Performance<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2011, p. 18).<\/span><\/p>\n<p><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Paulo Aureliano da Mata Entrevista a Jos\u00e9 Carlos Henrique, em 05 de setembro de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":12,"menu_order":494,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-719","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=719"}],"version-history":[{"count":23,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8547,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/719\/revisions\/8547"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/12"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciaexcessos.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}