Eu Gisberta (2015-23)

 

RUA GISBERTA SALCE (DEPOIS DE SUPERADO O CARREGO CISCOLONIAL DE UTILIZAÇÃO DO AGNOME JÚNIOR) (2023)

 

Objeto em breve.

Hilda de Paulo, Rua Gisberta Salce (Depois de superado o carrego CIScolonial de utilização do agnome Júnior), 2023. Alumínio, 52 x 43 cm

 

Poema

POR SOBREVIVÊNCIA, NÃO POR OPÇÃO

Hilda de Paulo / Março de 2022

 

A travesti brasileira Gisberta Salce

Para sempre fixada com quarenta e cinco anos

Na tortura e na morte

Esvaziada de vida

E nacionalizada como símbolo português

Pelo homonacionalismo de Portugal

Teve seu nome imortalizado

Como projeto de nome de rua na cidade do Porto

Em 2021

 

Mas o apego CIScolonial português

Em sua proposição estética

Para o espaço público

Supôs que Júnior fosse apelido

Pobre inocência CIScolonial

Mal sabem que Júnior

É adjunção ao nome em Portugal

E agnome no Brasil

 

Complexidade do Júnior no Brasil

Então

Ignorada em Portugal

Pela perspectiva CIScolonial portuguesa

Que habitou o projeto

De nomear uma rua

Com o nome

Da Gisberta

 

Porque Júnior

Está costurado ao patriarcal

Ao modo capitalista do nome familiar

Do patriarca que detêm algum poder

Da transferência de poder entre homens

Do pai para o filho

 

Oscilação

Do uso do nome morto

Com o nome social

Numa época em que não se podia mudar

Nos documentos o sexo e o nome próprio

Faz quem era próxima a Gisberta

Afirmar que ela usava o Júnior

Por sobrevivência

Não por opção

 

O processo de fazimento do nome da Gisberta

Por ela própria

Como construtora da própria forma

De se apresentar no mundo

Em cartas

Em cartões-postais

Foi apagado

Pelas considerações de terceiros

 

Triste apego estático CIScolonial português

Em sua proposição estética

Para o espaço público

Em 2021

 

EU GISBERTA (2015-22)

 

Vídeo em breve.

Hilda de Paulo, Eu Gisberta, 2022. Vídeo, (duração)

 

Hilda de Paulo, Eu Gisberta, 2015. Fotografia + Texto-Manifesto, 100 x 100 cm. Edição: 5 + 2 P.A.

Edição 1/5 + 2 P.A. pertence ao Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Niterói-RJ, Brasil

Edição 2/5 + 2 P.A. pertence ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

 

Gis.ber.ta

substantivo próprio feminino

 

1) Se a única forma consequente de evocarmos os mortos é cuidando dos vivos, resgatemos aqui o novelo de exclusões que sucessivamente aprisionou a travesti Gisberta Salce, mas que se desfez finalmente com a sua morte, sujeitando o vazio sobre o qual foi forçada a construir toda a sua vida. Judith Butler, em Quadros de Guerra: Quando a Vida é Passível de Luto?, sugere que as escolhas da vida são práticas sociais, que definem quais vidas serão choráveis quando terminarem. A vida reconhecível de Gisberta foi somente a tatuada pelo tempo em que viveu na cidade do Porto (Portugal), primeiro como estrela em cabarés e boates gays, imitando a cantora Daniela Mercury, depois como um fantasma demasiado presente por conta de uma história de violência e transfobia.

 

2) Canção “Balada de Gisberta”, de Pedro Abrunhosa do álbum Luz, lançada em 2007: Perdi-me do nome, / Hoje podes chamar-me de tua, / Dancei em palácios, / Hoje danço na rua / Vesti-me de sonhos / Hoje visto as bermas da estrada, / De que serve voltar / Quando se volta p’ró nada. // Eu não sei se um anjo me chama, / Eu não sei dos mil homens na cama / E o céu não pode esperar. / Eu não sei se a noite me leva, / Eu não ouço o meu grito na treva, / E o fim vem-me buscar. // Sambei na avenida, / No escuro fui porta-estandarte, / Apagaram-se as luzes, / É o futuro que parte. / Escrevi o desejo, / Corações que já esqueci, / Com sedas matei / E com ferros morri. // Trouxe pouco, / Levo menos, / E a distância até ao fundo é tão pequena, / No fundo, é tão pequena, / A queda. / E o amor é tão longe, / O amor é tão longe / E a dor é tão perto.

 

3) Fragmentos do livro Indulgência Plenária, de Alberto Pimenta, lançado em 2007 pela editora &etc (Lisboa, Portugal): A tua vida / foi o teu pecado / Gisberta (p. 24); E as tuas unhas / e a tua língua / iam passando / iam-se fixando / arranhando / camada sobre camada / a cama doutros corpos / Aliados e concorrentes / reconhecidos velhos / e conhecidos novos / E / sendo também arranhada por eles / e gostando mais de o ser no corpo / que no Espírito / que conservaste intacto e sem malícia / Inatingível / a tudo e a todos (p. 13-14); Então sentas-te / e Procuras a tua mão / para entrares no teu romance (p. 36).

 

4) Primeiro ano do ensino médio, Colégio Zênite, Inhumas, Goiás, Brasil, 2001: “[…] tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo” [1]: complemento-me com pedaços de um espelho partido ao me ver aqui no invisível visível daquela manhã. Não há vida vivida, reina uma substância colorida intocada em meu corpo. Ela profere banalidades que não sei exatamente o que são. A palavra punheta – dita por um garoto mais velho do que eu – foi corrosiva para meu ser como aquele momento era. O beijo de piedade – “você é gordo, mas beijo-te ainda assim” – feria-me ainda por ter sido devorado há pouco tempo; culminava por fim no distúrbio da minha magreza. Havia já em mim o sexo-seco ganhado em anos atrás por aquela mão que me tocou, como existia também a indelicadeza do companheiro de trabalho de meu pai ao me dizer que minhas pernas infantis eram belas. Continua ela a dizer palavras que dizem a mim sobre mim. Sou (re)construído por sua mão. Estou parado, inquieto a olhar sem nitidez tudo o que me rodeia. Ela ainda grita, urra, bate na mesa e, por vezes, apoia-se a ela. AQUI DENTRO DO MEU COLÉGIO É PROIBIDO USAR CALCINHA COR-DE-ROSA. LÁ FORA, VOCÊ PODE USAR À VONTADE. Não entendo o que seria a veste cor-de-rosa que profere, já que tudo em mim superficialmente tornava-se cinza, excetuando a pulseira de cor alaranjada com espetos prateados que estava afivelada em meu pulso. Rebaixar-me simbolicamente perante uma sala de trinta e quatro alunos, o mesmo número da página de meu livro, foi a tarefa da diretora durante aproximadamente uma hora. Sua missão intercalou-se entre as aulas de biologia e de física. Sonhei essa noite que podia voar e aprimorava isso com o meu corpo sobre corpos assombrações, vultos, de mortes não morridas, meu Deus. Alguém me tira daqui, por favor. Matheus, onde jaz você em mim que não se revela na realidade? Eu apenas te amei e você acovardou-se por isso. “Se eu soubesse que o amor te envaidece / Não teria dado a chance que eu te dei.” [2] Sensibilidade já estacada que arca com tudo que me acontece. Uma pessoa jaz no fundo do poço, gotas escorrem do meu nariz e caem sobre o diário, que permaneço a olhar onde escuto tudo o que me é dito. Velha maldita como as plantas víboras que se torciam no jardim daquele colégio.

Estou cansado, apenas isso. NA SUA FICHA DE MATRÍCULA ESTÁ ESCRITO SEXO MASCULINO E NÃO PONTOS DE INTERROGAÇÃO, EXERÇA SUA FUNÇÃO. O cansaço deixa-me estático, mudo como um grito sem cor, sem fluxo sanguíneo. Cospe-me palavras duras ainda assim como a eternidade de uma morte que não chega em mim. Não joga pedra na Geni; dói muito, machuca muito. Apoio-me no meu passado escrito naquele momento como armadura dessa guerra. Amores, sofrimentos, emoções, desejos, sonhos, esperanças etc. encerram-me em mim. Minha voz torna-se o sussurro de uma mulher que canta para a criança que quase dorme no berço do quarto construído-concebido-logicamente para sua sobrevivência normativa. “É de graça, coma que é por nossa conta, esse apetitoso salgadinho!”, haveria ela de me dizer sorrindo daqui duas semanas por conta do medo de a sua brincadeirinha ter ultrapassado o limite, já que o que me feriu foi apenas eu existir.

A terceira frase memorável de todo o discurso instaurado nesse campo de batalha perdeu-se com o tempo em meu ser como o branco imaginado de um segundo após outro segundo marcado pelo ponteiro do relógio que anunciaria a qualquer momento o bem-aventurado recreio. “Não fugir, mas ir” [3] de encontro ao incomensurável destino. Corro, mas não consigo partir; o corredor com as vozes humanas permeiam ainda quando vejo o portão trancado especialmente por ela em mim.

 

5) …silêncio, SI-LÊN-CIO… Em fevereiro de 2006, treze adolescentes, parte deles alunos da Oficina de São José – instituição localizada na cidade do Porto e encarregada de acolher crianças, mantinha ligação com a Igreja Católica e era parcialmente subsidiada pelo Estado português –, agrediram, torturaram e abusaram sexualmente de Gisberta durante vários dias na construção inacabada da avenida Fernão de Magalhães, onde ela vivia em situação de indigência. (Um jovem branco e loiro de dezesseis anos, que se sentia protegido pelo grupo dos treze adolescentes, entra em cena para pedir a eles para pararem, mas com uma total ausência de compaixão ao omitir auxílio à Gisberta.) No final dos dias, seis dos jovens voltaram ao local e, achando que ela estivesse morta, resolveram se livrar do corpo. Primeiro pensaram em queimá-la, mas depois acabaram mesmo por decidir jogar o corpo de Gis num poço de 10 metros de altura, na esperança de que ele afundasse. A BRASILEIRA acabou morrendo afogada… 45 anos, pobre, travesti, trabalhadora do sexo, toxicodependente, soropositiva… No dia 22 de fevereiro, um dos jovens teve uma crise de consciência e contou o que tinha acontecido a uma diretora de turma. No mesmo dia, o corpo foi retirado do poço pelos bombeiros. (Entram os brancos e os ricos Estado e Justiça portugueses a tentar culpabilizar a vítima e “abafar” publicamente o caso.) O julgamento começou no dia 3 de julho e durou 29 dias… “Inocentes criancinhas” em “uma brincadeira de mau gosto que correu mal”. MEU NOME É GISBERTA. FUI TORTURADA, VIOLADA, ASSASSINADA. PARA A JUSTIÇA, EU MORRI AFOGADA E A CULPA FOI DA ÁGUA.

 

6) “Apesar de tudo, [a guerreira] morreu com um sorriso” [4].

 

7) Gíria “fazendo a Gisberta”: expressão para designar uma criança enlouquecida que cantava e dançava Daniela Mercury no último volume na casa da bela avozinha, como eu.

 

8) …há algo muito errado, pois o abismo está nos corações das pessoas… é como uma visão intimista de viver um sonho enquanto se está preso dentro dele, no qual a solidão e a dor se encontram e ficam ainda mais intensas depois que as luzes se apagam.

 

9) Eu + Gisberta = Eu Gisberta.

 

NOTAS

[1] LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. 1. ed., Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 20.

[2] Canção “Chama”, de Nila Branco, do álbum Parte II, lançada em 2001.

[3] LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. 1. ed., Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 196.

[4] “Morte de Gisberta fica sem culpados”. Jornal Correio da Manhã, Lisboa, 28 de março de 2008. Ver em: <http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/portugal/detalhe/morte-de-gisberta-fica-sem-culpados.html>. Acesso em: 12 de novembro de 2015.

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, em sua exposição individual Tão Só o Fim do Mundo. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal, 2019. Fotografia de Tales Frey

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, na exposição coletiva Enredos para um Corpo, com curadoria de Raphael Fonseca. Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro-RJ, Brasil, 2018. Fotografia de Tales Frey

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, na 27ª Mostra de Arte da Juventude. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brasil, 2016. Fotografia de Camila Onofre Silva

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, em ESFORÇOS #2 – Mostra de Performances, com curadoria de Caio Riscado e Lucas Canavarro. Olho da Rua, Rio de Janeiro-RJ, Brasil, 2016. Fotografias de Costa (I Hate Flash)

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, na exposição coletiva Maria de Todos Nós: 50 anos de Maria Bethânia, com curadoria de Bia Lessa. Paço Imperial, Rio de Janeiro-RJ, Brasil, 2015

 

Eu Gisberta (2015), de Hilda de Paulo, na exposição coletiva Múltiplas Perspectivas e Não Menos Contradições e Sonhos, com curadoria de José Maia. I Bienal da Maia: Lugares de Viagem, 2015. Fórum da Maia, Maia, Portugal. Fotografias de Tales Frey

 

HISTÓRICO

[2021] Exposição coletiva Erro 417: Expectativa Falhada. Curadoria de Marta Espiridião. Galeria Municipal do Porto, Porto, Portugal.

[2021] Texto-manifesto “Eu Gisberta” publicado no catálogo da exposição Transespécie/Transjardinagem do Museu Transgênero de História e Arte. Com organização de Ian Habib e publicado pela editora O Sexo da Palavra. ISBN: 978-65-88010-20-4.

[2021] Exposição coletiva on-line Transjardinagem. Curadoria e organização de Ian Habib. Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA), Brasil.

[2021] Texto-manifesto “Eu Gisberta” publicado no livro VOLTA PRA TUA TERRA: Uma Antologia Antirracista/Antifascista de Poetas Estrangeirxs em Portugal. Com organização de Manuella Bezerra de Melo e Wladimir Vaz, e publicado pela editora Urutau. ISBN 978-65-5900-031-9.

[2019] Exposição Tão Só o Fim do Mundo. Texto de Camila Alexandrini. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal.

[2018] Exposição Enredos para um Corpo. Curadoria de Raphael Fonseca. Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. 

[2017] Exposição coletiva O Teu Corpo É Luta. Curadoria de Danillo Villa e Ricardo Basbaum. Arte Londrina 5, Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina, Londrina-PR, Brasil.

[2016-17] 27ª Mostra de Arte da Juventude. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto-SP, Brasil.

[2016] ESFORÇOS #2 – Mostra de Performances. Curadoria de Caio Riscado e Lucas Canavarro. Olho da Rua, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

[2016] Exposição coletiva Em Tudo Quanto é Mundo Dito ou Não Dito. Curadoria de José Maia. Desobedoc 2016, Cinema Batalha, Porto, Portugal.

[2016] Exposição Sob (Ul)Trajes e Gozos. Curadoria de Suianni Macedo. Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, Ovar, Portuga.

[2016] Exposição Em Estado de Guerra. Organização e curadoria de Hilda de Paulo e Tales Frey. Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, Portugal.

[2015] Texto-manifesto “Eu Gisberta” publicado no livro Cia. Excessos: Entre Arquivo e Práticas Contemporâneas. Com organização de Paulo Aureliano da Mata, Tales Frey e Suianni Macedo, e publicado em forma de livro pela eRevista Performatus em parceria com a Paco Editorial. ISBN: 978-85-462-0307-9.

[2015] Exposição coletiva Maria de Todos Nós: 50 anos de Maria Bethânia. Curadoria de Bia Lessa. Paço Imperial, Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

[2015] Exposição coletiva Múltiplas Perspectivas e Não Menos Contradições e Sonhos. Curadoria de José Maia. I Bienal da Maia: Lugares de Viagem. Fórum da Maia, Maia, Portugal.

 

CITAÇÃO

GÓIS, Edma de. “Sobre Poemas Lançados contra o Bolor Colonial: O que dizem 49 artistas migrantes na antologia ‘Volta para tua Terra’”. Jornal Literário Pernambuco, n. 189, nov. de 2021.

“Um caso emblemático é assunto do poema de Hilda de Paulo, Eu Gisberta, em que a autora recupera o assassinato da brasileira Gisberta Salce, vítima de transfobia, que foi violentada, torturada por dias e jogada em um poço em 2006 na cidade do Porto. Após 29 dias de julgamento, os adolescentes envolvidos nos crimes (no plural) foram absolvidos. Hilda traz à tona a história de Gisberta por meio de uma espécie de verbete de dicionário, destrinchando o fato em si e seus desdobramentos. Um dos potenciais políticos está no gênero didático que a artista procura emular, como quem explica a um leigo o quão absurdo e inadmissível é a transfobia.”

 

PUBLICAÇÃO

Texto de Hilda de Paulo incluído na brochura de sala da palestra-performance-oficina “O Que Vem Depois da Esperança?” (Abril-Maio de 2022) e na revista multimídia independente Interruptor (Maio de 2022):

 

Pode a artista brasileira, imigrante e travesti Hilda de Paulo tomar a palavra?

Transcrição da fala de Hilda de Paulo de sua participação na mesa on-line “Balada de Gisberta” no Festival de Poesia de Lisboa no dia 15 de setembro de 2021.

 

No ano passado, fui extremamente atacada por apontar um flagrante apego CIScolonial por parte de muita gente numa tal homenagem supostamente pública a Gisberta Salce. Fui atacada no Facebook por um perfil de uma ativista trans portuguesa defendendo cisgeneridade e transfake, que dizia que me ensinaria a ser artista enquanto afirmava que não tenho bons modos. Numa outra situação, e ainda sobre o meu posicionamento com relação à equivocada homenagem, fui também chamada de má pesquisadora por um homem cis gay português que sempre está por aí a falar pelas pessoas TRANS* [1]. Isso porque minha pesquisa diverge da dele e, para ele, parece ser inaceitável que uma travesti imigrante – ainda mais vinda de uma ex-colônia de Portugal – tenha a possibilidade de verbalizar pensamentos.

A quem subestima o conhecimento vindo de uma travesti imigrante, posso explicar didaticamente e com “bons modos” algumas noções basilares para colaborar em pesquisas inquestionavelmente truncadas. Na dissertação “O Nome no Casamento e a Igualdade Jurídica dos Cônjuges sob o Enfoque do Estado do Direito e dos Valores Democráticos” [2], a autora Letícia Franco diz que atualmente “Júnior” – uma adjunção ao nome – é aceito em Portugal, constando na lista de nomes autorizados a registro, e explica que os vocábulos “Filho”, “Neto” ou “Sobrinho” não constam mais na mencionada lista. A palavra “Júnior”, então, passou a ser admitida em segundo lugar e apenas se o primeiro nome for igual ao do pai, ou seja, o uso da palavra “Júnior” nos casos de identidade de nomes completos entre pai e filho. E acredito que essa utilização recente em Portugal aconteça por conta do crescimento cada vez mais da comunidade brasileira aqui. Já no Brasil, a palavra “agnome” é utilizada para denominar a partícula atribuída à pessoa a fim de diferenciá-la de parentes que tenham o mesmo nome completo, ou seja, o mesmo pronome e sobrenome, devendo constituir a última parte do nome e assim constar no registro de nascimento. São exemplos de agnomes no Brasil: Júnior, Filho, Neto, Sobrinho. E o agnome não é previsto em lei no Brasil, mas sua existência é reconhecida tanto pela doutrina quanto pela jurisprudência e é de conhecimento geral o registro de agnomes para brasileiros nos Cartórios de Registro Civil das Pessoas Naturais.

Dito tudo isso, vimos a utilização do agnome (no Brasil) e da adjunção ao nome (em Portugal) Júnior na esfera jurídica.

Por exemplo, no Wikipédia, a página do verbete da travesti brasileira “Gisberta Salce” [3] foi criada no dia 22 de março de 2021 e consta erroneamente que Júnior é apelido. Como historiadora da arte, interessa-me muito conhecer a produção de várias artistas em torno da imagem da Gisberta, porque há a criação de uma iconografia que infelizmente ainda não é articulada e estudada, portanto, há um vasto conjunto de imagens na construção da Gisberta, ou melhor, das Gisbertas. E, no ponto “2.2. Inspiração para artistas”, nesta página do verbete da Gisberta, noto desde a escolha até o destaque dado apenas a obras produzidas por artistas cisgêneros. Vemos aqui a velha e manjada representação da visibilidade travesti e transexual pela cisgeneridade.

Além disso, nesta tal página, incomoda-me também a falta de informações sobre as polêmicas em torno de determinadas obras como, por exemplo, a acusação de TRANSFAKE direcionada à peça “Gisberta” encabeçada pelo ator cisgênero brasileiro Luis Lobianco, entre outras controvérsias.

E, então, para falar desse agnome Júnior e elucidar pontos importantes para essas pessoas cisgêneras que subestimam pesquisadoras TRANS*, eu quero apresentar aqui a minha leitura TRANScentrada do ponto “2.5. Rua Gisberta Salce Júnior” da página do verbete da Gisberta no Wikipédia.

O projeto surge por conta de uma proposição anterior chamada “Viver a Rua” [4], que está apresentada nessa referida página com erros e imprecisões, onde está omitido inclusive o nome do propositor Joshua Sofaer, um artista cis britânico. “Viver a Rua” foi um projeto de arte participativa criado em 2010 por esse artista, com coprodução do Núcleo de Experimentação Coreográfica do Porto (NEC), juntamente com o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI). O projeto consistia na escolha de uma pessoa que fosse merecedora de ter o seu nome perpetuado como uma rua da cidade do Porto. O projeto afirmava-se como uma homenagem pública que tornaria a pessoa escolhida em “símbolo do cidadão”. Foram selecionados cinco nomes para a comissão de toponímia da cidade do Porto, que poderia escolher apenas um nome como vencedor do concurso. Os cinco nomes escolhidos foram: o de Gisberta Salce, o de David Sobral, o de Maria Natália da Silva Gandra, o de Jorge Vasques e o de António Nicolau D’Almeida. O último foi o nome escolhido como o símbolo do cidadão. O António Nicolau foi o fundador e primeiro presidente do Futebol Clube do Porto. Então, no ano seguinte, em 2011, foi divulgado o nome dele na edição seguinte do FITEI. E o que me chama atenção nesse projeto é o seguinte comentário do júri sobre a nomeação da Gisberta: “esta foi uma das escolhas do júri porque condena um ato bárbaro que ocorreu na cidade do Porto, não tendo como objetivo a homenagem da pessoa em si, mas a condenação da violência e da injustiça nas suas mais variadas formas.”

E O QUE É NÃO TER COMO OBJETIVO A HOMENAGEM PARA A PESSOA EM SI?

A intenção de nomear uma rua com o nome da Gisberta Salce foi resgatada em 2019 pela artista cisgênera, portuguesa e branca, Sara Barros Leitão. Resumidamente, em seu espetáculo “Todos os Dias me Sujo de Coisas Eternas”, a atriz pediu a todas e todos espectadoras(es) que assinassem uma carta com o objetivo de atribuir a alguma rua da cidade do Porto o nome da Gisberta. Em março de 2020, ela encaminhou a proposta à comissão de toponímia da cidade do Porto e só recebeu um e-mail de resposta automática a esse pedido. Em 2021, a comissão de organização da Marcha de Orgulho LGBT Porto com outras entidades se associa a atriz cisgênera numa jornada lançando uma petição on-line.

Algumas pessoas esperaram minha opinião expressa a respeito do agnome Júnior presente nessa proposição estética para o espaço público. Esperaram isso por conta de uma longa reflexão que eu faço sobre o agnome Júnior a partir da minha obra “Eu Gisberta” (2015) [5]. Mas eu fiquei em silêncio por um bom tempo até ler uma infeliz declaração do Filipe Gaspar, da Marcha do Orgulho do Porto, na matéria jornalística “Gisberta, a transgênero brasileira que pode virar nome de rua em Portugal” [6], escrita por Adriana Negreiros e publicada no dia 21 de maio de 2021, no Tab Uol: “Quem era próximo a ela informa que se apresentava como Gisberta Salce Júnior. Consideramos importante sua própria autodeterminação, mas reconhecemos que há uma questão ideológica a ser discutida”.

E O QUE O FAZ TER TANTA CERTEZA DE QUE GISBERTA USAVA O JÚNIOR POR OPÇÃO?

Segundo Leonor Salce, cunhada de Gisberta, depois de um tempo em que Gisberta estava a viver no Porto, ela começou a assinar no feminino. Esse dado está no curta-metragem “A Gis” [7], de 2016, do Thiago Carvalhaes. Também, nesse curta, há o depoimento de Domingues Salce, irmão da Gisberta e casado com a Leonor, dizendo que desconhece a sua assinatura no feminino.

Há uma enorme falta de entendimento por parte dessas pessoas que estavam propondo o projeto de rua com o nome da Gisberta, porque falta uma compreensão muito básica sobre o que é um processo de construção de um nome por uma pessoa TRANS*.

Além do Júnior estar inteiramente vinculado a uma ordem patriarcal, logo, ao modo capitalista de um nome familiar, ou seja, do patriarca que detêm algum poder, ou ainda, da transferência de poder entre homens, do pai para o filho, esse agnome carrega também toda uma perspectiva CIScolonial. Assim, esse projeto homonacionalista, nacionaliza a Gisberta como uma portuguesa e não reflete sobre a complexidade do Júnior no Brasil, porque, afinal, a Gisberta também era brasileira e isso deve ser levado em consideração. Então, qual é a vivência TRANS* brasileira não cisgenerificada que permeia nesse projeto para insistir na presença do Júnior que vem de um ecoamento do nome morto da Gisberta? Ou melhor, qual é a cidade do Porto que vai se dar o processo de construção do nome da Gisberta por ela própria? Numa cidade do Porto em que não havia uma lei de autodeterminação de gênero, onde ela tinha que sobreviver na oscilação do uso do nome morto com o nome social.

Aqui estamos diante de uma proposição estética que parte de um lugar CIScentrado para dar visibilidade para considerações de terceiros (entrevistados) e não à produção da Gisberta (da pessoa em si) enquanto construtora da própria forma de se apresentar no mundo.

 

 

Então se há uma carta com a assinatura da Gisberta Salce sem o Júnior, por que há de se manter o Júnior nesse projeto mesmo sabendo de toda essa complexidade de sua utilização em 2021?

E, sob uma transfobia estrutural, essa CIScolonialidade opera com seu dedo em riste para apontar como “má pesquisadora” quem questiona uma produção de conhecimento antiquado e segue amarrando o contexto patriarcal do Júnior no corpo de uma travesti.

Longe de querer defender o binarismo da não utilização do agnome “Júnior” como regra geral para todas travestis e mulheres trans, essa minha reflexão é somente válida para o caso desta proposição estética que leva o nome da Gisberta. Ressalto isso, porque há sim travestis que usam o Júnior com a consciência da lógica de subversão queer ao patriarcal. Então, não podemos generalizar o não uso desse agnome “Júnior” para todas travestis e mulheres trans.

Mas há que se usar o bom senso em torno dessa problemática do Júnior no caso da Gisberta, porque como disse o biógrafo da Clarice Lispector, por vezes, há de se interpretar os fatos porque nem sempre o que se fala bate com os documentos.

Questionada, a atriz cisgênera Sara Barros Leitão diz: “se nos chegar a informação que contradiga todas estas pessoas e os seus testemunhos e que demonstre que, de fato, o nome mais justo a pôr era sem o ‘Júnior’, alteraremos de imediato esta proposta. Não pretendemos fazer nenhum braço de ferro com esta questão”. Braço de ferro? Temos que ter a responsabilidade de dialogar com o nosso tempo, mas a CIScolonialidade delirante em crise segue como uma verdadeira piada de mau gosto. Acho que a tal atriz cis não compreendeu que não se trata de uma disputa de saberes, mas sim de um esclarecimento sobre um equívoco evidente, justamente para que um vexame futuro seja evitado.

E, no dia 22 de junho de 2021, foi aprovado o projeto na Assembleia Municipal da cidade do Porto em Portugal e o agnome Júnior foi mantido. E muitas vozes TRANS* que estão nesse momento produzindo TRANS*epistemologias nem sequer forma escutadas.

 

NOTAS

[1] O termo “trans*”, com asterisco, é um termo guarda-chuva que “sinaliza a ideia de abarcar uma série de identidades não cisgêneras. De modo particular, as seguintes identidades estão contempladas no termo ‘trans*’: transexuais, mulheres transgêneras, homens transgêneros, transmasculines e pessoas não binárias. Já o termo ‘mulheres trans’ refere-se a mulheres transexuais e mulheres transgêneras. E é importante dizer que apesar do termo ‘travesti’ estar contemplado no termo ‘trans*’, no intuito de reforçar essa identidade de gênero bastante marginalizada socialmente, opto [assim como eu] por geralmente fazer referência à travesti fora do termo guarda-chuva, assumindo, portanto, uma postura política de afirmação das identidades travestis.” Ver em: NASCIMENTO, Letícia. Transfeminismo, São Paulo; Jandaíra, 2021, p. 18-19.

[2] Ver em: <https://repositorio.ual.pt/bitstream/11144/4602/1/30%20de%20julho%20de%202019%20-%20dissertacao%20UAL%20_Let%C3%ADcia.pdf>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h29.

[3] Ver em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Gisberta_Salce_Júnior>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h30.

[4] Ver em: <https://issuu.com/joshuasofaer/docs/viver_a_rua_press_file>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h30.

[5] Ver em: <http://ciaexcessos.com.br/hilda-de-paulo/obras/eu-gisberta/>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h31.

[6] Ver em: <https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/05/21/gisberta-a-transgenero-brasileira-que-pode-virar-nome-de-rua-em-portugal.htm>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h30.

[7] Ver em: <https://vimeo.com/210177296>. Acessado no dia 27 de março de 2022, às 1h30.