Tão Só o Fim do Mundo

 

 

A partir da peça teatral “Tão Só o Fim do Mundo”, de Jean-Luc Lagarce, a exposição homônima sintetiza a trajetória do artista luso-brasileiro Paulo Aureliano da Mata em sua investigação teórico-prática acerca de procedimentos artísticos em que mescla sua autobiografia com outras histórias reais e ficcionais, reunindo elementos da literatura, da cultura contemporânea e de mitologias de civilizações diversas. Através de uma colagem expositiva de treze “experimentações” concebidas entre 2013 e 2019, e com o propósito de falar da temporalidade, da finitude e da memória, a palavra é vista roubando o protagonismo da imagem, ou a imagem apenas acompanha a palavra, revelando, assim, o sintoma de um profundo desejo de comunicar com o(a) espectador(a), cuja leitura ativada dessa palavra torna-se uma espécie de “encenação” em que deságuamos afetos que vêm povoar o espaço onde os corpos presentes se encontram.

 

Tão só (n)o Fim

alguma palavra [performance] de Camila Alexandrini para Paulo Aureliano da Mata

 

É o Paulo José Almeida Lopes.

Ele é o Paulo da Mata.

Paulo Vila Verde, o Aureliano.

É o Páll Jónsson.

Eu, Da Mata

 

Sente. É a pele que brota de si, vai nascendo feito tecido a cobrir ser que não existe.

Persistente. Desenha o corpo que, em labirinto, se esconde.

Projeção temporária, construção em devir.

            Corpo de pele áspera, pelos grossos, pélvis contraída. O olhar que percorre esse corpo interroga-se o tempo todo e a todo tempo.

Desconstruir é sua tarefa. Uma verdadeira revolução de si. Contrarrevolução.

         O sexo brota junto com a pele, e o corpo escapa, corre, violenta a ordem da sexualidade.

Depois do fim, antes do começo, não há outro senão outro-si. Não o mesmo, disparate da identidade, da existência. Registro perdido entre outros documentos inventados.

               Buscando retomar sua força vital, corta a pele que já brotou, costura outra e caminha com ela para elaborar seu movimento.

De tudo isso, um membro. Uma parte-toda do corpo, não se deixa corporificar para não perder o ritmo da dança.

Dança.

Esta talvez seja sua luta diária. Dançar para que não o persigam com suas palavras.

Dançar para que não seja inválido. Todo gesto de si é contrabando entre fronteiras orgânicas e desorganizadas.

             Eu. Eu e as mortes de si. Eu e o pavor diante da morte. Abismo da intolerância.

        Não sabe o porquê. Mas investiga com a palavra-corpo que habita sua cabeça. E os demais órgãos reviram-se, revoltados.

                Toda pele é tecido; todo corpo, uma máquina de guerra; todo eu, uma construção da ação; todo elo, uma marca na memória.

Não quer se escrever, quer agir. Escrita de loucos.

                                                                     De onde vem? Dizem que nasce e assim é vítima.

Endereçado ao tão só o fim de si. O mundo-todo.

A paisagem está borrada, uma bio-grafia? Uma trans-performance.

Ato final. Morte enunciada. Não será esse o final do ato.

Percorre o corpo. Ele tudo pode.

Desde que não falte. Deságua, desarma,

des-mata.

[“Quem agora falará por mim?”]

– a dobra.

 

OBRAS

 

 

1) Paulo Aureliano da Mata, Arrebato, 2018. Materiais diversos, 50 x 40 x 8 cm;

2) Paulo Aureliano da Mata, 28 de outubro de 2018, 2018. Fotografia, 10 x 10 cm; Colagem, 29,7 x 21 cm;

3) Paulo Aureliano da Mata, Chuva de Like, 2019. Instalação, em breve;

4) Paulo Aureliano da Mata, As Veias Ainda Abertas da América Latina – Versão “Escola sem Partido” (Políptico)2019. Técnica mista, 45 x 340 cm ao todo;

5) Paulo Aureliano da Mata, Coração Selvagem, 2013-17. Vídeo, 4’50’’;

6) Paulo Aureliano da Mata, …Minhas Crianças Estão Morrendo Dentro De Mim, 2016. Vídeo, 1’44’’;

7) Paulo Aureliano da Mata, Acreditamos em Milagres onde eles existem, 2019. Vinil colante, em breve;

8) Paulo Aureliano da Mata, El Minotauro #3, 2014. Cartão-postal, 20 x 35,5 cm; Texto, 35,5 x 92,5 cm;

9) Paulo Aureliano da Mata, Eu GisbertaBody art realizada na cidade do Porto, Portugal. 2015/2018. Fotografia de Tales Frey, 100 x 100 cm;

10) Paulo Aureliano da Mata, Vestido de Dança #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, 2018. Materiais diversos; 40 x 40 x 8 cm cada;

11) Patente estadunidense de número 21.458 de 12 de abril de 1892: M. L. Fuller, Vestido de Dança. Tradução de Susana Canhoto;

12) Paulo Aureliano da Mata, Vestido de Dança, 2018. Fotografia, 40 x 60 cm;

13) Paulo Aureliano da Mata, Vestidos de Dança, 2018. Vídeo inacabado em loop.

 

Exposição Tão Só o Fim do Mundo (2019), de Paulo Aureliano da Mata. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal. Fotografias de Tales Frey

 

Exposição Tão Só o Fim do Mundo (2019), de Paulo Aureliano da Mata. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal. Fotografias de Tales Frey

 

Programa Paralelo da Exposição Tão Só o Fim do Mundo

19 de janeiro de 2019, às 16h

Conversa Livro da Mata sou eu, por mim mesmo! com Paulo Aureliano da Mata

O artista Paulo Aureliano da Mata propõe uma conversa sobre performance, body art, literatura e os múltiplos desdobramentos e cruzamentos destas categorias artísticas, levando em conta a convergência de sua vida através da Cia. Excessos e da eRevista Performatus, meios pelos quais revisita as suas próprias experiências para criar conceitos e expressões originais. Inclui-se também a leitura pelo artista de seu texto-manifesto intitulado Eu Gisberta.

Duração de aproximadamente 90 minutos.

 

Exibição de Filmes

12 de janeiro de 2019, a partir das 17h

Primavera Fascista, Setor Proibido

Brasil, 2018, Mus., 9’, Cor, M/Livre

Diante da atual conjuntura, o Setor Proibido reuniu sete MC’s capixabas – Bocaum, Leoni, Adikto, Axant, Mary Jane, Vk Mac & Dudu – no intuito de se manifestar e mostrar a verdadeira face do candidato de extrema direita da corrida eleitoral brasileira de 2018.

 

O Processo, Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Doc., 140′, Cor, M/Livre

O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo.

 

19 de janeiro de 2019, a partir das 17h30

La Féerie des Ballets Fantastiques de Loïe Fuller, Georges R. Busby

França, 1934, Doc., 29’, P&B, M/12, Cinémathèque de la Danse/Centre National de la Danse

Originária do music hall, Loïe Fuller é uma das primeiras artistas a usar efeitos cênicos como parte integrante de suas coreografias tendo em vista uma finalidade narrativa. Pioneira na dança do século XX, Fuller é conhecida até hoje por sua “Dança Serpentina”. Em 1891, aprende a dança da saia, um encontro entre o flamenco e o can-can francês e, neste movimento, utiliza-se da saia como percurso de ação no espaço, desenhando formas efêmeras criadoras de contornos particulares e irrepetíveis.

 

A Gis, Thiago Carvalhaes

Brasil, 2016, Doc., 20′, Cor, M/12

Gisberta Salce foi uma mulher transexual brasileira que viveu durante anos como imigrante em Portugal. Brutalmente assassinada há dez anos, tornou-se, desde então, símbolo da luta pelos direitos transexuais. Este documentário constrói um retrato delicado, peça por peça, de uma mulher despedaçada por um mundo indiferente. 

 

Tão Só o Fim do Mundo, Xavier Dolan

Canadá, 2016, Fic., 95′, Cor, M/14, Com Legenda em Português

Após doze anos de ausência, um escritor regressa à sua terra natal com o intuito de anunciar à família a sua morte iminente. Encontros com o círculo familiar deixam transparecer o amor, embora, ao mesmo tempo, obriguem os envolvidos a reviver eternas querelas; sobrevêm rancores nascidos da dúvida e da solidão.

 

Serviço Educativo

16 de março de 2019, a partir das 11h

Visita-Oficina para Famílias, Rita Medinas Faustino

Duração de aproximadamente 120 minutos.

 

Visita-Oficina para Famílias com Rita Medinas Faustino

 

FICHA TÉCNICA

Paulo Aureliano da Mata: Tão Só o Fim do Mundo | Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura | Texto: Camila Alexandrini | Revisão ortográfica: Marcio Honorio de Godoy | Assessoria de Imprensa: Sara Cunha | Design Gráfico: Joel Queiroga | Montagem: Igor Sampaio | Serviço Educativo: Rita Medinas Faustino | Realização: Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura | Financiado: Governo de Portugal – Secretário de Estado da Cultura e DGArtes/Direcção-Geral das Artes | Agradecimentos: Camila Alexandrini, Igor Sampaio, Joel Queiroga, Marcio Honorio de Godoy, Maria Augusta Ramos, Maria Luís Neiva, Norcópia, Nuno Silva, Ricardo Areias, Sara Cunha, Setor Proibido, Sílvia Póvoas, Suzana Queiroga, Tales Frey, Tânia Dinis e Thiago Carvalhaes | 11 de janeiro a 16 de março de 2019

 

Clipping

 

Vídeo promocional realizado pela equipe do Jornal de Notícias

 

Entrevista de Tales Frey a Radio RUM 97.5 FM – Rádio Universitária do Minho

 

Glam Magazine, 14 de dezembro de 2018

Revista Dezanove, 26 de dezembro de 2018

Jornal Sábado, 10 de janeiro de 2019

Jornal de Notícias, 11 de janeiro de 2019

Jornal de Notícias, 11 de janeiro de 2019