
A pintora e seus gestos
Quer dizer então que a senhora acredita mesmo na imortalidade da alma? Respondi: Acredito na imortalidade da minha alma. Mas o senhor, se continuar coçando o saco dessa forma, sequer constituirá uma!
Hilda Hilst
Em Como vai você, Sr. Curador?, Hilda de Paulo tensiona duas forças motrizes de suas pesquisas poéticas recentes: identidade e subjetividade. Dialogando com o campo da cultura e da política, apresenta obras inéditas e multilinguagem que discutem, com irreverência, seu posicionamento enquanto artista travesti e emigrante frente ao sistema da arte. Recorre, ainda, à noção de política visual, formulada por bell hooks, para evidenciar como marcadores sociais da diferença moldam quem é visto, como é visto e quem tem legitimidade para produzir saber. Com feraz consciência crítica de gênero, as obras revelam, de forma afrontosa, a exaustão diante da coaptação identitária operada pelo sistema das artes, em gestos que venho nomeando como inflexões transfeministas.
É nas pinturas que o universo subjetivo se precipita em formas abstratas, com sugestões figurativas de paisagens que se dissolvem e se recompõem por microcontornos de tinta acrílica. Transbordando o mesmo espírito efervescente, irônico e crítico da produção independente da Geração 80, Hilda de Paulo nos recorda a permanência da pintura enquanto gesto disruptivo de criação.
Nas telas de pequeno formato – escala historicamente acessível às mulheridades –, encontramos arranjos particionados que remetem aos pisos de cacos da arquitetura brasileira dos anos 1940, revelando o labor minucioso e exaustivo oculto sob a economia visual sistemática e repetitiva. Assim como na arquitetura o reaproveitamento de materiais era imperativo, na pintura de Hilda encontramos o reacesso a memórias, subjetividades e personagens que incitam seus gestos pictóricos.
Se, em 1984, os curadores perguntavam “como vai a geração de pintores?”, aqui é a artista quem devolve a questão ao sistema da arte, corporificado na figura do curador. Pergunta-lhe: como estão os humores da curadoria institucional para visitar esta metáfora de ateliê e observar a produção de uma artista travesti, goiana e emigrante que pinta abstrações?
Maíra Freitas
curadora, artista-educadora e pesquisadora
OBRAS

1) Hilda de Paulo, Rota Solitária, 2024-25. Acrílica sobre tela, 5 x 7 cm cada;
2) Hilda de Paulo, Rota Solitária (A Morte de José Arcadio Buendía), 2025. Acrílica sobre tela, 20 x 20 cm;
3) Hilda de Paulo, Como vai você, Sr. Curador?, 2025. Biombo com oito fotografias (42,2 x 59,5 cm cada), 168,8 x 165 cm aprox.;
4) Hilda de Paulo, Hilda de Paulo (Sapatos), 2021. Objeto-pintura, 58 x 28 x 9 cm. Edição: 1;
5) Hilda de Paulo, contei uma piada / toda a gente ficou séria / só Hilda Hilst riu, 2025. Letreiro confeccionado em MDF 15 mm com recorte especial e pintura automotiva, 150 x 37 cm;
6) Anita Malfatti, Árvore Amarela, déc. de 50. Aquarela sobre papel, 17 x 13 cm | Hilda de Paulo, 75 anos depois, homem é detido suspeito de provocar incêndio com isqueiro (Depois de Anita Malfatti), 2025. Acrílica sobre tela, 17 x 13 cm.
FICHA TÉCNICA
Hilda de Paulo: Como vai você, Sr. Curador? | Galeria Retina, São Paulo-SP, Brasil | Curadoria e texto: Maíra Freitas | Montagem: Thiago Briguet Navas | Fotografia: Estúdio em Obra | Assessoria de Imprensa: Angelo Miguel/ Bacuri Comunicação | Agradecimentos: Andrea Oliveira, Angelo Miguel, Art Prime Design, Cia dos Fermentados, Leika Morishita, Lúcia Helena, Maíra Freitas, Marcelo Arantes, Marcos Pais, Marina Schiesari, Suzana Queiroga e Tales Frey | 29 de novembro a 21 de dezembro de 2025




Exposição Como vai você, Sr. Curador? (2025), de Hilda de Paulo, na Galeria Retina, São Paulo-SP, Brasil. Fotografias de Estúdio em Obra
Clipping
dasartes, 19 de novembro de 2025
CHNews, 24 de novembro de 2025
Jornal do Brás, 25 de novembro de 2025
Estadão, 27 de novembro de 2025
Viva a Cidade News, 28 de novembro de 2025

Estadão, 27 de novembro de 2025