“‘VOLTA PARA TUA TERRA’. Em Portugal, imigrantes brasileiros combatem preconceito com poesia.”, de Adriana Negreiros (2021)

 

Este texto de Adriana Negreiros foi publicado em: NEGREIROS, Adriana. “‘VOLTA PARA TUA TERRA’. Em Portugal, imigrantes brasileiros combatem preconceito com poesia.” TAB UOL, 13 de julho de 2021.

 

A curadora e historiadora da arte goiana Hilda de Paulo, 33, nunca tinha escutado a expressão “volta para a tua terra” até o momento em que testemunhou uma briga de vizinhos, na sacada de um prédio próximo ao dela. Naquela madrugada, em pleno confinamento pandêmico, ela e o marido, também brasileiro, acordaram com os gritos de um homem de cerca de 40 anos. Da janela, viram o sujeito esbravejar contra uma mulher mais jovem, ao mesmo tempo em que esmurrava a parede e quebrava garrafas de cerveja ao chão — apavorados ante a iminência de uma agressão física, os dois começaram a gritar. Ameaçaram chamar a polícia, acusaram-no de machismo.

O agressor voltou-se para Hilda. Decerto, reconheceu-lhe o sotaque. Então lançou um “volta pra tua terra, feminista”.

 

ESTRATÉGIA DE DEFESA

Hilda de Paulo publicou na antologia o poema “Eu Gisberta”, sobre a transgênero brasileira assassinada por adolescentes no Porto, em 2006. “Na sua ficha de matrícula está escrito sexo masculino e não pontos de interrogação, exerça sua função”, diz um trecho autobiográfico do poema escrito por Hilda, que vive no Porto desde 2008 e, na cidade, reconheceu-se como travesti.

A despeito de, em 13 anos, ter ouvido — especialmente dos professores na universidade — conselhos para expressar-se em português europeu, Hilda recusa-se a adaptar o texto e a fala.

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Manuella, Luca, Hilda, Ellen e Ana Paula deixaram o Brasil por diferentes razões e todos eles gostam de viver em Portugal. Manuella não para quieta, entre um evento literário e outro, assim como Hilda, dividindo-se entre as mais diversas exposições de arte.