Eu estou na casa do colonizador. Então, mexer nos móveis dessa casa é um pouco difícil. Mas eu vou mexer. (2021)

 

Hilda de Paulo, Eu estou na casa do colonizador. Então, mexer nos móveis dessa casa é um pouco difícil. Mas eu vou mexer., 2021. Intervenção em parede, 0,6 x 25 m aprox. Fotografia de Renato Cruz Santos

 

A artista, pesquisadora e curadora brasileira Hilda de Paulo, na condição de imigrante em Portugal, enuncia que “Eu estou na casa do colonizador. Então, mexer nos móveis dessa casa é um pouco difícil. Mas eu vou mexer.”, na ocasião do “Quanto mais debates… A identidade” ao lado de Amadeu Sousa, Sun Peizhao, Vanessa Fernandes, Samuel Beirão e Tiago Sousa, com moderação de Marcos Cruz, realizado no Coliseu Porto Ageas, na cidade do Porto, em Portugal, no dia 21 de junho de 2021.

Para a exposição “Erro 417: Expectativa Falhada” da Galeria Municipal do Porto, com curadoria de Marta Espiridião, Hilda torna obra sua frase-denúncia. O gesto de materializar as palavras com tinta, sobre 25 metros aproximadamente da marquise que recorta o espaço expositivo, denota a importância da escrita enquanto ferramenta de legibilidade. Se a artista se apresenta como “ex-homem-e-agora-mulher-travesti-branca-latino-americana-artista-transfeminista-decolonial-não-heterossexual com vivência relativamente privilegiada em comparação com a parte significativa da população trans*” também o faz pela necessidade de escrever com as tripas, como convoca Gloria Anzaldúa, de se enunciar legível através da linguagem para, talvez – e somente talvez – se fazer visível dentro das engrenagens estruturais que invisibilizam corpas como a sua.

Se trata de marcar a diferença e, também, as localizações de privilégio que usufrui para convocar com seu gesto-linguagem-imagem alianças – apesar das diferenças – entre aquelas que estão nas fronteiras dos estados-nação, nas bordas de categorias hegemonicamente estreitas como “mulher”, nos abismos que se precipitam aos pés de quem vive do fazer artístico em uma estrutura capitalista na qual produtos são revestidos de códigos de barras.

Hilda reitera seu gesto de interpelação: pode a artista brasileira, imigrante e travesti falar? Que som se faz na fronteira? Será possível à estrutura colonial ler nossas escritas que recusam a conciliação com opressores? Será possível, como nos convocou Audre Lorde, tomar para nós as palavras que ainda nos faltam? Será. Pois não nos asfixiaremos no silêncio e, se não nos ouvem, escrevemos. Se não nos veem, pintamos.

 

Maíra Freitas

artista, pesquisadora e curadora

 

HISTÓRICO

[2021] Exposição coletiva Erro 417: Expectativa Falhada. Curadoria de Marta Espiridião. Galeria Municipal do Porto, Porto, Portugal.

 

Hilda de Paulo, Eu estou na casa do colonizador. Então, mexer nos móveis dessa casa é um pouco difícil. Mas eu vou mexer., 2021. Intervenção em parede, 0,6 x 25 m aprox. Fotografias de Renato Cruz Santos

 

Cartão-postal feito a partir da frase-denúncia de Hilda de Paulo com texto de Maíra Freitas e ilustração de Lino Arruda para a exposição “Erro 417: Expectativa Falhada” da Galeria Municipal do Porto (Portugal), com curadoria de Marta Espiridião