À memória de Teresa Ves Liberta, que deixou muitas esperanças a cumprir.

Ao reunir obras de Hilda de Paulo com peças da coleção do Museu Nacional de Soares dos Reis, esta proposta curatorial ativa relações de proximidade e fricção entre tempos, linguagens e modos de ver.
Neste cruzamento, a coleção deixa de ser apenas um repositório estático de objetos para se afirmar como um campo vivo de interpretação: as obras da artista reorientam a atenção para matérias, gestos e narrativas que atravessam a história da arte e a cultura visual, enquanto as peças do Museu introduzem camadas de permanência, em contínua investigação capaz de suscitar novas reflexões.
O MNSR reafirma assim a sua missão de conservar, estudar e comunicar o património, promovendo simultaneamente a produção de conhecimento e o pensamento crítico sobre o presente.
Entre o íntimo e o coletivo, a exposição propõe leituras sobre pertença e deslocamento, sobre a relação com os lugares e os seus legados, e sobre as formas como a matéria e a imagem transportam marcas sociais, políticas e afetivas.
Com esta exposição, o MNSR reforça o seu compromisso com a programação contemporânea em diálogo com as suas coleções, criando condições para que o Museu seja simultaneamente lugar de preservação e de experimentação. Onde meus pés pisam convida a uma visita com uma escuta renovada, reconhecendo no património uma ferramenta para pensar o agora e, na arte de hoje, um modo de reler o que herdámos.
António Ponte
Diretor do MNNSR
SOZINHA SE VAI MAIS RÁPIDO,
MAS JUNTAS VAMOS MAIS LONGE
Foram me chamar,
eu estou aqui, o que é que há?
Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho.
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho.
Dona Ivone Lara
Hilda vem caminhando há muito tempo. Ela entrou na minha vida devagarinho, anos atrás, e hoje minhas palavras encontram o seu caminho. Onde meus pés pisam é a exposição da artista brasileira Hilda de Paulo na cidade do Porto e reúne um conjunto diverso de obras que acompanham as jornadas e encontros que a artista vem tecendo desde que deixou Inhumas, cidade do estado de Goiás, na região Centro-Oeste do Brasil. É desse ponto inicial que partimos.
Para esta exposição, Hilda reúne trabalhos que atravessam pintura, fotografia, objetos e performance, entre outras linguagens que estruturam sua pesquisa. As obras se encontram no espaço como fragmentos de uma trajetória marcada pelo deslocamento, pela escuta e pela construção de vínculos.
Escrever sobre o trabalho de Hilda é, para mim, um exercício especialmente sensível, já que também sou um corpo trans. Empatia é uma palavra talvez desgastada pelo uso, mas é justamente essa experiência que a exposição convoca. A possibilidade de sentir com o outro e de reconhecer, ainda que por instantes, aquilo que nos atravessa.
A dor que emerge dessas histórias não se apresenta de forma única. Hilda a reconfigura e, muitas vezes, recorre ao humor como ferramenta crítica e intelectual. Esse gesto desloca o peso do sofrimento e abre espaço para outras formas de elaboração e de partilha.
Ao percorrer a exposição, a pessoa visitante acompanha o movimento de uma artista cuja vida e obra se constroem no deslocamento. As escolhas que Hilda apresenta não se impõem como respostas fechadas. Elas se oferecem generosamente no espaço e convidam quem passa a caminhar junto, reconhecendo, nos caminhos da artista, ecos de seus próprios percursos.
A exposição apresenta um conjunto de trabalhos que atravessam diferentes linguagens e experiências. Diante dessa multiplicidade, qualquer tentativa de dar conta da complexidade de cada obra neste texto será necessariamente parcial. Ainda assim, torna-se impossível seguir sem mencionar Eu Gisberta. O impacto deste trabalho é tal que ele se desdobra como um mecanismo de identificação para a própria artista.
A escritora e pesquisadora brasileira Amara Moira fala, em uma de suas palestras, sobre a experiência do olhar cisgênero dirigido a um corpo trans e sobre a forma como esse olhar opera. Muitas vezes não se trata de olhares abertamente hostis ou agressivos. São olhares curiosos, que parecem tentar entender o que está diante deles. No entanto, nesse gesto de tentar compreender, acabam também afirmando que aquele corpo é estranho, esquisito, que não faz sentido dentro das expectativas que organizam o mundo.
Esse estranhamento, quando repetido e naturalizado, constrói uma distância entre quem olha e quem é olhado. Aos poucos, aquilo que era apenas curiosidade transforma-se em rejeição, e a rejeição pode tornar-se violência. Quando levado ao extremo por indivíduos cuja vida é regida pelo ódio, esse olhar termina por produzir a morte. Mais especificamente transfeminicídio, já que também é preciso dar nome às coisas.
Infelizmente é nesse ambiente de medo e transfobia que corpos trans são ensinados a viver. Como viver com medo? Como transformar essa dor em algo mais? Como ser livre?
Talvez essa dor se assemelhe à de uma tatuagem que cicatriza e deixa uma marca permanente. A tatuagem não existe sem o furo da agulha, assim como certas memórias não existem sem a experiência da dor. O gesto que fere também é o gesto que escreve. O trabalho de Hilda me machuca porque vejo ali sua dor e sua solidão, que em algum lugar também são as minhas, como também foram as de Gisberta.
A exposição se abre como essa ferida e como a casca que ela forma quando cicatriza. Como as rachaduras de um pé que caminha descalço. É entre essas feridas e o poder curativo das cicatrizes que o trabalho de Hilda se revela.
Ainda assim, seguimos adiante. A partir da série Em Umas Bandas (Dia e Noite), nasce Rota Solitária, que passa a estruturar o percurso da exposição como um todo. Toda vida é, em alguma medida, uma rota solitária, e muitas pessoas artistas encontram em seu trabalho algum tipo de abrigo, ou ao menos o procuram.
Nesse conjunto de sessenta pinturas de cinco por sete centímetros, dispostas em uma das paredes do espaço expositivo, a sequência de pontos e cores constrói paisagens de uma longa viagem que ainda não terminou.
Essas pinturas aparecem quase como cartões postais que não revelam completamente uma paisagem, mas convidam a pessoa visitante a explorá-la ao lado de Hilda. A jornada mais longa começa sempre com um primeiro passo. Essas pequenas pinturas surgem como os calos que se formam nos pés durante uma travessia longa e exaustiva.
A ideia de postal se intensifica quando, entra em jogo, a citação de seu texto Emi Koyama passou aqui. Hilda tem uma relação com as palavras que me comove profundamente. Um cartão postal não é apenas a lembrança de um lugar. Ele também é memória de alguém. Essa memória, ativada pelos sentidos, muitas vezes chega a tocar.
Nesta exposição, Hilda convida para caminhar com ela não apenas o público, mas também outras pessoas artistas. Estão presentes trabalhos de Anita Malfatti, Índigo e Tales Frey, convidades a participar deste percurso. Algumas obras do acervo do Museu Nacional Soares dos Reis também entram em diálogo com a produção da artista, ampliando o campo de relações que atravessam a exposição.
Onde meus pés pisam é a mesma terra por onde tantas outras caminharam. Nesta exposição, Hilda nos convida a caminhar com ela. E talvez seja justamente nesse gesto de caminhar juntas que o caminho se torna possível.
Agrippina R. Manhattan
artista, curadora e pesquisadora
Ver folha de sala em: http://ciaexcessos.com.br/ciawp/wp-content/uploads/2026/03/Folhadesala-HP-2.pdf
OBRAS

1) Anita Malfatti, Árvore Amarela, déc. de 50. Aquarela sobre papel, 17 x 13 cm | Hilda de Paulo, 75 anos depois, homem é detido suspeito de provocar incêndio com isqueiro (Depois de Anita Malfatti), 2025. Acrílico sobre tela, 17 x 13 cm;
2) Hilda de Paulo, Rota Solitária (“As Quatro Estações” de Sandy & Jr.), 2025. Acrílico sobre tela, 30 x 40 cm;
3) Hilda de Paulo, Eu Gisberta, 2015. Fotografia e texto-Manifesto, 100 x 100 cm;
4) Hilda de Paulo, quando as espécies se encontram, 2023. Fotografia, 40 × 28,98 cm;
5) Hilda de Paulo, Querido diário… (Depois de Nelson Leirner), 2026. Colagem sobre fotografia, 120 x 80 cm;
6) Hilda de Paulo, J.A.D., 2019. Acrílico sobre tela, 20 × 20 cm;
7) Aurélia de Souza, Academia – Modelo feminino nu sentado em vista lateral, s/d. Óleo sobre tela, 47 × 38 cm;
8) Índigo, Desenho para a capa do livro “Emi Koyama passou aqui” de Hilda de Paulo, 2026. Lápis-de-cor sobre papel, 21 x 29,7 cm;
9) Alberto Aires de Gouveia, Retrato de rapaz, 1914. Pastel sobre papel colado em tela, 70 × 59 cm;
10) Hilda de Paulo, Fragmento do texto Emi Koyama passou aqui, 2024. Vinil colante, 70 × 42 cm;
11) Hilda de Paulo, Como vai você, Sr. Curador?, 2025. Instalação com oito fotografias (42,2 x 59,5 cm cada), 168,8 x 165 cm aprox.;
12) Hilda de Paulo, Pessoas Cis não esperam de pessoas Trans e Travestis a intelectualidade, 2023. Vinil colante, 150 × 19,7 cm;
13) Hilda de Paulo, E não posso ser eu também uma mulher? (Depois de Sojourner Truth, bell hooks, Monique Wittig e Letícia Nascimento, e, também, de Claudia Rodríguez), 2021. Ilustração digital, 165 x 120 cm
14) Hilda de Paulo, A Amante Ideal (Depois de Emília Nadal), 2021. Lata cilíndrica em papel kraft com alça e tampa costurada de couro, e revestida com impressão da imagem do rótulo, 28,5 (altura) x 21 (circunferência) x 45,5 (circunferência da alça) cm;
15) Hilda de Paulo, Hilda de Paulo (Brincos), 2025. Objeto-pintura, 17,5 x 17,5 x 46 cm aprox.;
16) Hilda de Paulo, Hilda de Paulo (Sapatos), 2021. Objeto-pintura, 58 x 28 x 9 cm;
17) Hilda de Paulo, Hilda de Paulo (Luvas) (Depois de Miley Cyrus), 2026. Objeto-pintura, 60 × 30 × 30 cm aprox.;
18) Hilda de Paulo, Porque não houve grandes pessoas trans artistas em Portugal? (Depois de Linda Nochlin), 2026. Letreiro confeccionado em MDF 15 mm com recorte especial e pintura automotiva;

19) Hilda de Paulo, Rota Solitária, 2024-26. Acrílica sobre tela, 5 x 7 cm cada;
19.1) Rota Solitária #60 (Tales Frey – Vampiro), 2026;
19.2) Rota Solitária #32, 2025;
19.3) Rota Solitária #07, 2024;
19.4) Rota Solitária #29 (Frida Kahlo), 2025;
19.5) Rota Solitária #15 (Borboleta), 2025;
19.6) Rota Solitária #33 (Ygor Landarin), 2026;
19.7) Rota Solitária #20, 2025;
19.8) Rota Solitária #41 (Encruzilhada), 2025;
19.9) Rota Solitária #43, 2025;
19.10) Rota Solitária #50 (“Amores”, de Marissa Mur & Luis Jimenez), 2026;
19.11) Rota Solitária #54 (“Purple Rain”, de Prince and the Revolution), 2026;
19.12) Rota Solitária #27, 2025;
19.13) Rota Solitária #01, 2024;
19.14) Rota Solitária #47, 2025;
19.15) Rota Solitária #13, 2025;
19.16) Rota Solitária #51 (Caio Brabo), 2026;
19.17) Rota Solitária #16, 2025;
19.18) Rota Solitária #18 (Suzana Queiroga), 2025;
19.19) Rota Solitária #25 (Húsavík), 2025;
19.20) Rota Solitária #45 (“Before the Goodbye”, de Britney Spears), 2026;
19.21) Rota Solitária #58 (Avô, Mãe, Eu), 2026;
19.22) Rota Solitária #35, 2025;
19.23) Rota Solitária #02, 2024;
19.24) Rota Solitária #06, 2024;
19.25) Rota Solitária #08, 2024;
19.26) Rota Solitária #57 (Rute Rosas), 2026;
19.27) Rota Solitária #10, 2025;
19.28) Rota Solitária #09 (Meu Coração), 2025;
19.29) Rota Solitária #48 (Yayoi Kusama), 2025;
19.30) Rota Solitária #40 (“Charme”, de Liniker), 2026;
19.31) Rota Solitária #49 (Joana Alves), 2026;
19.32) Rota Solitária #14 (Teresa Ves Liberta), 2024;
19.33) Rota Solitária #03, 2024;
19.34) Rota Solitária #11, 2025;
19.35) Rota Solitária #31 (Sonia Delaunay), 2025;
19.36) Rota Solitária #52 (Alex Júnior), 2026;
19.37) Rota Solitária #24, 2025;
19.38) Rota Solitária #19 (Tarsila do Amaral), 2025;
19.39) Rota Solitária #55 (Freda Paranhos), 2025;
19.40) Rota Solitária #34 (Sarah Affonso), 2026;
19.41) Rota Solitária #39, 2026;
19.42) Rota Solitária #36, 2025;
19.43) Rota Solitária #04, 2024;
19.44) Rota Solitária #05, 2024;
19.45) Rota Solitária #21, 2025;
19.46) Rota Solitária #59, (Inês Grosso), 2026;
19.47) Rota Solitária #42, 2025;
19.48) Rota Solitária #56, 2025;
19.49) Rota Solitária #23 (Melquíades), 2025;
19.50) Rota Solitária #44 (Tânia Dinis na casa da avó Ermelinda), 2026;
19.51) Rota Solitária #30 (Pai), 2025;
19.52) Rota Solitária #46 (“As 4 Estações”, de Sandy & Jr.), 2025;
19.53) Rota Solitária #37 (Flávio Botelho), 2025;
19.54) Rota Solitária #22 (Félix González-Torres), 2025;
19.55) Rota Solitária #17, 2025;
19.56) Rota Solitária #28, 2025;
19.57) Rota Solitária #12 (Serpentes), 2025;
19.58) Rota Solitária #26, 2025;
19.59) Rota Solitária #38 (Teresa Coutinho), 2025;
19.60) Rota Solitária #53 (Patricia Ribeiro), 2026;
20) Hilda de Paulo, Em Umas Bandas (Noite), 2020-24. Acrílica sobre tela, 5 x 7 cm cada;
21) Hilda de Paulo, Em Umas Bandas (Dia), 2020-24. Acrílica sobre tela, 5 x 7 cm cada.
Programa Paralelo
17 de abril de 2026, às 11h
Visita-guiada com Hilda de Paulo e Índigo
08 de maio de 2026, às 15h
Visita-guiada com Hilda de Paulo
08 e 09 maio de 2026
No âmbito do programa paralelo da exposição ONDE MEUS PÉS PISAM, de Hilda de Paulo, o Museu Nacional Soares dos Reis associa-se ao Cinema Trindade para apresentar o ciclo de cinema Dizer Mundo. A programação reúne a versão remasterizada em 4K de Super Xuxa Contra Baixo Astral (1988), de Anna Penido, e Orlando, Minha Biografia Política (2023), de Paul B. Preciado, como formas distintas e potentes de pensar a travessia. Em registos diversos, ambos propõem deslocamentos que atravessam corpos, identidades e modos de existir. Em diálogo com a exposição, o ciclo aproxima-se da ideia de caminhada como gesto de invenção de si e do mundo, em que narrar, fabular e performar se tornam modos de tornar visíveis outras possibilidades de vida.
15 de maio de 2026, às 16h
Performance Be (on) you, de Tales Frey, com participação de Hilda de Paulo
FICHA TÉCNICA
Ministra da Cultura, Juventude e Desporto: Margarida Balseiro Lopes | Secretário de Estado da Cultura: Alberto Santos | Museus e Monumentos, E.P.E., Conselho de administração, Presidente: Alexandre Nobre Pais | Vogais: Esmeralda Paupério e Sónia Teixeira | Museu Nacional Soares dos Reis, Diretor: António Ponte | Artista: Hilda de Paulo | Curadoria Executiva: Rui Pinheiro | Texto: Agrippina R. Manhattan | Tradução: Emanuela Siqueira | Gestão da Coleção de Pintura: Ana Paula Machado e Ana Nascimento | Conservação e Restauro: Salomé Carvalho e Filipe Fernandes | Montagem: Jaime Guimarães, Marco Mendanha e Paulo Martins | Comunicação: Felicidade Ramos e Maria Reis | Parceria: Cinema Trindade | Agradecimentos: Ana Bárbara Barros, Agrippina R. Manhattan, Bruno Arsati, Carlos Magalhães, Emanuela Siqueira, Índigo, Lúcia Helena, Lumen – Imaging & Design Studio, Mãos Talentosas – Soluções Globais, Moldursant – Papelaria, Molduras e Belas Artes, Rubens Rangel, Suzana Queiroga, Tales Frey | 28 de março a 24 de maio de 2026
Clipping
Cultura de Borla, 21 de março de 2026
Viral Agenda, 22 de março de 2026
Agenda Porto, 23 de março de 2026
Pportodosmuseus.pt, 23 de março de 2026
Museus e Monumentos de Portugal, 24 de março de 2026
Agenda Cultural Porto, 24 de março de 2026
Cultura Portugal, 01 de abril de 2026

Jornal de Notícias, 30 de março de 2026