Tales Frey

“Estes corpos fora da (hetero)norma já são resistência desde sempre”, por Mariana Duarte (2018)

 

Esta entrevista de Mariana Duarte foi publicada em: Público (12 de novembro de 2018).

 

O artista, performer e crítico de arte Tales Frey, curador de Adorno Político, fala sobre os vários artistas e corpos fora das normas de género e dos padrões de beleza dominantes que convivem nesta exposição. Brasileiro a residir em Portugal, diz que, com Bolsonaro no poder, os artistas no Brasil terão provavelmente de “optar pelo discurso mais metafórico para driblar uma violenta tirania”.

 

MARIANA DUARTE: Qual é a abordagem artístico-política adjacente à curadoria desta exposição?

 

TALES FREYAdorno Político tem uma relação directa com a minha tese de doutoramento desenvolvida na Universidade de Coimbra e defendida em 2016, por meio da qual reflecti sobre a mobilização do corpo em práticas performativas e ritualísticas que se articulassem, de formas distintas, com a moda e a religiosidade. A performance e a body art estão muito presentes em grande parte dos trabalhos que desenvolvo e dos que me interessam em arte. Com Mãe Paulo, o meu parceiro de vida e arte, com quem mantenho a eRevista Performatus, realizei uma série de eventos relacionados com a performance, como a Mostra Performatus #1 na Central Galeria de Arte em São Paulo e a Mostra Performatus #2 no SESC Santos, além da exposição Trabalha-dores do Cu no Maus Hábitos, em 2015. Em todos esses eventos, propusemos pensar o corpo como signo de micropolíticas variadas e, naturalmente, Adorno Político é um desdobramento dos projectos anteriores.

 

MARIANA DUARTE: Em relação aos artistas escolhidos, o que os une, o que os diferencia?

 

TALES FREY: O título dado à exposição não é nada metafórico. O elo entre um(a) artista e outro(a) é justamente a maneira como os seus corpos se relacionam com adornos ou indumentos sob a estratégia de criarem versões ou subversões, sob o anseio de oferecerem posicionamentos críticos a quem acessa cada uma das obras. Todas as obras reavaliam o corpo taxado por belo através da ironia ou da superexposição de uma norma vigente codificada, e todas elas ponderam sobre o que o sistema hegemónico estimula para ser consumido. Algumas e alguns artistas detonam a tão ultrapassada heteronormatividade compulsória, como é o caso da Lyz Parayzo, da Élle de Bernardini e Rafael Bqueer, outras e outros os preconceitos raciais (Tiago Sant’Ana e Suelen Calonga), enquanto Priscilla Davanzo, André e Letícia Parente, Gal Oppido, Marcela Tiboni e Joana Bueno ironizam os padrões de beleza. Lenora de Barros, Nino Cais e Renan Marcondes propõem alternativas mais poéticas, mas sem deixarem de lançar críticas incisivas relacionadas com o aprisionamento dos corpos. Já em Andressa Cantergiani, percebemos uma sugestão mais utópica de harmonização do seu corpo com o mundo e, assim, com as diferenças.

 

MARIANA DUARTE: Com Jair Bolsonaro eleito presidente do Brasil, considera que Adorno Político ganha uma dimensão de resistência ainda mais forte? O que mudará no contexto artístico do país?

 

TALES FREY: O futuro é incerto e, no caso do Brasil, espero que seja menos terrível do que tudo o que já foi anunciado pelo próprio Bolsonaro, ao proferir o seu ódio contra tudo o que não é modo de vida hegemónico, encorajando pessoas à intolerância. Estes corpos fora da (hetero)norma e da cisnormatividade já são resistência desde sempre. Com um governo fascista pela frente, temos que fortalecer ainda mais essa resistência e não tenho dúvidas de que é isso que irá acontecer. Na fase de elaboração do projecto, pensei que fazer a exposição do outro lado do oceano, num país com um pouco mais de liberdade, pudesse ser uma forma de denunciar a absurdidade que já previa acontecer no Brasil, mas já não sei se isso faz sentido depois de ver que em Portugal também assistimos a actos horrorosos de censura – basta pensarmos no caso da exposição do Robert Mapplethorpe em Serralves para entendermos que não há o livre-arbítrio que pensávamos existir. Imagino que, daqui para frente, quem estiver a produzir arte no Brasil terá de optar pelo discurso mais metafórico para driblar uma violenta tirania.