Tales Frey

Indicadores da Carne (2020)

 

Vista da vitrine do espaço, na qual está a videoinstalação O Corpo Nunca Existe em Si Mesmo – 120bps (2020)

 

Subvertendo os códigos hegemônicos que ditam uma constituição padronizada de um corpo consensual submisso ao consumismo conspícuo, Indicadores da Carne apresenta massas corpóreas decompostas e reconstruídas, ora transformadas em gestos escultóricos – que incorporam noções da pintura, do vídeo, da colagem e dos processos de montagem do cinema para desestabilizar contextos (corpos e ambientes) – ora transfiguradas em quase ideogramas quando traçadas de um modo tão sintético que se tornam próximas de princípios caligráficos, expondo um conjunto lexical que epigramatiza o falo/logocentrismo ainda tão perseverante como princípio de controle em prol de uma cisheteronorma quotidianamente assimilada em massa.

 

Encolhido a um canto, o corpo

Por Eduarda Neves

 

O jogo vale a pena porque não se sabe como vai terminar.

— Michel Foucault

 

O corpo enquanto instrumento crítico e lugar de experimentação do sujeito, ferramenta de reivindicação orgiástica ou espaço de libertação dos constrangimentos sociais, constitui-se como suporte privilegiado no território da arte contemporânea, no qual situamos os Indicadores da carne, de Tales Frey.

Desafiando as formas clássicas do pensamento, as obras propostas afastam a experiência do corpo de um qualquer enunciado ontológico sustentado em espaços de tensão binária. Entre o homo oeconomicus, construído pela teoria económica desde o século XVIII, e o corpus contemporâneo e neoliberal, é o sexo que parece configurar a raridade, articulando o império das representações económicas com o comércio das identidades. Inscrevendo-se no dispositivo da concorrência, da falta e das satisfações ilimitadas, esta aproximação ao corpo parece oscilar entre a sua invasiva presença e a sua vulnerável condição. Sabemos que dizer sim ao sexo não significa dizer não ao poder. E esta é uma das lições foucaultianas.

Nesta cerimónia processual, que é também uma espécie de cenografia  dominada por uma certa fisicalidade espectacular distante do sentido de um qualquer diário íntimo, o sexo – colagem, que é corpo e que é carne, afirma-se como pura semiótica para cumprir a missão de estar onde não o vemos. Diríamos, com Barthes, que cada um, aqui, se afirma diferente, porque se pensa, não como uma pessoa, mas como uma necessidade.

Há um lado do corpo que diz sempre a mesma coisa. Vamos foder.

 

FICHA TÉCNICA

Tales Frey: Indicadores da Carne | Texto Crítico de Eduarda Neves | Galeria Ocupa, Porto, Portugal | De 19 de setembro a 24 de outubro de 2020.

 

Vídeo promocional da exposição Indicadores da Carne (2020) de Tales Frey na Galeria Ocupa na cidade do Porto em Portugal

 

Vista da vitrine do espaço, na qual está a videoinstalação O Corpo Nunca Existe em Si Mesmo – 120bps (2020)

 

Vista do balcão principal onde está a escultura Pé 43 Sem Par (2020). A escultura é feita com camadas de papel branco e cola

 

Vista da área do expositor de carnes, onde se encontra o conjunto de croquis processuais Tucking (2020). As peças são feitas de papeis reciclados pintados com tinta acrílica e suspensos em cabides por ganchos dispostos no próprio espaço

 

Vista do frigorífico, onde se encontra o croqui processual da peça cinética Rótula. Este croqui é feito de papel rígido recortado, estando todos eles presos em um único parafuso de 100 cm

 

Sequência de vídeos complementares à exposição:

 

Tales Frey, Dos Gestos que Sobrevivem em Nós, 2020. Videoarte, 4’29”

 

Tales Frey, Cento e Trinta e Duas Figuras Corpóreas Como Mediações Sígnicas, 2020. Videoarte, 2’48”

 

Tales Frey, O Corpo Nunca Existe em Si Mesmo – 120 bps, 2020. Videoinstalação, 5’53”