Tales Frey

Aparelho (2019)

 

No violento e autoritário contexto da ditadura militar brasileira (1964-1985), denominava-se “aparelho” o local onde um determinado grupo de ativistas de ideais afins e contrários ao governo da época se agrupava para organizar reuniões, maquinar estratégias, guardar materiais de propaganda, esconder armas, munições, dinheiro, entre outras coisas. O aparelho era também o ambiente (quase) seguro dessas pessoas, onde elas podiam se refugiar em situações de risco, partilhar suas aflições, mas também os seus desejos e as suas conquistas. 

Tal triste período da história do Brasil foi recentemente despertado por facínoras da estirpe mais indigna e eis que, em 2016, a Constituição Brasileira foi seriamente ferida e um desonesto golpe de estado abriu caminho para que, em 2018, um sociopata – que literalmente exaltou um torturador como herói – conseguisse chegar à presidência por meio de uma eleição comprovadamente pautada na fraude, na calúnia e difamação por meio das fake news e na mais completa má-fé.

A exposição “Aparelho” – a qual dá continuidade temática à “Adorno Político” (2018) – alia dezoito artistas com ideais políticos próximos na medida em que todXs se opõem ao atual regime truculento brasileiro estruturado na mais nítida necropolítica, que combina neoliberalismo e fascismo, desumanizando existências e exterminando vidas em prol do capital. Em suas abordagens, tais artistas (também ativistas), em criações festivas, emancipadoras, sarcásticas, lúdicas ou simplesmente documentais, denunciam genocídios, repressões, preconceitos e retrocessos num ambiente de militância e afeto, onde podemos intuir o preparo para a batalha, mas também o cuidado para irmos fortes e conscientes para a luta.

 

Tales Frey

curador

 

ARTISTAS PARTICIPANTES
Alice Yura, Arissana Pataxó, DUDX, Ed Marte, Grasiele Sousa a.k.a Cabelódroma, Helô Sanvoy, Letícia Maia, Mãe Paulo, Marcela Tiboni, Marie Carangi, Maurício Ianês, Orlando Vieira Francisco, Panmela Castro, Paul Setubal, Pêdra Costa, Priscilla Davanzo, Sama e Yhuri Cruz 

 

OBRAS

 

 

1) Yhuri Cruz, Monumento à Voz de Anastácia, 2009. Instalação;

2) Marie Carangi, Teta Lírica, 2017. Videorregistro de performance, 4’10’’;

3) Panmela Castro, Revanche, 2019. Vídeo, 3’43’’;

4) Paul Setúbal, Zeitgeist, 2015. Vídeo, 1’43’’;

5) Priscilla Davanzo, 口付け, 2016. Videopoesia, 5’34’’;

6) Arissana Pataxó, Rede de Tucum, 2019. Vídeo, 1’58’’;

7) Ed Marte, Réquiem para uma Noiva, 2017. Vídeo, 7’05’’;

8) Alice Yura, 16:26:34, 2014. Fotografia, 100 x 80 cm;

9) Marie Carangi, Oculteta, 2018. Fotografia, 6 x 9 cm; 

10) Grasiele Sousa a.k.a. Cabelódroma, a situação DA brasileira, 2016. Vídeo, 9’03’’;

11) Mãe Paulo, se não puder também dançar, esta não é a minha revolução, 2019. Letreiro em MDF 15 mm com recorte especial e pintura automotiva, 146 x 140 cm;

12) Pêdra Costa, STA – Solange, tô Aberta!, 2017. Vídeo, 6’21’’;

13) DUDX, Ronald de Chernobyl, 2016. Fotografia, 75 x 50 cm;

14) Maurício Ianês, Queda, 2018. Fotografia, 95  x 140 cm;

15) Sama, Hell, 2019. Objeto, 130 x 50 x 15 cm;

16) Letícia Maia, Tabuleiro I, 2019. Objeto, 40 x 50 cm;

17) Marcela Tiboni, Livros para Atacar, 2017. Objetos com dimensões variáveis;

18) Helô Sanvoy, Desvio para o Branco, 2013. Videoinstalação;

19) Orlando Vieira Francisco, Território da Violência e Opressão (O Cerne da Questão), 2019. Impressão a jato de tinta em poliéster, ferro e verniz, 118 x 92 cm.

 

Folha de sala disponível aqui.

 

Exposição Aparelho (2019) com curadoria de Tales Frey. Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal. Fotografias de José Caldeira

 

Exposição Aparelho (2019) com curadoria de Tales Frey. Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal. Fotografias de José Caldeira

 

Exposição Aparelho (2019) com curadoria de Tales Frey. Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal. Fotografias de José Caldeira

 

Programa Paralelo da Exposição Aparelho

14 de novembro de 2019, às 21h30 | Sala de Exposições

Performance Solange, tô aberta!, de Pêdra Costa

Solange, tô aberta! ou STA! é um show de Baile Funk Queer Punk, que existe desde 2006. Misturando e incorporando contraculturas undergrounds, usa o Baile Funk (música eletrônica das favelas do Rio de Janeiro) como uma ferramenta artística de resistência e política, promovendo uma explosão dançante. O projeto fala sobre questões relacionadas a sexualidades, gêneros, identidades e estereótipos. Já se apresentou no Brasil, Bolívia, Dinamarca, Noruega, Itália, Polônia, Espanha, Alemanha, Áustria, Grécia e França.

 

Pêtra Costa, Solange, tô aberta!. Performance realizada no Porto, Portugal. Novembro de 2019. Fotografias de José Caldeira

 

14 de novembro de 2019, às 21h30 | Sala de Exposições

Performance Amarga, de Letícia Maia

A frase “Pátria Amada, Brasil” está no logo que estampa as medidas do governo atual, é a cara que querem dar ao Brasil, um patriotismo piegas e perigoso, carregado de conservadorismo moral. A imagem de um Brasil alegre, justo e doce, que vive de carnaval e futebol, esconde a violência descomunal, desigualdade social que, quando o nova marca do governo foi lançada, rapidamente surgiram analogias na internet, substituindo “Pátria Amada, Brasil” pela frase “Pátria Amarga, Brasil” ou “Pátria Armada, Brasil” trazendo a tona as contradições que vivemos no país.

 

Letícia Maia, Amarga. Performance realizada no Porto, Portugal. Novembro de 2019. Fotografias de José Caldeira

 

Videorregistro da abertura da exposição coletiva Aparelho por Tânia Dinis. Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal, 2019

 

Exibição de Filmes

11 de dezembro de 2019, às 17h | Sala de Espetáculos

Documentário Quem Matou Eloá?, de Lívia Perez

Brasil, 2015, Doc., 24’, Cor, M/Livre, Com Legenda em Inglês

Introdução/apresentação do documentário por Isabeli Santiago

Em 2009, Lindemberg Alves de 22 anos invadiu o apartamento da ex-namorada Eloá Pimentel de 15 anos, armado, mantendo-a refém por cinco dias. O crime foi amplamente difundido pelos canais de TV. “Quem matou Eloá?” traz uma análise crítica sobre a espetacularização da violência e a abordagem da mídia televisiva nos casos de violência contra a mulher, revelando um dos motivos pelo qual o Brasil é o quinto num ranking de países que mais matam mulheres.

 

11 de dezembro de 2019, às 17h | Sala de Espetáculos

Documentário Espero tua (Re)volta, de Eliza Capai

Brasil, 2019, Doc., 93’, Cor, M/Livre, Com Legenda em Inglês

Um retrato do movimento estudantil que ganhou força a partir do ano de 2015, ocupando escolas estaduais por todo Brasil. Acompanhando três jovens do movimento e com imagens de arquivo de manifestações desde 2013, o documentário tenta compreender as ocupações e as suas principais pautas a partir do ponto de vista dos estudantes envolvidos.

 

Conversas

12 de dezembro de 2019, às 19h | Sala de Exposições

Palestra/Conversa Dez anos após o fim com Sama

Em literatura, cinema ou no universo das Histórias em Quadrinhos, eu sempre curti uma “distopia”. Uma visão sombria de um futuro punitivo para a nossa cruel negligência humana… Mas confesso que nunca imaginei que iria vê-la acontecer de verdade, mesmo depois de tantas guerras e crises… Penso que devíamos ter aprendido mais com a nossa própria história. O curioso, é que, com exceção de algumas zonas em conflito, oficialmente o mundo está em paz. Mas mesmo assim podemos identificar no globo, várias características distópicas ocorrendo a nossa volta, tais como nas obras: “1984”, “Admirável Mundo Novo”, “Choque do Futuro”, “Fahrenheit 451” entre outras… Identificamos na nossa realidade, sombrias previsões destes livros que estão a acontecer, inclusive até em alguns países que declaram-se como democracias laicas. Enquanto você lê estas linhas, nalguns sítios deste planeta está a ocorrer: a proibição de publicações e leitura de determinados livros, a censura de exposições de arte, crenças fundamentalistas a substituir conceitos científicos, gentrificação e monetização do indivíduo, destruição sistemática do meio ambiente, segregação econômica e racial entre povos, além de outras aberrações em nome da nova ordem que quer tomar o universo para si. É por isso que produzo arte, para lutar contra isso.

 

14 de dezembro de 2019

Às 14h | Ponto de encontro da caminhada pela cidade do Porto: Loja Pretinho do Japão, Rua do Bonjardim, 496

Às 17h | Conversa | Sala de Exposições

Caminhada/Conversa Caminhar é um Ato Político com Coletivo MAAD – Mulheres, Artes, Arquitetura e Design

Partindo da análise de alguns elementos da toponímia portuense questionamos como a experiência do espaço público em determinados locais da cidade pode variar a partir das subjetividades que se movem e ocupam estes mesmos espaços considerando parâmetros como raça, gênero, classe, nacionalidade, orientação sexual. Neste contexto questiona-se quão representativo e inclusivo é o espaço-público? Como se dá a sua produção? E quem ela representa?

A proposta assim se desenvolve a partir de uma caminhada pela cidade do Porto onde os participantes poderão identificar estes marcos/locais, conhecendo as narrativas que os fundamentam, entendendo o seu contexto de origem para que se discuta o que representam hoje.

 

FICHA TÉCNICA

VáriXs Artistas: Aparelho | Espaço de Intervenção Cultural Maus Hábitos, Porto, Portugal | Curadoria e Texto: Tales Frey | Artistas: Alice Yura, Arissana Pataxó, DUDX, Ed Marte, Grasiele Sousa a.k.a Cabelódroma, Helô Sanvoy, Letícia Maia, Mãe Paulo, Marcela Tiboni, Marie Carangi, Maurício Ianês, Orlando Vieira Francisco, Panmela Castro, Paul Setubal, Pêdra Costa, Priscilla Davanzo, Sama e Yhuri Cruz | Direção de Produção: Mariana Vitale | Assistência de Produção: Catarina Rangel Pereira | Montagem: José Martins | Limpeza: Manuela Pinto | Gestão de Conteúdos Digitais e Comunicação: Catarina Rangel Pereira, Helena Trabulo e Mariana Vitale | Impressão: Lumen | Assessoria de Imprensa: Beatriz Vasconcelos | Fotografia: José Caldeira | Registo Audiovisual: Tânia Dinis | Colaboração: João Abreu, José Pedro, Julien Fernandes e Manuel César | Estágio: João Vinagre | Organização: Saco Azul e Maus Hábitos | 14 de novembro a 30 de dezembro de 2019

 

Clipping

Revista Umbigo, 10 de dezembro de 2019

Gerador, 15 de novembro de 2019

Jornal Observador, 12 de novembro de 2019

TimeOut Porto, 11 de novembro de 2019

 

Flyer de divulgação da exposição coletiva Aparelho (2019)