Tales Frey

Entre a Tensão e o Delírio (2021)

 

Tales Frey explicita a arte através do corpo e sua semiótica em um viés transdisciplinar diversificado, que abrange inusitados signos e significados. Propõe uma ordem estética, em constante movimento, que vislumbra novos conceitos e possibilidades do indivíduo e sua identidade na atual conjuntura social, cujo resultado cinge a ressignificação de silhuetas (in)definidas pelo gênero em suas intersecções de corpos, que caracteriza a peculiaridade de seus trabalhos. 

Utiliza os mais variados meios de suporte para materializar suas criações artísticas, como fotografias, vídeos, pinturas, desenhos, esculturas, dentre outros, que revelam a performance como veículo principal em seu método investigativo, centralizada na arte do corpo. Seus trabalhos expõem traços de sua formação nas artes cênicas e nas artes visuais, e compreende a afetividade performativa da dança, que atrela o processo criativo desde sua formação genealógica, presente na compleição estética dos movimentos e disposições corporais. Nesta harmonia, há um resgate da convivência de Tales com os grupos de dança dirigidos e arquitetados por sua mãe, Silvana Frey, que combinava expressões rítmicas e de movimentos sonoro-visuais, aplicados por ela através de suas criações artísticas, transmitidas como meios de inspiração e arrebatamento, ocasionados pela narrativa da cadência dos corpos interligados/conectados.

O artista brasileiro atualmente reside em Portugal, administra sua arte e exposições em diversos países, onde conquistou reconhecimentos e premiações. Utiliza artifícios que consolidam subversões didático-reflexivas em suas obras, as quais recodificam e contestam referências hegemônicas e opressoras, vigorantes em diversas práticas culturais do planeta. Alude às citações conjecturadas e impugnadas através do manifesto entre o contexto e o estético, enfatizando a expropriação de práticas e signos cominados e heterogêneos. Os resultados dos trabalhos teórico-práticos perpetuam uma análise do sujeito em inúmeras desconstruções cisnormativas, que propõem variantes através da utilização de indumentos binários, que oferecem reflexões críticas e políticas, contestam os rótulos sociais e se transmutam entre peças escultóricas, compostas por elementos alternados. Tales proporciona uma harmonização simbólica da realidade em inúmeras leituras do sujeito, que transcende os conceitos pré-estabelecidos, e contesta para a abdicação das medidas normativas em que o próprio sujeito se reprime.

Os trabalhos expostos em “Entre a Tensão e o Delírio” refletem a formação simbólica do corpo, difundida através de códigos padronizados, revertidos em linguagens gráficas e materializadas através dos conceitos híbridos de cada obra exposta. Os contornos da concretização individual dos trabalhos estão dialogados com a matéria-prima elegida para esculpir: material reciclado. Os conceitos de reciclagem revogam compreensões infligidas pela sociedade contemporânea, na qual o material contempla uma função única e pré-estabelecida, apesar das crises proporcionadas pelos delírios do consumismo desenfreado, impulsionados pela fetichização e obsolescência de produtos. Atreladas à ideia de transmutação, as obras expostas almejam examinar, revolver e reconstruir espaços sociais, assim como ocorre com o processo de reciclagem, no vislumbre de impulsionar reflexões de práticas culturais, ampliando as possibilidades de ressignificações e modificação como representa o papel machê em uma articulação com a disposição de gêneros no viés da descoberta e redescoberta do sujeito em suas relações e possibilidades, através das manifestações artísticas.

A mescla de elementos advindos da dança e das artes cênicas está bastante presente na videoperformance “O Corpo Nunca Existe em Si Mesmo – 120 bps”. A dança-escultórica sugere movimentos de corpos em uma constante comunicação semiótica, omite a alusão de uma identidade comum e óbvia, unificada pelo imaginário sonoro e imprevisível. O indumento e o contorno dos corpos neutralizam a (bi)dimensão, que condescende com os movimentos livres embora ritmo-temporais, pré-estabelecidos pela assiduidade do ser interdependente através das batidas do metrônomo.

A escultura “Pé 45 Sem Par” acarreta um diálogo entre elementos contrapostos, que atuam na composição de um único corpo, através do contraste binário e da neutralidade do gênero. Posicionada como instrumento criativo da arte corpórea, a estrutura compreende representações: o contorno dos músculos das pernas “masculinas”, desperta uma sensação de peso, contraposto aos sapatos “femininos”, que se mesclam ao leve material utilizado para esculpir as pernas abertas, o papel machê. As duas extremidades dos membros percorrem inúmeras possibilidades de expressar identidades e suas reproduções, que readéquam aos conceitos de um só corpo, inclusive na alusão à posição decomposta da dança.

A escultura cinética intitulada “Thighlighting” também agrega os componentes contrapostos – as pernas e os sapatos – arranjados pela alusão ao efeito visual de movimento circular, onde há um ponto comum que prende as pernas semelhantes, conduzindo ao efeito “leque”. O movimento elaborado em conjunto forma uma peça única e singular, que representa uma dualidade entre a proporção da aplicação da força e o distanciamento das unidades compostas, em uma referência cíclica que articula a reciclagem, indefinidas pela ideia de início e fim em sua constante.

Os pênis contorcidos como corpos em movimentos de dança remetem às interpretações plurais e amplas do ser social em seus entendimentos e ações em “Dupla Penetração”. A presença da escultura corpórea, delimitado através da construção biológica como sujeito e sua conexão com o gênero, possibilita uma reiteração do senso comum sobre uma única perspectiva, cujos signos “apontam” para diversos caminhos, possibilidades e interpretações de quem os interpreta orientados pelos pênis.  

As simbologias que entornam a modelação do componente reutilizado e neutralizado em “Entre a Tensão e o Delírio”, captadas nas suas singularidades e subversividades, portam uma relação sólida com a arte da dança em seus posicionamentos e efeitos, representada pela rigidez dos corpos situados entre a arte e a atuação enquanto sujeitos indeterminados pelo gênero, inseridos em meio à exaltação e delírios da sociedade contemporânea e suas demandas. 

As exponentes dos corpos de Tales Frey possuem condutas políticas e sensoriais que, a partir do caráter binário, oferecem ao público inúmeras possibilidades de ler, reler, investigar, interpretar, reinterpretar, agir e interagir nas várias manifestações, abertas às novas acepções e discussões. Entrem e fiquem à vontade!

 

Estefânia Tumenas

curadora

 

OBRAS

 

1) Tales Frey, Pé 45 Sem Par – Variante I, 2021. Escultura, aprox. 8 m;

2) Tales Frey, Dupla Penetração, 2020. Caixa de luz, 120 x 10 x 15 cm cada;

3) Tales Frey, O Corpo Nunca Existe em Si Mesmo – 120 bps, 2020. Videoinstalação em loop;

4) Tales Frey, Cento e Trinta e Duas Figuras Corpóreas Como Mediações Sígnicas – Variante Estática, 2020. Desenho digital, 60 x 40 cada;

5) Tales Frey, Thighlighting, 2021. Objeto cinético, aprox. 70 x 70 cm.

6) Tales Frey, Dos Gestos que Sobrevivem em Nós, 2020. Vídeo, 4’29”.

 

Vídeo promocional da exposição Entre a Tensão e o Delírio (2021) de Tales Frey no CAAA Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura na cidade de Guimarães em Portugal

 

Programa Paralelo

Conversa Corpo Reciclado, com Tales Frey e Estefânia Tumenas

16 de janeiro de 2021, às 16h00 (com transmissão on-line) | 60’

A curadora Estefânia Tumenas conversa com o artista transdisciplinar Tales Frey a respeito de sua prática, que transita entre as artes cênicas e visuais.

 

Mostra on-line de vídeos Através dos Afetos

 

 

16 de janeiro de 2021, às 17h00 (com transmissão on-line) | 90’, 16 anos

Esta sessão de vídeos inéditos agrega trabalhos realizados por onze artistas do Brasil que exploram a linguagem do vídeo em comunhão com a performance, considerando as temáticas do corpo, das identidades e das subjetivações. Todos os trabalhos foram criados através do curso online “Laboratório de Pesquisa e Criação em Videoperformance”. Artistas: Alexandre Marchesini, Chris Oliveira, Danilo Reis, Kaete Terra, Mauricio Igor, Helena Marc, Karla Samantha, Leo Bardo, Ronan Gonçalves, Soul Nascimento, Vitor Barbara e Yohana Oizumi.

 

FICHA TÉCNICA

Em breve.