Tales Frey

“Em Conversa com Tales Frey”, por Mafalda Remoaldo (2015)

 

Esta entrevista de Mafalda Remoaldo foi publicada em: exc magazine (n. 1, Outono de 2015).

 

“Tô a chegar”

Entre a brisa fria fintando os raios de sol, acende-se o isqueiro para fumar o último cigarro. Num instante, surge Tales seguido do seu marido, Paulo. Este tem, por cima da sobrancelha, uma nova tatuagem onde se lê Gisberta – “é uma transexual que foi morta aqui no Porto, brasileira, em 2006. Um caso horrível” –, que funciona como “estandarte” para chamar a atenção para esse nome que, apesar da polêmico, nunca teve um rosto.

Tales e Paulo fundaram a Cia. Excessos em 2008 na qual, através de múltiplas práticas artísticas com vídeo, performance, fotografia e body art, refletem sobre normas socialmente estabelecidas, com uma especial incidência no universo queer. Com trabalho reconhecido um pouco por todo o mundo, a dupla acredita que “caminhamos para um desfecho diferente” na cena LGBTTQ, apesar de ainda imperar “muito o sentimento de culpa cristã” resultante de mais de 2 mil anos de cultura com uma marcada raiz religiosa.

No entanto, nada os demoveu de realizarem o seu casamento-performance intitulado Aliança – “eu queria não ser só um número e acho que não fui”. Durante o evento, “muita gente começou a ligar pedindo que não acontecesse”, mas a cerimônia não parou – e eles também não.

 

MAFALDA REMOALDO: Foi na cidade brasileira de Catanduva que nasceste e cresceste. Com quem passaste a tua infância?

 

TALES FREY: Passei minha infância com pessoas incríveis com as quais ainda mantenho contato. Mas as melhores mesmo são as minhas duas irmãs, com quem convivi intensamente.

 

MAFALDA REMOALDO: Em criança, o que querias ser quando fosses graúdo?

 

TALES FREY: Sempre quis ser artista, mas, quando criança, queria ser ator e não tinha noção do que era performance. Meu avô, por exemplo, foi quem me incentivou a cursar Arte Dramática e até me orientou a buscar um curso super tradicional oferecido na Universidade de São Paulo. No fim da infância, quase na adolescência, comecei a fazer teatro e, desde então, nunca mais abandonei a arte. Acabei optando por fazer uma graduação em Direção Teatral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2003, ou seja, acatei aquele meu sonho de infância e segui em frente.

 

MAFALDA REMOALDO: O que te levou a ingressar na arte da performance?

 

TALES FREY: Não sei ao certo, mas fui gradativamente explorando menos a arte da interpretação e toda a ficção do teatro. Gostava de ver e fazer coisas onde o corpo como signo em si já pudesse funcionar como um discurso complexo e ativo de sentidos.

 

MAFALDA REMOALDO: De momento, trabalhas em conjunto com o teu marido Mãe Paulo na Cia. Excessos, onde exploram temáticas relacionadas à teoria e às políticas queer. Como começou esta fusão entre arte e vida?

 

TALES FREY: Como a performance é uma expressão em que o artista torna-se inseparável da sua obra, essa conexão entre arte e vida acabou por ser imprescindível. Os nossos trabalhos todos abordam questões pessoais que são universalizáveis, dilemas que advêm de um microcosmo, mas que comunicam ao macrocosmo porque pertencem ao macro também. Trabalhamos muito com uma arte confessional, com a autorrepresentação, mas sempre acionando micropolíticas que são inerentes às nossas vidas. Nossa vida já discorre sobre os assuntos que queremos abordar. Sendo assim, por que não transpormos parte do que vivemos para o âmbito artístico, não é mesmo?

 

MAFALDA REMOALDO: É fácil gerir uma relação que se envolve com o que fazes profissionalmente?

 

TALES FREY: Eu e Paulo somos amigos acima de qualquer coisa. Nós raramente entramos em conflito e acho que é isso que faz todo sentido nesta parceria que fizemos. Quase toda nossa vida cotidiana está interligada. Se não fossemos casados, seríamos melhores amigos.

 

MAFALDA REMOALDO: Por que o nome Excessos?

 

TALES FREY: Excessos da companhia vem do excesso dionisíaco em oposição ao humano tangenciado pela proibição, pelo impedimento e pelo limite. Para Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, o elemento dionisíaco é o próprio excesso, é a hybris, o descomedimento, é a expressão do que desfaz uma ordem e uma moral apresentadas como opressivas, que nesta obra ele associa a Apolo, quem configura a ordem, a razão, a perfeição, mas também a castração. O excesso, nesse sentido, é a fuga de uma ordem embrutecedora, é a permissão de um discurso figural e não só logocêntrico ou falologocêntrico.

 

MAFALDA REMOALDO: Em vosso trabalho, “o corpo é pivô” da mensagem. Por quê?

 

TALES FREY: Em cada um de nossos corpos, estão timbradas complexas gamas de micropolíticas que já versam sobre assuntos muito específicos que nos fazem extremo sentido e, sendo assim, podemos utilizar nossos próprios corpos como veículo e suporte da nossa criação artística.

 

MAFALDA REMOALDO: O casamento-performance Aliança, que encerrou a série Beijos, oficializou a união entre ti e o Paulo. Podes descrever-nos como se desenrolou esse momento marcante?

 

TALES FREY: Eu sei que afirmei, em sinopses da exposição Beija-me, que Aliança marcou o fim dessa série, mas acho que a obsessão ainda não terminou. Criei alguns trabalhos a mais usando o beijo como elemento principal de ação depois do casamento.

Bom, mas falemos da cerimônia. Ela aconteceu em três etapas. Na primeira, em que eu e Paulo usávamos muitos batons, com um tipo de fixação que dura vinte e quatro horas, nós beijávamos a parede toda de uma das salas do espaço expositivo, eu de um lado e Paulo de outro, até que nos encontrássemos e déssemos um beijo. O batom de cor roxa, com o processo de secagem, ganhava tonalidade negra. Vale lembrar que, no chão daquela sala, havia a nossa silhueta corporal ligada através de um beijo composta por crisântemos, correspondendo a um tipo de flor usada em velórios no Brasil. A intenção era justamente criar um clima afável e mórbido ao mesmo tempo, porque, apesar do romantismo todo, temos consciência da nossa efemeridade e, diferentemente de um ritual religioso católico, por exemplo, meio em que dificilmente poderíamos estar para celebrarmos a nossa união, a crença na transcendência da alma é demasiadamente considerada. Já em nosso caso, trata-se de uma cerimônia mais cética e, assim, assinalamos ali a nossa crença na matéria e na sua decomposição constante. Do que temos certeza é da vida e não do além dela.

A segunda etapa corresponde à marca deixada em nossa boca devido à fricção oriunda da própria ação e, também, ao uso de um batom de longa duração. A terceira etapa é a assinatura do contrato de casamento num cartório da cidade.

 

MAFALDA REMOALDO: Para além do seu caráter pessoal, Aliança questiona também a normatização do gênero e da orientação sexual. Que impacto pensas que esta instalação terá tido na comunidade queer?

 

TALES FREY: Na comunidade queer, não sei precisar, porque não faço obras especificamente para serem apreciadas por um público específico. Para quem se identifica com as teorias e políticas queer, acho que fui ao encontro dos preceitos que as envolvem. Já no senso comum, acho que consegui causar algum desconforto através do que foi exposto. A própria exposição abordava uma proposta de ruptura com relação aos regimes de normalização quando eu apresentava situações correspondentes ao que um sistema heterocentrado exige, mas subvertia códigos simples, e isso embaralhava completamente o julgamento sobre uma determinada situação. Por exemplo: da série Beijos, proponho beijos heterossexuais, mas com “roupagem gay”, em que o homem traja vestido e a mulher um look tido por masculino. Com esse trabalho, evidencio que o preconceito é muito maior com relação à quebra da norma do que com relação à sexualidade em si.

 

MAFALDA REMOALDO: Acreditas que, apesar de formalmente aceito, existe ainda muita resistência em relação ao casamento homossexual em Portugal e no Brasil?

 

TALES FREY: Não tenho dúvidas. Lá e cá existem tabus ainda a serem quebrados. Até doar sangue em Portugal é alvo de discussão quando trata-se de um homossexual que declara ter uma vida sexual ativa. Mas e se for um heterossexual com uma vida sexual igualmente ativa? O que muda? Levemos em conta que mesmo se nas duas situações estejamos a falar de relações monogâmicas, ainda assim o homossexual é tido como pertencente a um “grupo de risco”. Isso é só uma prova mínima dos diversos preconceitos existentes ainda. Quando o assunto é casamento entre pessoas do mesmo sexo, infelizmente, ainda há muita relutância por parte de uma massa extremamente conservadora.

 

MAFALDA REMOALDO: Segundo Richard Schechner, os “rituais transformam as normas da vida”. De que forma o casamento transformou as vossas?

 

TALES FREY: No nosso dia a dia, nada foi efetivamente transformado, pois já vivíamos como casados antes. Mas a noção de eficácia, tratando-se desse autor, é que jamais seremos solteiros novamente; podemos ser divorciados, viúvos, mas o nosso estado civil está para sempre alterado depois da efetivação do casamento.

 

MAFALDA REMOALDO: Em Aliança, fala-se também da necessidade de inventar novos rituais ou de se adaptar rituais antigos para encontrarem um novo sentido. O casamento é um ritual que precisa ser redefinido?

 

TALES FREY: Levando em conta o conceito de Aliança, o que está em questão é como quase todo cerimonial religioso de casamento exclui o que foge de um sistema heterocentrado. É nesse sentido que aponto a tal invenção de rituais próprios. Mas, sinceramente, acho mesmo que cada um deveria criar o próprio jeito de fazer esse cerimonial, mesmo que muitos códigos se repitam.

 

MAFALDA REMOALDO: Na tua cidade natal, 6 dos 71 casais a darem o nó em 2012 são homossexuais. Qual foi a sensação de contribuir para elevar este número?

 

TALES FREY: Eu queria não ser só um número e acho que não fui. Resolvi fazer a cerimônia como performance e dentro da galeria de arte da Secretaria Municipal de Cultura. Não fiz um evento para convidados; era livre a entrada como em qualquer exposição de arte que acontece ali. Achei importante fazer o conteúdo todo da exposição servir como um veículo forte de comunicação de ideias não restritas a quem pratica e vê arte com frequência. Queria que todas e todos acessassem as obras de vídeos, as fotografias, além da performance-ritual de casamento. Fazer esse evento no interior de São Paulo e não na capital foi uma estratégia, pois, no noroeste paulista, uma exposição como esta talvez não fosse realizada tão cedo. Talvez nunca acontecesse.

 

MAFALDA REMOALDO: O que é para ti a família?

 

TALES FREY: Família é com quem convivemos e criamos um laço estreito de confiança, amor e de trocas absolutamente verdadeiras de experiências.

 

MAFALDA REMOALDO: A adoção por casais homossexuais em Portugal é (ainda) um direito não concedido. Isso leva-te a considerar voltar para o Brasil, onde é legal?

 

TALES FREY: Acredita que foi na minha cidade natal que houve a primeira adoção por parte de um casal homossexual? Não há lei nenhuma aprovada no Brasil que permita tal coisa, mas há processos e, felizmente, esse casal é um dos poucos que conquistaram esse direito concretizado. E respondendo à pergunta, se tiver intenção de ter filhos, será onde estiver. Vou até o fim na minha, no meu desejo de ter cada direito meu garantido.

 

MAFALDA REMOALDO: Nos Estados Unidos, um advogado avançou recentemente com uma proposta para legalizar a morte dos homossexuais no estado da Califórnia. A proposta terá que reunir pelo menos 356 mil assinaturas em 180 dias para poder ser submetida a votos, mas no espaço de um mês conta já 37 mil. O que pensas perante situações como esta?

 

TALES FREY: Discursos de ódio como esse deviam ser considerados crime. No Brasil, tem políticos a afirmarem que gays devem ser reprimidos com violência física. Afirmações desse gênero precisam ser repreendidas com mais veemência. É preciso dar o exemplo de que esse comportamento não tem bom desfecho ou um fim livre de processos judiciais. Proferir palavras de ódio e incitar a violência contra qualquer pessoa não tem nada a ver com liberdade de expressão, mas há boçais a confundir uma coisa com a outra.

 

MAFALDA REMOALDO: O islamismo, o judaísmo, o cristianismo e outras religiões são provavelmente as maiores responsáveis pelo preconceito e exclusão nesses casos. De que forma a aceitação por parte dessas comunidades poderia provocar uma mudança social, política e, por consequência, jurídica?

 

TALES FREY: Não sei responder esta pergunta. Eu acho é que todos deviam crer no humano e abdicar de vez dessa crença descabida em algo sobrenatural.

 

MAFALDA REMOALDO: Como imaginas o panorama da comunidade queer em Portugal e no Brasil daqui a dez anos?

 

TALES FREY: Creio que a política e teoria queer será muito mais disseminada. A internet tem colaborado muito nesse aspecto. E sou otimista em acreditar que a humanidade, gradativamente – ainda que em passos de tartaruga –, caminha em direção ao respeito das diferenças. Há pouco tempo, o negro e a mulher eram assumidamente renegados na sociedade. Hoje, ainda são, mas há uma dissimulação como se houvesse uma situação mais igualitária para todas e todos. Para a comunidade LGBTTQ acontece o mesmo. E creio que caminhamos para um desfecho diferente de atrocidades como as vistas na primeira metade do século XX, como foi o holocausto, por exemplo.

 

MAFALDA REMOALDO: Ficou algo por dizer nesta conversa?

 

TALES FREY: Não tenho dúvidas de que poderíamos passar meses conversando sobre estes assuntos todos, mas, tratando-se de uma entrevista para ser lida, acho que podemos ficar por aqui.