Tales Frey

“Entrevista com Tales Frey sobre ‘Indicadores da Carne'”, por Bruna Costa

 

Esta entrevista de Bruna Costa foi publicada em: Sotaques (Outubro de 2020).

 

Tales Frey é artista transdisciplinar, dentre tantas outras coisas que não caberiam neste espaço. Nascido em Catanduva/São Paulo, Brasil, atualmente vive e trabalha no Porto. Expõe regularmente tanto na Europa quanto na América Latina e foi contemplado com diversos prêmios tanto no campo compreendido pelas artes visuais quanto no de artes cênicas. No âmbito da sua mais recente individual intitulada “Indicadores da Carne” que foi inaugurada no dia 19 de setembro e que permanece para visitação até o dia 24 de outubro, na Galeria Ocupa, conversamos brevemente desde sua prática como um todo às particularidades dessa nova exposição.

 

BRUNA COSTA: Tales, a definição de artista transdisciplinar parece muito adequada ao que você faz; você transita entre diversos tipos de saberes, possui múltiplos projetos (no teatro, na dança, nas artes visuais, na literatura, na produção editorial) e realiza trabalhos que podem se apresentar de diferentes maneiras. Onde começam seus interesses artísticos e como foi a construção de uma prática que se desdobra em várias outras?

 

TALES FREY: Desde muito cedo, eu tenho interesse por diversas expressões artísticas. Quando eu era criança, eu desenhava sempre e inventava sequências de desenhos para stop motion sem nem ter consciência ainda do modo como uma animação quadro a quadro é feita, então eu criava uns televisores de papel para passar a sequência toda que era desenrolada de um lado para ser enrolada do outro como um pergaminho. A temática dos meus desenhos era sempre muito insolente, sempre violenta e hipersexualizada e, hoje, eu tenho clara noção de que eu extravasava nessas expressões tudo o que eu reprimia por conta do contexto conservador da cidade onde nasci. Eu desenhava por conta própria sem ter nenhuma técnica e fiz isso até a adolescência.

No final da infância, eu comecei a desenhar croquis de figurinos, imitando os que a minha mãe fazia para elaborar os indumentos das coreografias de dança que ela criava. No final dos anos 80 e início dos 90, a minha mãe teve uma academia de ginástica chamada Corpus e eu acompanhava tudo de longe: ensaios, criações das temáticas, escolhas das músicas, figurinos etc. Depois, tudo ficava sendo reverberado em mim de algum modo. Aí, com 11 anos, eu decidi finalmente me integrar a um grupo de teatro amador da minha cidade, o qual ensaiava justamente na academia da minha mãe e, então, foi depois desse grupo que eu admiti para mim que teria a arte como uma profissão a ser seguida. Foi através do teatro que percebi isso.

Com 19 anos, eu ingressei em Direção Teatral na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, como sempre fui de me atrever até nos campos artísticos que eu não tinha muito domínio, eu já entrei na faculdade tendo algumas experiências não só como ator, mas também como operador de luz, operador de som, como cenógrafo e como figurinista. Quando ingressei na faculdade, transitei muito entre os vários campos existentes no teatro, TV e carnaval. No meio disso tudo, a performance foi aparecendo como uma expressão que me satisfazia demais, porque através dela, eu conseguia reunir muitas habilidades que me interessavam, cruzando todas as práticas numa única. E, depois, fazendo registros em vídeo e fotografia dos meus trabalhos, comecei a perceber outras linguagens possíveis, descobrindo assim o meu interesse pela videoperformance, videoarte, fotografia, até que outros vestígios começaram a servir de expansões da ação ao vivo, podendo um objeto indicar a performatividade de uma ação e, deste modo, comecei a elaborar uma série de indumentos e adornos performativos.

Realmente, eu transito muito desde sempre entre uma linguagem e outra e, por isso, o termo transdisciplinar me parece o mais adequado para o meu caso.

 

BRUNA COSTA: Movimento e permanência. Como a sua trajetória artística se relaciona com a história de sua migração para Portugal? O que se nota que mudou ou permaneceu desde o início até os últimos anos de atuação no Porto?

 

TALES FREY: Acho que tudo foi transformado desde a minha vinda pro Porto. Quando eu me mudei em 2008 para Portugal, eu já tinha bastante experiência no teatro, desde a formação em Direção Teatral pela UFRJ até o trabalho que realizei na assistência de direção com o Antonio Abujamra em São Paulo na Funarte e adereços de cenário e figurino para o Miguel Falabella no Rio de Janeiro juntamente com o Cláudio Tovar, que assinava cenário e figurino, ou seja, já havia trabalhado na esfera amadora e nas grandes produções profissionais. Mas ter essa bagagem no currículo não resolvia muito o meu problema ao chegar num território novo, talvez por haver uma estrutura colonial muito resistente no Porto, então os meus projetos e as minhas tentativas de inserção da minha prática no circuito portuense das artes cênicas eram quase sempre desconsiderados.

Até 2008, embora eu já praticasse performance, o teatro era a minha principal expressão artística, mas como eu não era inserido em absolutamente nada no contexto português, resolvi fazer as minhas primeiras ações para o espaço urbano por conta própria e sem nenhum vínculo institucional e, a partir dos registros dessas intervenções, eu consegui os primeiros contatos na cidade com as estruturas mais inclusivas, dentre elas Maus Hábitos (Daniel Pires) e Embaixada Lomográfica (Jorge Taveira). Esses registros possibilitaram que eu me projetasse para espaços de arte de outros países, então, fui apresentar performance ao vivo em Chicago na Defibrillator Gallery, na Polônia na Galeria Labirynt e, ainda, apresentei registros em vídeo na Galleria Moitre em Turim na Itália, na Kuala Lumpur 7th Triennial na Malásia, no The Kitchen em Nova York no lançamento do Emergency Index Vol. 1, entre outros vários espaços e, apenas depois disso, gradativamente comecei a ser inserido no Porto.

O Alberto Magno (programador de dança) estava em Lublin justamente quando eu fui mostrar performance ao vivo na Galeria Labirynt na Polônia e, depois disso, ele me chamou para ministrar um programa chamado “Visiting Artists” no Mosteiro de São Bento da Vitória e, na sequência, o Tiago Guedes (programador do Teatro Municipal do Porto) me inseriu no Teatro Municipal Rivoli em algumas programações a partir de 2015 e isso acabou por legitimar o meu trabalho como um artista do Porto. Aí, o José Maia (curador do Espaço Mira) assumiu uma curadoria para a minha exposição com a Mãe Paulo, onde abordávamos uma temática um tanto tabu para o Porto ainda naquele momento. Depois, estava fazendo curadorias de arte, estava nas bienais locais, fóruns, enfim, entrei para uma parte do circuito local. Por fim, percebo que transitei das artes cênicas para as artes visuais, embora ambos meios têm relações com a minha prática atual.

 

BRUNA COSTA: A sua formação acadêmica se assemelha muito a sua produção artística: um trânsito entre as artes visuais e as artes cênicas, além da migração para outras localidades. Os projetos que você desenvolveu e desenvolve neste percurso acadêmico são compreendidos pela sua prática ou a tangencia de algum modo?

 

TALES FREY: A minha formação e pesquisa acadêmica estão totalmente relacionadas à minha prática artística e percebo que, ao mesmo tempo que há uma grande confirmação de uma pesquisa estética prática enquanto tenho todo o respaldo e acompanhamento teórico, há uma fricção pela falta de um encaixe adequado entre uma coisa e outra. Na graduação, eu dirigi um espetáculo de teatro que já flertava com uma linguagem mais visual, envolvendo vídeo e também uma ambientação não convencional. Eu criei uma versão subversiva de “Sapatinhos Vermelhos” num enquadramento underground, soturno, com uma pulsão de vida absurda através de signos muito mórbidos e muito sexuais e aquela linguagem não foi bem vista na academia, mas foi perfeitamente bem recebida no contexto alternativo do Rio de Janeiro quando fiz duas temporadas do espetáculo numa pista de dança num subsolo de Copacabana, mais precisamente no clube noturno Fosfobox.

Já no Porto, durante o mestrado em Teoria e Crítica da Arte, eu despontei com os trabalhos práticos mais alternativos ainda e busquei findar de vez a minha produção de obras mais autorais e, embora eu não estivesse a elaborar uma escrita sobre a minha prática, estava a pesquisar algo que colaborou demais para as minhas próprias criações artísticas. No doutoramento, decidi fazer uma tese-projeto pensando em criações práticas, onde eu pudesse elaborar ações de performances novas e isso ocorreu na Universidade de Coimbra em Estudos Artísticos, que funciona em vínculo com o departamento de letras, ou seja, estava nas letras afirmando a imagem como possibilidade de existência sem que a palavra fosse o cerne da criação. Ou seja, o meu percurso acadêmico e a relação dele com a minha prática só confirmam a minha fluidez por entre esses dois campos que tanto me atraem: o das artes cênicas e o das artes visuais. 

Do ponto de vista da migração, percebi que passei a considerar mais ainda a minha subjetividade e identidade como elementos formadores de um campo simbólico no meu trabalho, afinal aqui sempre sou olhado como um sul-americano que veio viver na Europa.

 

BRUNA COSTA: Uma fala sua diz que “No momento em que a gente nota em que determinado corpo foi alterado, quer dizer que tudo ao seu redor foi transformado, porque o corpo é um poderoso indicador de modificações em andamento numa sociedade; o corpo é um revelador de contextos”. O trabalho de arte, e ainda mais o que envolve os corpos, também tem o poder de afetar um entorno. Quais as dinâmicas entre um corpo que é afetado e afeta seu entorno reverberam para você?

 

TALES FREY: Essa frase vem de um artigo que li da Helena Katz comentando o Walter Benjamin. Eu completaria ainda com uma frase do Paul Preciado que diz algo assim: “aceitar que a mudança que acontece em mim é a mutação de uma época”.

Eu tenho cada vez mais certeza de que a performance me atrai muito porque ela considera algo que é muito característico do ritual, ou seja, a transformação. Nós estamos sempre nos transformando e nós somos afetados pelo meio em que estamos inseridos ao mesmo tempo que o afetamos.

Essa noção passou a ser alvo de sondagem em todas as minhas concepções e, então, mesmo quando estou apresentando um trabalho não-inédito, percebo que em cada contexto ele acontece de um modo específico e isso pode estar diretamente associado a essa ideia de que estamos em constante transformação e que há uma relação de interdependência entre a nossa interioridade, exterioridade e o que nos rodeia.

 

BRUNA COSTA: Você inaugurou uma individual num contexto de retomada das atividades públicas sob esse sentimento geral de alerta e cuidado. Quais as repercussões da pandemia no seu processo que poderão ser observados em “Indicadores da carne”, uma vez que sua prática costuma se atentar ao entorno?

 

TALES FREY: Intuitivamente, fui caminhando para a materialização de esculturas bidimensionais e de desenhos que se expandem pro espaço físico num conjunto de coisas que se assemelham às colagens. Até meus vídeos passaram a apresentar essas sobreposições de camadas que lembram a colagem e acho que tudo isso se deve ao fato da nossa vida ter se tornado esse amontoado de layers de telas luminosas. Hoje, passamos muito mais horas de frente pros ecrãs e nos autorregulamos a partir do conteúdo que aparece em cada uma dessas telas. O dispositivo na minha produção também acabou por ser repensado. Passei a criar mais peças tangíveis e tenho reciclado mais, então muitos materiais que utilizei vieram do lixo. Até mesmo papel simples eu evitei comprar e preferi criar os meus próprios papéis mais rugosos e menos industriais e que carregam uma expressividade muito maior na sua materialização. 

 

Bruna Costa vive e trabalha no Rio de Janeiro, Brasil. É curadora independente, historiadora da arte e professora. Formada em História da Arte pela EBA/UFRJ, com período sanduíche em Sapienza University of Rome, na Itália, atualmente é mestranda em Artes Visuais no PPGAV/UFRJ. Dentre seus projetos, se destacam a co-curadoria no “1º Salão Vermelho de Artes Degeneradas”, no Atelier Sanitário e assistência de curadoria em “Arte Naïf: nenhum museu a menos” na EAV Parque Lage, ambos em 2019. Possui interesses de pesquisa sobre a cor na história da arte e sobre produções periféricas na arte contemporânea. É tutora de História da Arte e Turismo no consórcio CEDERJ, faz parte da equipe editorial da revista Arte&Ensaios e da eRevista Performatus.