Aliança (2013)

 

Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey), Aliança. Performance realizada em Catanduva, Brasil. Março de 2013. Fotografias de Gustavo Rosa Fontes, Nathália Mello e Paola Frey

 

Se a Cia. Excessos se tornou uma “pré-Aliança” da minha parceria de vida e de trabalho com o Tales, por que não tornar realidade a “Aliança”? Para isso decidimos não apenas casar, mas criar um rito de passagem em que o nosso casamento fosse o mote principal. Casamos no dia 15 de março de 2013 no cartório do registro civil da cidade natal do Tales, em Catanduva. Apesar de a regulamentação do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo no estado de São Paulo entrar em vigor a partir de dezembro de 2012, foi somente em maio de 2013 que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou uma resolução que obrigava todos os cartórios do Brasil a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Então, na altura em que decidimos nos casar, apenas alguns cartórios realizavam o casamento e, mesmo depois dessa imposição a todos os cartórios do país pelo CNJ, muitos juízes de alguns estados agiam por vontade própria e não permitiam o casamento.

Como parte da exposição Beija-me, realizada entre os dias 5 e 13 de março de 2013 na Estação Cultura em Catanduva, e completa pela série de beijos do Tales, anunciamos que no último dia executaríamos o começo do rito de passagem intitulado “Aliança”. Havia um anexo disponível para acontecer tal performance no espaço da exposição e, em seu centro, existiam nossas silhuetas se beijando preenchidas por flores típicas de velório – crisântemos. O ambiente, apesar de ser lindo, tal como num casamento, era também mórbido, mas havia um certo tipo de humor. Convidamos, em nosso anúncio, o público para levar flores como se fosse para um funeral, pois, aqui, é importante observar que a condição de solteiro de cada um estava morrendo e estávamos entrando na condição de casados. Mesmo que nos divorciemos ou nos separemos judicialmente, nunca mais seremos solteiros. Então, tinha essa condição em nosso rito de passagem, que pressupunha um poder de transformação eficaz. Era uma transformação definitiva, sem volta.

Quando chegamos na exposição, para realizar a performance, Tales e eu estávamos vestidos igualmente com camiseta preta mesclada com estampa floral concebida pelo nosso querido estilista Mario Francisco, da Der Metropol. Ao entrar no recinto, sem convívio social da nossa parte, cada um começava a beijar a parede de um lado da entrada da sala – eu comecei pelo lado esquerdo e o Tales pelo lado direito. Meus beijos foram frenéticos, já os do Tales foram delicados. Para descrever a ação, imagine que estou de frente para a parede. Então o primeiro beijo se dá na minha altura, e assim vou beijando até chegar ao rodapé da parede. Existe uma racionalidade na construção dessa sequência de colunas de beijo. Tal racionalidade manifestava a nossa vida, o nosso cotidiano e, quando nos encontrávamos no espaço da performance, a coluna deixava de existir e surgia um caos de beijos na parede, que era a energia da relação. Finalmente, a ação terminava com um beijo entre Tales e eu.

Ao mesmo tempo, um vídeo com todas as nossas marcas corporais, desde cicatrizes a tatuagens, era exibido no espaço da performance. O Tales fotografou todas as marcas corporais do meu corpo e eu as do corpo dele. Assim, se as marcas possuem histórias, quando o vídeo foi editado para ficar super acelerado a intenção foi de fundi-las para não ser possível detectar qual era a marca de quem. O mesmo se passou com a silhueta de flores. As pessoas, no trânsito da performance, iam desconstruindo, desfazendo o beijo da silhueta. Na medida em que as pessoas chegavam com flores, além de o evento ganhar uma outra imagem com esses novos elementos, pouco a pouco sumia a imagem do beijo.

Outro detalhe importante é que o batom utilizado no início da ação era de coloração roxa, mas, com o processo de secagem na parede depois do beijo, ele vai ficando negro. No último ponto da performance, no caos de beijos, trocávamos os batons roxos por outros de coloração de um vermelho bem intenso. Então, esses beijos caóticos que se formavam eram vermelhos e os anteriores eram todos negros. Novamente vemos aqui aquela ideia que traz a condição de solteiro em processo de morte, de mutação para uma outra condição de existência.

Apesar de tudo, era uma festa de casamento que até tinha duas “noivetes” (garçons crossdressers). Os dois estavam travestidos com vestido tipo de casamento, e serviam doces – beijinhos, por conta do contexto da exposição, e bem-casados, por ser doce típico de casamento –, além de limonada do deserto.

Enfim, após a performance, que durou mais ou menos duas horas, o elemento que apresentava a transitoriedade entre a data da performance e a data da assinatura do contrato de casamento no cartório é a marca do batom. Detalhe, todos os batons utilizados na performance tinham duração de 24 horas. Além de estarmos então com o borrão na cara por termos beijado muito a parede, tínhamos também nossos narizes esfolados.

 

(HENRIQUE, José Carlos. “Entrevista com Paulo Aureliano da Mata”. eRevista Performatus, Inhumas, ano 4, n. 15, jan. 2016. ISSN: 2316-8102.)

 

FICHA TÉCNICA

Concepção e Performance: Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey) | Garçons crossdressers: Carlos Alexandre e Lucas Alves | Duração da Ação: em torno de 2 horas | Realização: Cia. Excessos | Catanduva, SP, Brasil | Março de 2013

→ A performance foi executada como parte da exposição Beija-me, a qual foi realizada pelo VI Festival de Formas Poéticas e pela Dell’Arte Associação Cultural, com apoio do Governo do Estado de São Paulo, da Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural 2012 (PROAC).

 

Cia. Excessos (Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey), Aliança, 2013. Vídeo, 2’35”

 

HISTÓRICO

AO VIVO

[2013] Exposição coletiva Beija-me. Organização e curadoria de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey. IV Festival de Formas Poéticas, Estação Cultura, Catanduva, SP, Brasil.

 

SOB FORMATO VIDEO, INSTALAÇÃO E/OU FOTOGRAFIA

[2016] Exposição coletiva Em Estado de Guerra. Organização e curadoria de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey. Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra, Portugal.

[2015] Exposição coletiva Beija-me. Organização e curadoria de Paulo Aureliano da Mata e Tales Frey. SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil.

[2013] Exposição coletiva Moda e Religiosidade em Registos Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey. Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura – CAAA, Guimarães, Portugal.

 

Diário da Região: O Avanço do Casamento Gay. Catanduva, 10 de dezembro de 2014. Ver em: http://issuu.com/ciaexcessos/docs/di__rio_da_regi__o_dezembro_2014