Tales Frey

Proxim(a)idade

 

Tales Frey (Cia. Excessos), frame de Proxim(a)idade, 2013

 

Na data de comemoração da minha próxima idade, uso meu corpo como campo simbólico para converter signos que marcam o ritual de passagem do meu aniversário em anúncios da proximidade com a minha morte. Do festejado novo ano de vida, assinalo o anúncio do meu falecimento.

A temporária juventude e beleza dão lugar à senilidade construída de elementos presentes tanto nas contentes festas de aniversário quanto nos fúnebres eventos de velórios. A performance explicita a comemoração de uma mocidade cética, obcecada pelo consumo do que é fugaz, mas cheia de entusiasmo, ladeada da velhice apegada à fé metafísica por medo de um cruel desfecho num vácuo. A contradição enfatiza dois andamentos advindos de uma mesma data, em que comemoramos um ano a mais de vida e lamentamos o tempo que nos conduz à morte.

Com esse trabalho, assumi o compromisso de criar uma performance nova para cada aniversário até o resto da minha vida. Finalizo essa série intitulada Memento Mori com o meu velório transformado também em ritual estético.

 

HISTÓRICO

AO VIVO

[2016] Memento Mori, SESC Sorocaba, Sorocaba, SP, Brasil.

[2016] Memento Mori, SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil.

[2015] Memento Mori, SESC Santos, Santos, Brasil.

[2015] Performapa, SESC Ipiranga, São Paulo, Brasil.

[2015] SESC Santana. São Paulo, Brasil.

[2015] 83º Aniversário do Teatro Municipal Rivoli. Porto, Portugal.

[2014] p.ARTE – Mostra de Performance Art. Curitiba, Brasil.

[2014] Corpo Hospedeiro. SESC Rio Preto. São José do Rio Preto, Brasil.

[2014] Performance. SESC Campinas, Campinas, SP, Brasil.

[2013] Performance Platform Lublin 2013. Labirynt Gallery, Lublin, Polônia.

[2013] Exposição coletiva Moda e Religiosidade em Registros Corporais. Organização e curadoria de Tales Frey (Cia. Excessos). SESC Campinas, SP, Brasil.

 

SOB FORMATO VÍDEO, INSTALAÇÃO E/OU FOTOGRAFIA

[2016] Memento Mori. CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura, Guimarães, Portugal.

[2015] Mostra Performance em Encontro. Curadoria de Cássio Quitério. SESC Campinas, Campinas, SP, Brasil.

[2015] Exposição coletiva Cemitério do Peixe – Morte e Magia nas Artes VisuaisCuradoria de Francilins. Cemitério do Peixe, Conceição do Mato Dentro, Minas Gerais, Brasil.

[2013] Inauguração da Associação Cultural ZOOM, Barcelos, Portugal.

 

FICHA TÉCNICA

Performance de Tales Frey | Duração da ação: em torno de 3 horas | Realização: Cia. Excessos | Guimarães, Portugal 2013 | Lublin, Polônia 2013 | Campinas, SP, Brasil 2013 | São José do Rio Preto, Brasil 2014 | Curitiba, Brasil 2014 | Porto, Portugal 2015 | São Paulo, Brasil 2015

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Proxim(a)idade. Performance realizada em Guimarães, Portugal. Junho de 2013. Fotografia de Paulo Aureliano da Mata, 100 x 56,2 cm. Edição: 5 + 2 P.A.

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Proxim(a)idade, 2013. Vídeo, 2’39”. Edição: 5 + 2 P.A.

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Proxim(a)idade, 2013. Vídeo, 1’58”

 

Tales Frey (Cia. Excessos), Proxim(a)idade, 2015. Vídeo, 1’17”

 

Efemeridade Versus Eternidade: Ode aos Vermes e aos Confeitos de Chocolate

Este texto de Thais Nepomuceno foi publicado em: idança.net (Julho de 2013).

Conflituosas e circunjacentes na cultura contemporânea, mais do que uma mera afinidade, Tales Frey, com a Cia. Excessos, propôs uma espécie de ósculo entre a moda e a religiosidade, que serve de motivo para as concepções performativas do coletivo expostas [1] no Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura na cidade portuguesa de Guimarães entre 1 e 30 de junho de 2013. Registos fotográficos e videográficos do duo de artistas brasileiros que vive entre o Brasil e Portugal garantiram a materialidade de uma expressão artística que, em princípio, apresenta-se como efêmera. Por vezes, não são sinais palpabilizados dos gestos performativos, mas sim a concretização da própria obra rotulada como “fotoperformance” e “videoperformance”, ou seja, gêneros artísticos que combinam a performance com outros meios de expressão.

Um inócuo convite recebido para presenciar, in loco, a performance-aniversário intitulada Proxim(a)idade, do artista Tales Frey, descrevia o evento – dia 20 de junho – como um rito de passagem e ritual artístico. E, precisamente, trata-se sim de um ritual no sentido estrito do termo, tal e qual o teórico Émile Durkheim descreve quando diz que “ritual é pensamento em/como ação” [2], ou ainda Richard Schechner, que destaca pensadores como Arnold van Gennep e Vitor Turner para reconhecer as dinâmicas espetacularizadas do ritual quando menciona as sucessões de passagens das quais a vida é composta, o que significa exatamente “ritos de passagem”, que produzem transformações decisivas (ideia de eficácia da performance), como, por exemplo, o casamento, o funeral e o aniversário. O performer de fato fez uso de todos os elementos citados acima em suas criações; em Aliança, realizou, com Paulo Aureliano da Mata, um casamento no sentido estrito, mas diluído em um ritual artístico. Em Proxim(a)idade, cumpriu a passagem dos seus trinta anos de idade para os trinta e um, como se seu corpo, horas antes de ressurgir com a idade nova, ocupasse uma espécie de casulo para, posteriormente, renascer, ressurgir, voltar ao meio depois da passagem transformadora.

Tales estava maquiado com uma pasta sobrecarregada de chocolate no rosto, ornada por granulados coloridos e outros doces igualmente avivados. Seu corpo estava enrolado em sua totalidade com fitas de múltiplas cores, como uma múmia. Do centro do seu corpo, na altura do umbigo, divergiam trinta e uma fitas que sustentavam equivalente número de balões a gás. O corpo permanecia quase imóvel (respiração intensa e espasmos eram repetidos) sobre um palco italiano iluminado por três pares de refletores. Um foco, com a precisão de um refletor elipsoidal, delimitava uma mesa farta de guloseimas que permanecia fora do palco, onde o público podia interagir. Um áudio permanecia em loop, narrando, em palavras desconexas (quase esquizofrênicas), o paradoxo existente no dia em que comemoramos mais um dia de vida e ao mesmo tempo lamentamos a aproximação do nosso derradeiro fim.

A imagem festiva se perdia na funesta quando víamos o corpo responsável pelo evento em estado de mumificação, ladeado por uma mesa que, ao invés do clássico chá, café e bolachas de um funeral, estava repleta de doces e sucos próprios de um aniversário de criança. Víamos um velório ao mesmo tempo que enxergávamos uma animada festa infantil, sem bebidas entorpecentes, pois o excesso de cores e de açúcar já estabelece tal torpor, já destrói o limite entre ação e espectador. Alguns comiam os doces que enfeitavam o corpo do artista, como o beijo derradeiro no defunto ou como o dedo que fura o bolo da festa antes de ele ser servido.

A performance-ritual era, igualmente, performance-instalação; portanto, apesar do palco italiano e das cadeiras na plateia, o público podia subir no palco, sair e retornar à sala quando bem entendesse. A “inação” durou quase três horas e, provavelmente, exigiu grande preparo físico do performer; este, sem fazer quase nenhum movimento com o corpo, conduziu-o à completa exaustão, que percebemos em outros trabalhos da Cia. Excessos, tais como em Re-banho (2010), Beija-se (2012), Atendo ao Molde (2013), Aliança (2013) etc.

Perseguidos e escravizados por uma mídia que tem obsessão pela beleza e juventude, deduzimos que os correspondentes sinais do nosso derradeiro fim, da nossa natural decomposição, podem (ou ainda, devem) ser mascarados, disfarçados por debaixo de grosseiras maquiagens, dissimulados pelo auxílio das cirurgias plásticas, quando deviam ser simplesmente aceitos, pois, como sabemos, não somos eternos e, dia a dia, adquirimos sinais de tal efemeridade da vida. Talvez através da simbologia dos balões que fariam a alma do performer levitar, subir, ascender, transcender, ele, ceticamente, queira nos demonstrar que os balões, na verdade, são frágeis demais e estouram antes de nos moverem para qualquer outro lugar, provando o laconismo da vida e o natural apodrecimento da matéria, motivo que faz o ser humano, por medo, alimentar a sua repugnância com relação à sua condição natural para não encarar o fato de não ser eterno.

 

NOTAS

[1] Refiro-me a exposição Moda e Religiosidade em Registos Corporais. De Tales Frey, estão expostos os seguintes trabalhos em vídeo e/ou fotografia: Re-banho (2010), Faceless (2011), Beija-se (2012), Por um Fio (2012), The Other Asphast Kiss (2012), Dismorfofobia (2012), (De)Reter-se (2013), Atendo ao Molde (2013), Sede Vós (2013) e, ao vivo, a ação Proxim(a)idade (2013). De Paulo Aureliano da Mata: o tríptico fotográfico Romance Violentado (2011). De ambos artistas: Aliança (2013), sob forma de fotografia.

[2] SCHECHNER, Richard. apud. LIGIERO, Zeca (org). Performance e Antropologia de Richard Schechner, p. 58.

 

Impressões de Quem Esteve Próxima: Um Relato das Reflexões Suscitadas pela Performance Proxim(a)idade, de Tales Frey

Este texto de Ana Cristina Joaquim foi publicado em: Sotaques (Março de 2015).

Quão próximos estamos da morte? A quantos passos e conforme que velocidade ela caminha em nossa direção? Varia a velocidade? À distância de um despenhadeiro? De um país longínquo ou de um avião que sobrevoa o atlântico no trajeto LIX-GRU? À distância do hospital mais próximo coberto pelo plano de saúde que mensalmente nos previne de males tais?

Sobre a proximidade ou vizinhança em relação à morte só é possível falar de duas maneiras: ou em retrospecto, isto é, por meio da distância que nos empurra, segundo a segundo (com horas, dias, meses e anos mensuráveis), para mais longe do dia do nosso nascimento; ou em prospecto simbólico – e é nesse sentido que nos inquieta o título escolhido por Tales Frey para a performance elaborada em ocasião do seu trigésimo primeiro aniversário: Proxim(a)idade. Inquieta justamente por tornar evidente a proximidade progressiva da morte a cada próxima idade completada. É de tempo que se trata, portanto. Se digo prospecto, o termo ecoa temporal: a morte, não estando no passado nem no presente, só pode estar no futuro. Mais além, se digo simbólico, digo por acreditar que apenas simbolicamente é que podemos nos situar mais ou menos próximos da morte, pois não é a morte uma ideia vaga e fugidia, da qual só temos notícia pela via negativa? Experiência da ausência: o outro que já não está. A morte é símbolo – afirmo – e assim o é sempre que tivermos em vista a vida como alvo, o medo como foco, a dúvida como permanência, o corpo como limite.

Convém, enfim, tomar como eixo este que é presença & existência (no presente, claro, único tempo que nos resta): o corpo, ele mesmo eixo de qualquer ação performática. Conforme as palavras do performer Tales Frey: “uso meu corpo como campo simbólico para converter signos que marcam o ritual de passagem do meu aniversário em anúncios da proximidade com a minha morte”. Com a finalidade de se “transformar em uma espécie de múmia, com a forma de um defunto”, o performer concebe o ato como “uma espécie de funeral, em que os observadores pudessem conversar, beber e comer, enquanto contemplassem meu [seu] corpo quase inerte no espaço”: daí a proxim(a)idade pela qual a morte se apresenta ao público.

Tales Frey permanece deitado por três horas, com o corpo quase todo enrolado em fitas coloridas (com a exceção da cabeça, que está coberta por confeitos, cremes de bolo, granulados e balas de goma coloridas) e preso a balões de hélio pela cintura, na altura do umbigo, “como se quisesse fazê-lo [o corpo] ascender”. Novamente os signos se confundem, num procedimento que dilui o jogo de oposições: do corpo-bolo ao corpo-múmia, das cores diversas (celebração da vida) à imobilidade (sintoma de mortificação); os balões coloridos – característicos das festas de aniversário em que se comemoram o nascimento – são o elo de maior impacto visual entre vida e morte, já que apontam para o céu, destino mítico do espírito destituído de corpo. Acontece, entretanto, uma inversão de maior importância, que recoloca o corpo no centro da questão vida/morte: a simbologia implicada nos balões torneando a cintura incide propriamente sobre o corpo, de modo que não se trata do espírito em ascensão, mas do corpo mesmo, matéria ascendente carregada pelos balões em número coincidente com a idade do performer.

Algumas palavras ainda, palavras, aliás, com que somos embalados no decorrer da performance: em off, a voz de Tales Frey levemente distorcida para o grave, repetindo, por 3 horas seguidas, fragmentos de lembranças de aniversários precedentes em mescla com reflexões sobre a morte. Ouvimos: “Vermes nos doces”… “Acender velas. Ascender. Subir”… “Tenho todos os anos. tenho todos espelhos”… “Urna. Caixão. Saudável”… “Natureza morta”… etc. etc. etc.

Trata-se mesmo de uma identidade (vide a figura do espelho) que se persegue no entretempo entre vida e morte, com as duas palavras a ressoar repetidas nas figurações imagéticas ali propostas, como uma espécie de redemoinho cronológico em que o ponto de princípio é também o ponto de chegada.

Venham ver a morte encarnada, está ao alcance dos olhos, da escuta, do toque, do olfato (odor adocicado, sedutor…) e, por que não, do paladar: aproximem-se!